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Assassin’s Creed: Valhalla –  Como era a relação dos Vikings com os outros povos?

Por Cristiano Rantin

Quando pensamos nos Vikings a primeira coisa que costuma vir em nossa mente são as guerras e a violência. Em praticamente todas as adaptações da cultura pop na qual eles aparecem, nos livros, séries e filmes, estes elementos estão presentes. E em Assassin’s Creed: Valhalla isso não é diferente. Mas como de fato era a relação dos Vikings com os povos vizinhos?

Bom, para começar é preciso entender que os Vikings não eram um povo, mas uma profissão, a da pirataria. É o que afirma Lukas Gabriel Grzybowski, professor de história medieval na Universidade Estadual de Londrina (UEL), doutor em história medieval e moderna pela Universidade de Hamburgo, na Alemanha, e pesquisador sobre a representação da Idade Média nos jogos.

Os piratas escandinavos, que podem ser chamados de vikings, são diferentes dos povos germânicos que ocuparam o território da Escandinávia. Portanto, dá para imaginar que a relação de piratas saqueadores com os povos vizinhos não seria das melhores.

“Seria redundante sugerir que nenhum território visitado por piratas saqueadores se mostrava muito receptivo à sua presença ali”, comenta. “A imagem que temos hoje desses saqueadores deriva justamente das vítimas relatando como esses indivíduos eram terríveis.”

Além de acabar reduzindo os povos nórdicos – como os dinamarqueses, suecos e noruegueses – como parte dos piratas Vikings escandinavos, essa representação focada na violência também limita os famosos “vikings”. Estudos apontam que, mais do que os conflitos, saques e pirataria, os escandinavos eram grandes comerciantes, conseguindo dominar as rotas comerciais de toda a Europa desde muito cedo, mas isso acaba sendo apagado diante do “mito Viking”.

Como Grzybowski destaca, eles cultivaram contatos comerciais importantes com o império romano e tinham uma relação forte com o oriente, chegando até Constantinopla, o Oriente Médio, Grécia e Pérsia. “É provavelmente a grande retração da circulação de bens e a queda na qualidade de vida experimentada pelo Ocidente ao fim do período antigo que impediu um desenvolvimento análogo nos territórios da Europa centro-ocidental e insular”, afirma.

Portanto, o professor explica:  “Em geral podemos considerar que a dinâmica das relações entre os escandinavos  e seus povos vizinhos era muito parecida como de qualquer outra região, variando de atividades amigáveis sobretudo no campo comercial, e enfrentamentos diretos, tanto em virtude das pilhagens e da pirataria no norte europeu, quanto, posteriormente, em razão das políticas expansionistas de reis escandinavos sobre os territórios do continente e das ilhas britânicas.”

Em Assassin’s Creed Valhalla, os jogadores são convidados a acompanhar a jornada de Eivor, viking das costas da Noruega que tenta conquistar as terras agrícolas da Inglaterra do século IX. De acordo com o pesquisador, é este o período que “marca o início da expansão escandinava para o Ocidente e os primeiros conflitos com as populações do continente europeu e das ilhas britânicas.”

 

Nesta primeira fase de movimentação para as ilhas britânicas, a fundação de colônias não foi o objetivo central dos escandinavos, que estavam mais preocupados em realizar ataques rápidos e fugir ainda mais rapidamente. “Eram incursões de saque em territórios especialmente escolhidos para tal. Em geral atacaram as regiões mais próximas às costas e às partes navegáveis dos rios, levando pequenos contingentes para privilegiar a agilidade nos ataques,” explica. “Com o tempo, contudo, esses saqueadores começam a perceber a letargia e incapacidade de reação de francos e anglo-saxões, tornando-se cada vez mais ousados tanto no tamanho quanto na duração de suas temporadas de saques, a ponto de passarem os invernos acampados nos territórios, planejando novas ações contra assentamentos desprevenidos, sem serem gravemente importunados pelos habitantes das regiões, graças à sua fragmentação política e desorganização militar.”

É a partir deste ponto que se inicia a formação de colônias, tendo na Francia a região de maior sucesso para a colonização escandinava. Mas eles também se estabeleceram nos territórios britânicos e irlandês, ainda que, eventualmente, eles fossem expulsos.

“Mais tarde, ainda que se fale em incursões vikings, o que vemos são movimentos mais parecidos com guerras de conquista entre reinos mais ou menos organizados, como no caso do rei dinamarquês Sven Barba-bifurcada que conquistou boa parte do território inglês no começo do século XI e anexou-o ao seu reino.”

No jogo da franquia Assassin’s Creed, os principais conflitos são contra os ingleses. Mas para entender melhor a relação entre anglo-saxões e os escandinavos, é preciso compreender que houve fases diferentes destas interações.

O século VIII marca quando começam os saques e ataques mais frequentes dos escandinavos às ilhas britânicas. Como Grzybowski ressalta, é importante lembrar que a Grã-Bretanha não era tão organizada e centrada nesta época, assim como não possuía governantes sobre vastos territórios. “Era constituída por uma série de pequenas unidades políticas, cujo número exato é ainda tema de discussão entre os historiadores.”

Formados após o abandono da Grã-Bretanha pelos romanos no final da antiguidade, os reinos Anglo Saxões traziam grande complexidade social e política. Neste período de avanço dos vikings, eles eram organizados em uma heptarquia, ou seja, sete reinos anglo-saxões. “Eles possuem uma existência mais ou menos estável e bem documentada do século VI ao IX, abarcando, portanto, o início da ‘Era Viking’”, destaca o pesquisador. “Essex, Wessex, East Anglia, Mercia, Northumbria e Kent surgiram após a fase mais caótica e de mais difícil acesso documental que seguiu o final da Antiguidade na Ilha.“ Mas, como ele reforça, não foi só os reinos anglo-saxões que foram alvos das incursões escandinavas. A Escócia e o País de Gales também lidaram com isso.

“Em face de todas essas informações é possível vislumbrar o quão complexo é tratar de uma relação entre ‘ingleses’ e ‘vikings’ de modo genérico sem incorrer em graves simplificações e possíveis contradições,” defende Grzybowski. “Ao longo de todo esse período é possível considerar, como ponto de partida, que houve uma intensificação das relações entre escandinavos e anglo-saxões, escoceses e bretões, e que essas relações seguiam, em grande parte, os interesses econômicos desses grupos, sendo caracterizadas pelas trocas mais ou menos pacíficas entre os agentes.”

Após o final do século VIII, os piratas começaram a trazer problemas para os governantes anglo-saxões, como indicam as ordens do rei Offa de Mercia, que ordenou a construção de defesas costeias em 792. “A partir desse momento observa-se o incremento de saques à costa da ilha, que vão durar até meados do século IX, aproximadamente. Nessa fase, os saques são ligeiros e as forças escandinavas bastante módicas. Um saque em 789 contava com apenas três embarcações – o que leva a um número estimado entre 90 e 200 guerreiros –, e todo o período vivenciou em geral grupos relativamente pequenos de vikings causando danos à região costeira”

Em meados do século IX, os saques se concentram no território franco, aproveitando a crise política que surge após a morte de Luís, o Piedoso. Segundo Grzybowski, é a partir deste momento que as incursões ficam mais organizadas e as frotas mais numerosas, com os vikings ficando mais “ousados” e passando a montar acampamentos nos territórios atacados.

Em 865, eles voltaram às ilhas, e conseguiram conquistar East Anglia e parte de Mercia e Northumbria. Mas o avanço deles foi refreado por Alfred, o Grande, de Wessex, que fez com que eles voltassem para Francia. “Nos territórios conquistados, contudo, deu-se início a um rápido período de assentamento, sobretudo de noruegueses, mas que foram finalmente expulsos pelos reis de Wessex em 954, os quais passaram a desenvolver uma política expansionista e unificadora sobre os demais reinos em território britânico”, conta.

A partir de 980, os saques escandinavos voltam a ganhar força e culminam na conquista de territórios em 1013, feito dos dinamarqueses sob o comando de Sven, Barba-bifurcada. “Podemos então imaginar como essas relações entre anglo-saxões e escandinavos foram multifacetadas e complexas, variando entre períodos de trocas amigáveis e fases de enfrentamento direto”, finaliza o pesquisador. “O fato de os escandinavos terem conseguido estabelecer assentamentos com sucesso em território britânico aponta também para certa abertura no contato entre os povos, apontando para a hibridização das culturas e populações.”

Portanto, há mais nos escandinavos do que apenas guerreiros violentos ou piratas saqueadores. Indo além do “mito do viking”, temos comerciantes e estrategistas que conseguiram conquistar territórios e expandir relações comerciais com boa parte do mundo.

Para quem gostaria de se aprofundar nos mitos e cultura, o professor nos deixou a indicação de alguns livros.
Sobre mitologia e religião, ele recomenda “O livro da mitologia nórdica” de John Lindow e “Mitos do norte pagão” de Cristopher Abram; Sobre um panorama geral sobre o Vikings, temos os livros “The Viking World” de Neil Price e Stefan Brink e “The Vikings” de Else Roesdahl; Sobre as descobertas e perspectivas mais recentes sobre o mundo escandinavo, ele recomenda “The norsemen in the viking age” de Eric Christiansen; Já sobre o assunto mulheres no mundo Viking, ele deixa “Women in the viking age” de Judith Jesch como recomendação.

E ai, tá pronto para conhecer parte desta história em Assassin’s Creed Valhalla? O jogo já está disponível para PS4, Xbox One e Xbox Series X|S.

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sobre o autor Cristiano Rantin

Jornalista • Editor • Mestrando em Comunicação Social pela UEL • Twitter e Instagram: @Chris_Rantin • "Eu sou o fogo e a vida encarnados. Agora e para sempre eu sou a Fênix!"