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Loki: Como era o Deus da Trapaça na Mitologia Nórdica?

Por Gabriel Mattos

Pensando nos filmes de Thor para o Universo Cinematográfico Marvel, como você descreveria o Deus da Trapaça? Talvez como o filho adotivo de Odin com Frigga, irmão revoltado de Thor ou herdeiro renegado de Asgard… Saiba que originalmente, na mitologia nórdica, Loki não era nada disso!

Como era Loki nos mitos?

O Deus sem culto

Sua história foi muito corrompida ao longo dos tempos, mas os próprios registros antigos não ajudavam muito. Conhecido por suas travessuras, Loki não era amplamente cultuado como os demais e boa parte dos seus feitos se restringiram a antigas sagas, estilo literário de característica tipicamente escandinava.

Por essa razão, segundo o professor de história medieval na Universidade Estadual de Londrina (UEL) Lukas Gabriel Grzybowski, que é doutor em história medieval e moderna pela Universidade de Hamburgo, chega a ser difícil determinar com exatidão qual era o seu papel primordial no panteão nórdico.

Pedra entalhada com a imagem de Loki com os lábios costurados

“Para os outros personagens, a gente tem uma pequena vantagem para seu estudo, pois temos uma quantidade significativa de vestígios do mundo material”, explica. Enquanto Thor, Odin e Frey deixaram vestígios de oferendas para agradá-los, Loki era apenas representado em ilustrações de seus feitos nas lendas. “Tem algumas poucas representações de figuras aprisionadas. Tem uma figura famosa que tem um personagem com o que se parece com uma boca costurada”, relata.

Domínio de mistérios

Sem muitas evidências concretas deixadas pelos povos escandinavos de qual domínio relegaram a esse Deus, pesquisadores procuraram outros meios para tecer suas teorias. No século XIX, Jacob Grimm estudava a hipótese de que Loki fosse o Deus do Fogo. “A etimologia da palavra Loki está próxima da palavra do nórdico antigo para Fogo.”, lembra.

Como a maior parte dos mitos nórdicos foram compilados na Islândia entre o século XIII e XIV, período em que o cristiano lutava para se estabelecer na região, houve também uma tentativa de traçar paralelos ao Diabo. “Muitos tentaram ler a criação de um Lúcifer pagão para se opor a Odin, que seria um líder divino positivo.”, comenta com empolgação.

A série Loki flerta com interpretações antigas da divindade

Apesar dessas hipóteses não serem as mais aceitas pela comunidade acadêmica atualmente, essa relação entre Loki e Odin é de fato observada nos mitos. Não é tão simples quanto o maniqueísmo cristão, mas há uma dualidade quase poética entre eles, quase como uma inversão.

“Alguns estudiosos sugerem que Loki é uma hipóstase de Odin.”, levanta. É quase como se eles fossem feitos da mesma substância divina, mas se apresentassem de formas diferentes. Dois lados da mesma moeda.

Transgressor por natureza

Essa teoria ganha mais força quando analisamos a genealogia de ambas divindades. Lukas explica que “na mitologia, muitos desses deuses, dos aesir e vanir, apresentam um parentesco que na linhagem paterna são deuses e na linhagem materna são gigantes, os Jötnar. É o caso do Odin, por exemplo.”

Loki não era bem vindo nas festas.

Com Loki, acontece o inverso: “o pai é Fárbauti, que é um gigante, e a mãe é Laufey, que é uma deusa.” Entre os deuses, ele era normalmente referido como Laufeyarson, o filho de Laufey, para ressaltar seu sangue divino.

Todos os demais aesir e vanir eram lembrados pelo nome do pai. Era uma ruptura muito grande que acarretava em um tratamento diferenciado pelos demais. “O fato do Loki aparecer como filho da Deusa, colocava ele numa condição especial dentro desse cenário.”

Devido a essas condições incomuns de nascimento, os mitos tinham o cuidado de se referir ao Deus da Trapaça como sendo “contado entre os aesir”, rejeitando seu pertencimento a família por suas particularidades. Sua ambiguidade fazia com que o vissem como um vira-casacas. Afinal, era impossível saber com quem estava sua lealdade.

Essa desconfiança alimentava sua fama de malandro, o que era justificado por suas diversas atuações como enganador. Apesar do senso comum, é possível que as motivações de Loki não sejam puramente maldosas. Pode ser considerado a reação de alguém constantemente oprimido por seus iguais.

A sombria verdade sobre Thor

Thor era mais bruto nos mitos

Muito disso não é representado com exatidão nos filmes, séries e jogos que trazem a figura do Loki, construindo uma ideia equivocada no imaginário da população. Para Grzybowski, uma das maiores mentiras disseminadas por essas obras é a relação entre Loki e Thor.

“Ele é um companheiro do Thor em muitas aventuras, mas se ele é próximo de alguém na mitologia, é do Odin.”, reflete. Na verdade, quando os falsos irmãos são forçados a interagir nos mitos, sempre parte de Thor uma agressividade verbal gratuita contra o Deus da Trapaça, com direito a ameaças e xingamentos.

Quando você não explora isso, parece que o Loki é mala, é mal e apronta todas de graça, mas no fundo tem uma dinâmica que é muito complexa entre os dois”, expõe. Geralmente esse lado rude do Deus do Trovão é higienizado para não manchar sua imagem heróica, mas acaba exagerando a visão nefasta que temos de Loki.

“Muitas das coisas que o Loki faz, ele faz para salvar a pele dos deuses”, acrescenta. “Minha leitura é que ele se sacrifica muito para se sentir ou se fazer integrado nessa sociedade. Que ele não seja só contado entre os deuses, mas que ele seja um.”

Aliados da trapaça

Os filhos de Loki representado em quadros

Outras diferenças das representações contemporâneas é sua fluidez de gênero, que segundo Grzybowski acontece pontualmente nos mitos de forma bastante pragmática. Mas um ponto importante que não recebe a devida atenção é a prole do Deus da Trapaça.

A maioria dos filhos de Loki tem alguma relação com os eventos do Ragnarok, mas apenas os mais agressivos costumam ganhar destaque. Com sua esposa, a deusa Sigyn, ele tem o jötunn Narfi — morto pelos deuses como punição às travessuras de Loki. Suas entranhas são usadas para prender seu pai até a chegada do Ragnarök, obrigando sua esposa a zelar pelo marido.

“Essa é uma história bem interessante. Ele fica preso e uma cobra é colocada pingando veneno em cima dele. E Sigyn fica segurando uma bacia em cima do Loki. Mas quando a bacia tá cheia, ela precisa jogar o veneno fora. Nisso, caem algumas gotas no Loki e ele se contorce de dor. E essa é a justificativa para que ocorram os terremotos, por exemplo”.

Com a giganta Angrboda, ele tem três filhos: Jörmungandr, a serpente que circunda os universos; Fenrir, o algoz dos Deuses; e Hel, a regente do mundo dos mortos. E após uma relação induzida com o garanhão Svadilfari, Loki acaba gerando a montaria de oito patas de Odin, Sleipnir.

Sigyn é uma figura importante para Loki

Considerando esse elenco de figuras satélites ao Loki, Grzybowski julga que seria interessante explorar de um ponto de vista mais dramático as mulheres próximas ao Deus com maior protagonismo. Entender as motivações de Sigyn, por exemplo, daria uma boa história. “Apesar de ela ser uma aesir, de ela estar entre os deuses, ela vai proteger o Loki.”

As origens conturbadas de Hel como a regente dos mortos também renderia uma obra deveras interessante. “Podiamos entender o porquê dos Deuses que obrigam ela a ir ao Niflheim consideram ela um monstro.”, sugere. “Elas trariam um pouco mais em destaque o caráter complexo do próprio Loki.”

Os filmes e a série da Marvel fazem um trabalho competente na hora de explorar o caráter dúbio do personagem, mas pequenas alterações em sua construção poderiam resultar em um Loki mais fiel aos mitos e mais interessante como figura.

Loki pode surpreender em série

Além de reforçar as atitudes descabidas do Thor e a jornada árdua de provação de Loki, celebrar a genealogia de Loki tornaria a história ainda mais rica por acrescentar conflitos bastante delicados. “Ele tem uma mãe que é aesir. A gente poderia criar um cenário em que ele é um sobrinho do Odin e criar a trama a partir disso.”

Com a estreia da série solo, a Marvel pode enfim levar o Deus da Trapaça para novos caminhos, assimilando cada vez mais elementos dos mitos originais. Resta aguardar para ver o que o futuro reserva para Loki.

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sobre o autor Gabriel Mattos

Redator que joga mais Switch do que deveria e já leu todo o novo cânone de Star Wars, até os livros ruins. • @gabeverse