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Loki: Entenda a filosofia por trás da série

Por Gabriel Mattos

No primeiro Vingadores, Loki se sentia o dono do mundo. Decidido a conquistar Midgard, seu plano era levar o caos aos principais centros urbanos, atacando templos, incendiando carros e tudo o que tem direito. Mas quando ele foi levado para a sede da Autoridade de Variação Temporal (TVA, no original), descobriu a dura realidade de que não era bem assim.

No início da série Loki, o Deus da Trapaça descobriu que, por todo esse tempo, ele estava fadado ao fracasso. Havia uma organização dedicada a proteger uma única linha temporal sagrada, garantindo que tudo terminasse sempre do mesmo jeito. Tudo terminaria com seu fracasso.

Incapaz de aceitar sua própria mediocridade, Loki decide confrontar as crenças da AVT. “Vocês não param de ficar se gabando sobre como são os árbitros divinos de poder no universo”, branda para Mobius M. Mobius. Achando graça, o detetive retruca: “Mas somos”, o que só deixa Loki mais irritado. “Não são!”, insiste “Minhas escolhas são minhas.”

Mas será que são mesmo? Esse conflito, entre Loki e os agentes da AVT, foi discutido incansavelmente na Filosofia Clássica. À ideia que o livre-arbítrio é uma ilusão, damos o nome de determinismo. Quem acredita no contrário, acredita no libertarismo. Vamos discutir um pouco sobre essas duas ideias e como elas se conectam com os temas da série Loki.

TVA e o Determinismo

Tudo que aconteceu e que acontecerá foi determinado pelos Guardiões do Tempo

Mesmo que praticamente ninguém tenha visto de fato os Guardiões do Tempo, todos os funcionários da AVT parecem acreditar que são essas entidades que ditam tudo o que acontece, aconteceu e que ainda vai acontecer. E todos os agentes da AVT foram criados com o glorioso propósito de defender essa Sagrada Linha do Tempo.

Se fôssemos interpretar os Guardiões do Tempo como divindades equivalentes às crenças judaico-cristãs, poderíamos encaixar essa ideia de Sagrada Linha do Tempo no conceito de pré-determinismo — a ideia de que tudo que acontece foi determinado no início dos tempos. Mas não é bem isso que a série nos diz.

No segundo episódio, ao ser questionado por Loki, Mobius afirma que o fim dos tempos ainda não foi escrito e que os Guardiões devem estar em sua câmera prevendo o que deveria acontecer.

Os fracassos de Loki seriam pré-determinados, segundo os Guardiões do Tempo

Para eles preverem o que poderia acontecer, faz mais sentido entender a sua presença como parte de um determinismo causal. Nesse modelo, tudo que acontece está fadado a acontecer como consequência de algo que veio antes e, dessa forma, não poderia acontecer de qualquer outro jeito.

Se eu gosto de alguém, por exemplo, não seria por meu sentido ter surgido de forma espontânea. Na verdade, esse seria o resultado de uma série de fatores como minha construção de padrões de beleza, minha construção de valores morais e o tempo de convívio. Nesse caso, eu fui condicionado a gostar da pessoa e não poderia evitar o surgimento desse sentimento. Faz sentido?

Segundo o filósofo Barão D’Holbach, figura importante do iluminismo francês: “Somos todos engrenagens de uma máquina fazendo o que fomos feitos para fazer sem nenhuma volição.” Tudo no universo opera como uma elaborada equação, meticulosamente vistoriada pelos Guardiões do Tempo. Sempre que o resultado de uma conta dá errado, o que na série é denominado Evento Nexus, a AVT envia seus agentes para garantir que esse modelo faça sentido.

Loki e o libertarismo

 

Loki desafia a ordem com libertarismo

Caso exista um único exemplo que conteste essa visão de mundo, teríamos uma prova que o livre arbítrio existe. Com a possibilidade de alternativas, haveria um multiverso de possíveis futuros. Algo que a AVT não pode tolerar, mas que enxergam na figura do Loki.

O Deus da Trapaça não consegue desapegar da ideia de que suas ações foram frutos puramente de sua vontade. Ele tenta a todo instante convencer Mobius de que as ideias defendidas pela juíza Ravonna Renslayer não são uma verdade universal.

Isso porque ele é um libertário, alguém que acredita que algumas ações são determinadas por vontade própria. Em outras palavras, livre arbítrio. Essas ações respeitam o princípio da possibilidade alternativa, isto é, uma ação é livre apenas quando seu agente precisou considerar outra opção. Mesmo quando esta opção era simplesmente não realizar a ação.

A Variante escolheu destruir a linha do tempo para criar um multiverso de possibilidades

Aqueles que defendem o libertarismo costumam distinguir os eventos entre os físicos, que ocorrem como consequência de outros eventos físicos, e aqueles que exigem um agente. Imagine um balão de ar, por exemplo. Se ele flutua até um espinho e estoura, é o resultado de um evento físico. Agora se eu ativamente escolho explodi-lo, a situação é diferente. Eu poderia não ter agido dessa forma. Houve então uma escolha.

A situação fica mais interessante para a tese do Loki quando consideramos a existência de variantes, cuja presença os Guardiões do Tempo se propõe a rapidamente esconder.

Para existir uma variante temporal, significa que existem de fato outras possibilidades nessa linha do tempo. O princípio da realidade alternativa parece ser respeitado. O que acontece é que essas variantes são simplesmente apagadas antes que possam ser plenamente desenvolvidas.

A grande catarse

Loki quer levar Mobius para o seu lado da força

No segundo episódio, “A Variante”, podemos perceber que Mobius está mais relutante em aceitar ambos modos de enxergar a existência no espaço-tempo. Ele enxerga as falhas no modelo determinista defendido pela AVT, só simplesmente escolheu acreditar no seu funcionamento.

Mas é possível que, com o decorrer da série, Loki comece a disseminar sua cultura libertarista. Especialmente considerando que derrubar o regime vigente para implementar o libertarismo parece ser seu objetivo final. Dado o devido tempo, Mobius pode começar a formular uma alternativa que acomode ambos pontos de vista, o que conhecemos como compatibilismo.

Essa vertente entende que apesar de existirem situações fora de nosso controle, na grande maioria das situações, estamos tomando decisões conscientes. E apesar de não termos muita certeza de suas consequências, devemos nos responsabilizar por nossos atos.

Loki precisa aprender a se responsabilizar por seus atos

Coincidentemente, era precisamente essa falta de responsabilidade por sua natureza caótica que faltava a Loki em suas atuações como Deus da Trapaça. Apesar de ter nascido para ser um agente do caos, se ele realmente defende o livre arbítrio, suas escolhas são de sua responsabilidade. Ele não foi mal por natureza, mas mal por escolha.

Em meados do segundo episódio, Loki declarou que “Ninguém mal é totalmente mal e ninguém bom é totalmente bom.” Entender o peso e as ramificações de suas ações pode fazer parte de seu arco de personagem nessa série. Talvez depois de destruir a linha do tempo e causar uma loucura no multiverso, o Deus da Trapaça entenda que pode haver liberdade, com responsabilidade. Isso de acordo com a filosofia.

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sobre o autor Gabriel Mattos

Redator que joga mais Switch do que deveria e já leu todo o novo cânone de Star Wars, até os livros ruins. • @gabeverse