Andrew Garfield: O Espetacular Homem-Aranha que a Sony sabotou

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Andrew Garfield: O Espetacular Homem-Aranha que a Sony sabotou

Por Gus Fiaux

Homem-Aranha é um desses super-heróis – assim como o Batman e o Superman – cujo legado é mais vital para Hollywood que qualquer ator que possa interpretá-lo. É por isso que, não importa em que ano estejamos, nós sempre teremos um filme do Homem-Aranha em cartaz ou a caminho dos cinemas. E é exatamente por esse motivo que, em 2012, cinco anos após o fim da trilogia de Sam Raimi, a Sony deu início a uma nova saga do herói.

Com uma nova história, uma origem rodeada de mistérios e um carisma inabalável de seus protagonistas, a franquia O Espetacular Homem-Aranha pode ter durado pouco – foram só dois filmes lançados em um intervalo de dois anos – mas ainda assim deixou sua marca no mundo dos super-heróis. E enquanto fazemos nossa maratona em todas as aventuras do Amigão da Vizinhança, chegou a hora de falar dessa saga!

Andrew Garfield deu vida a Peter Parker na “trilogia” de Marc Webb.

Colocando o “Espetacular” para jogo

Com seus amantes e detratores, O Espetacular Homem-Aranha e sua continuação definitivamente são filmes interessantes de serem analisados dentro de um contexto maior. Na semana passada, falamos um pouco sobre os três filmes de Sam Raimi protagonizados por Tobey Maguire, e em nossa busca pelo “melhor Homem-Aranha”, não podíamos deixar de citar ele – o Aranha que incorporou o espírito nerd dos anos 2010.

Andrew Garfield foi confirmado no elenco e logo ganhou notoriedade por ser o primeiro britânico ao assumir o papel do herói americano – e mesmo com toda a sabotagem da Sony, ainda conseguiu fazer de sua trilogia algo único e especial… mas pera aí… trilogia? Com dois filmes? Eu sei – não é um erro de digitação – e nós vamos chegar nesse ponto logo logo.

Mas enquanto Homem-Aranha: Sem Volta para Casa não chega aos cinemas com uma possível participação de Garfield e Maguire, vamos resetar nossos relógios até os anos de 2012 e 2014 para falar da saga de Marc Webb, filmes que trouxeram o herói em uma nova roupagem e que apresentavam um conceito bem diferente de “filme de super-heróis” do que temos hoje em dia. Preparado para se balançar por Nova York novamente?

Um traje feio que eu amo.

Um novo alvorecer para o Homem-Aranha

No começo dos anos 2010, a Sony viu que estava perdendo dinheiro em não aproveitar o que tinha em mãos. De um lado, a Marvel havia consolidado seu próprio império a partir de Homem de Ferro, e do outro, a DC também não estava nem um pouco atrás graças à trilogia do Cavaleiro das Trevas – isso sem contar o novo início dos X-Men pela Fox e outros projetos curiosos surgindo aqui e acolá – a Era dos Super-Heróis havia chegado para ficar.

É aí que o estúdio entra com uma nova ideia – um Aranha ainda mais jovial, que pudesse representar uma geração de fãs mais nova que cresceu vendo essas produções dos anos 2000 e estava ávida por algo novo, algo inteligente, algo… espetacular. E foi assim que eles contrataram Marc Webb – não apenas por ter um nome absurdamente apropriado para comandar a saga, mas também por seu hit de estreia, (500) Dias Com Ela.

A nova franquia foi tomando forma e logo alguns nomes foram sendo elencados. Andrew Garfield veio para tomar o lugar de Tobey Maguire e conquistou o público de primeira, não apenas por ser fisicamente idêntico ao herói das HQs, mas por também ser um fã de carteirinha – isso enquanto Emma Stone nos deixava estonteados e surpresos com um carisma que valia milhões, sem contar o fato de parecer a cara cuspida e escarrada de Gwen Stacy.

SÃO ELES!

E desde o começo, a Sony conseguiu nos convencer desde o material promocional – o primeiro teaser do filme, que mostra apenas o ponto de vista do próprio Homem-Aranha correndo em cima de prédios e se balançando, até pular em um prédio espelhado, onde temos um vislumbre melhor de seu traje é um verdadeiro trabalho magistral. E o filme finalmente saiu, no mesmo ano que gigantes como Os Vingadores O Cavaleiro das Trevas Ressurge. 

Aqui, o que vemos é uma tentativa muito esforçada e bem intencionada de criar uma nova mitologia para o Aranha, ainda que usando alguns dos mesmos signos e convenções que já haviam sido utilizados na trilogia de Raimi. Temos a morte de Tio Ben, um Peter Parker aprendendo a criar responsabilidade, um par romântico perfeito idealizado em Gwen Stacy e, é claro, um cientista bondoso que se torna vilão – mas dessa vez, era o Dr. Curt Connors.

Quando saiu, a recepção foi calorosa – embora não necessariamente flamejante. O filme foi muito elogiado pelo uso de computação gráfica, pelo arco de desenvolvimento de Peter e, principalmente, pelo romance entre ele e Gwen, o que até hoje é a melhor representação de um relacionamento do herói nos cinemas – eu vou além e digo que é o maior e melhor romance em uma franquia de super-heróis.

De cientista maluco o mundo dos super-heróis está cheio!

E mesmo as “críticas” não me impedem de ver esse como sendo um filme redondinho e muito bem trabalhado – um exemplo disso é o traje, que muitos criticaram por não ser lá o mais fiel possível aos quadrinhos. Porém, levando em conta que é um traje amador feito pelo próprio herói – e vemos o processo de construção desse uniforme – realmente acredito que seja um dos visuais mais autênticos e genuinamente bonitos em um filme de super-heróis.

E o Peter de Garfield não decepciona ao ser “Espetacular”. Embora ainda seja muito mais imaturo e inexperiente que a contraparte de Maguire, esse Aranha tem momentos genuinamente emocionantes – como toda a sequência na qual o herói salva uma criança em um carro prestes a cair em uma ponte, e logo em seguida se proclama como Homem-Aranha pela primeira vez.

É um filme curioso e que vem de uma época interessante, onde o “sério e sisudo” estava começando a dar espaço para uma estética muito mais próxima dos quadrinhos. Marc Webb faz um ótimo trabalho nesse sentido, e é bem impressionante como o filme parece ser (ao menos em seus aspectos técnicos) a colisão perfeita entre os primeiros filmes do Universo Cinematográfico da Marvel e a estética mais sóbria adotada pela Fox e pela DC.

Segundo filme traz elementos legais, mas foi sabotado pela pressa da Sony.

O maior vilão do Aranha é a Sony

E embora não tenha feito grande sucesso – a bilheteria foi menor que todos os três filmes anteriores de Raimi -, nós tínhamos um novo Aranha nos cinemas e a Sony não ia perder a oportunidade de dar a ele a franquia mais explosiva e insana o possível… e é aqui que o problema começa. Dois anos depois, após muitos conflitos entre o estúdio, Marc Webb Andrew Garfield, temos a estreia de O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro.

Lembra quando eu falei, lá no começo do texto, que mesmo tendo apenas dois filmes, isso soava como uma trilogia? Esse filme é o responsável pelo meu comentário. Aqui, temos duas histórias lutando para serem contadas, e as duas não possuem força o bastante para se tornar algo Espetacular no nível do primeiro filme. A impressão que passa é que temos dois filmes isolados em um só: O filme que Marc Webb queria fazer e o filme que a Sony queria feito.

Muito disso se deve ao tempo e ao contexto em que esse longa foi lançado. Em 2014, a Marvel Studios já conseguira furar a bolha e mostrar que seus Vingadores vinham para ficar. E no meio desses universos compartilhados que estavam se erguendo – a Warner ainda engatinhava com o seu -, a Sony não queria perder uma fatia do bolo feito dos milhões de dólares que poderiam arrecadar na bilheteria.

Dane DeHaan como Doente Verde.

E é aqui que a coisa não apenas começa a degringolar, mas descarrilha por completo. Sabe todas as críticas que os fãs costumam fazer sobre Homem-Aranha 3? (Um filme sem foco, com muitos personagens e momentos toscos?). Eu não concordo muito com esses comentários, apesar de reconhecer alguns problemas do filme, mas O Espetacular Homem-Aranha 2 sofre desses mesmos males.

Há vilões demais – e nem falo pelo Rino, que mais parece uma piada de mau gosto colocada para agradar os fãs, mas o filme compete entre Electro – um personagem que, apesar de cartunesco, se torna intrigante após a transformação – o Doente Verde (digo, Duende) – que sobra por apressar o desenvolvimento entre Peter e Harry Osborn em um só filme – e a própria Oscorp – que era o ponto central da saga.

Não bastasse isso, fica nítido como a Sony queria empurrar a maior quantidade de elementos possíveis. Temos uma participação da Gata Negra (embora não em sua persona vilanesca), a continuidade do mistério envolvendo os pais de Peter (que foi de nada a lugar nenhum em dois filmes), uma estação de trem secreta, um cientista maluco alemão caricato, uma mãozinha de teia e, é claro, a morte de Gwen Stacy.

~Engole o choro~

Isso não quer dizer que o filme não tenha seus pontos positivos – e dá para ver Marc Webb se esforçando ao máximo para levantar esse avião. Toda a simbologia envolvendo relógios e a forma como o filme trabalha o tempo se esvaindo nas mãos de Peter é sensacional – o que faz com que a morte de Gwen seja um ponto ainda mais dramático e trágico quando inserido nesse contexto.

Mas não há como negar: houve sabotagem aqui na forma de “meter os pés pelas mãos”. Antes mesmo do filme ser lançado, a Sony se preparava para novas continuações, um filme do Sexteto Sinistro e até mesmo um spin-off focado na Tia May (não, isso não foi um delírio coletivo). E assim como se levantou no topo dos maiores prédios de Nova York, a franquia do Espetacular Homem-Aranha também caiu até o chão.

E o pior de tudo é que, vendo hoje em dia, eu até nutro um carinho especial por esse filme. Só havia assistido uma vez nos cinemas e detestado com todas as forças. Mas revendo, fica nítida a tentativa de um cineasta de ir contra os planos corporativos de um estúdio para entregar uma obra minimamente coesa. Infelizmente, ele só arranha essa superfície, mas o resultado causa um sorriso no rosto, seja pelo arco de Peter ou pelo belíssimo traje – o melhor já usado pelo Aranha em todas as suas adaptações live-action.

Garfield nos mostrou o que é ser Espetacular.

Andrew Garfield Marc Webb não mereciam que sua saga morresse dessa forma – especialmente levando em conta como o filme termina “pra baixo” com a morte de Gwen (mesmo que ainda haja uma cena particularmente fofa do Aranha ao final, antes de enfrentar Rino). Mas os interesses em Hollywood mudam tanto quanto os inimigos do Aranha nos cinemas, e todos nós sabemos no que isso acabou resultando…

Pouco tempo depois, o estúdio fecharia um acordo bilionário com a Marvel Studios para integrar uma nova versão do Amigão da Vizinhança ao MCU – e essa é a versão que temos até hoje, enquanto a Sony continua fazendo tudo o que pode para “marcar seu território” com a franquia de “antagonistas do Aranha que nunca enfrentaram o Aranha”. Mas Garfield sempre estará marcado como o fã que quebrou o teto e alcançou seu maior sonho.

Assim como Tobey Maguire incorpora o que há de melhor em Peter Parker, Andrew Garfield incorpora o que há de melhor no Homem-Aranha, em seu jeito leve de ser, na ação sem limites e no heroísmo inspirador. Dois Aranhas de épocas diferentes, mas que incorporam o melhor e o pior do zeitgeist e do contexto cinematográfico de suas eras. E por mais que seu final não tenha sido tão marcante, Andrew Garfield ainda foi um Espetacular Homem-Aranha!

Homem-Aranha: Sem Volta para Casa estreia no dia 16 de dezembro.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux