Crítica: Não! Não Olhe! é o espetáculo experimental de Jordan Peele sobre a arte do cinema de gênero

Capa da Publicação

Crítica: Não! Não Olhe! é o espetáculo experimental de Jordan Peele sobre a arte do cinema de gênero

Por Arthur Eloi

Criado na comédia, Jordan Peele se tornou um dos nomes mais potentes do horror mundial quando comandou uma dobradinha de peso com Corra! (2017) e Nós (2019). Mesmo com poucos trabalhos, ele provou ter voz impactante em obras que combinam muita tensão, toques de humor e ácidos comentários sociais e raciais.

Peele também é apaixonado por cinema, especialmente de gênero. Se isso não ficou claro nas obras que produziu, como A Lenda de Candyman (2021) e o reboot de Além da Imaginação, Não! Não Olhe! surge como um poderoso espetáculo de ficção científica que exalta todas as qualidades da técnica e a paixão do diretor pelo audiovisual.

Ficha técnica

Título: Não! Não Olhe! (Nope)

 

Direção e roteiro: Jordan Peele

 

Data de lançamento: 25 de agosto de 2022 (Brasil)

 

País de origem: Estados Unidos

 

Duração: 2h 15min

 

Sinopse: Quando uma chuva de objetos aleatórios resulta na morte de seu pai, os irmãos OJ e Emerald Haywood tentam capturar evidências em vídeo de um OVNI com a ajuda de um funcionário de loja de tecnologia e um documentarista.

Seu elusivo terceiro filme é também o seu mais experimental até o momento, com uma trama repleta de partes que não parecem se conectar de início. Nos anos 90, um chimpanzé surta no set de uma sitcom e massacra o elenco e a equipe. Já no presente, o dono de um rancho de domadores de cavalos cenográficos morre ao ser atingido por uma moeda comum caída do céu. Mais tarde, seus filhos começam a suspeitar que o local está sendo atormentado por uma enorme nave espacial.

Separada em capítulos (cada um batizado com nome dos cavalos), a narrativa nunca se conecta de maneira óbvia e nem entrega respostas fáceis. É um longa que atira para muitos lados, algo que pode ser interpretado como experimental por uns, e desconjuntado por outros. Ainda assim, há componentes temáticos recorrentes, como a constante ligação à história do cinema.

Em Não! Não Olhem!, irmãos passam a suspeitar de ameaça alienígena em seu rancho

Os irmãos protagonistas, OJ (Daniel Kaluuya) e Emerald Haywood (Keke Palmer), orgulhosamente assumem “realeza cinematográfica” por serem descendentes diretos de Alistair E. Haywood – supostamente o cowboy que aparece nas fotos sequenciais de Eadweard Muybridge, cuja sensação de movimento é a base para a invenção do cinema. A ocupação da dupla é emprestar seus cavalos treinados para produções audiovisuais, portanto sempre estão presentes em sets. E quando notam a ameaça alienígena pela primeira vez, todo o objetivo se torna capturar a evidência perfeita em vídeo, com a ajuda de um técnico de informática (Brandon Perea) e um documentarista cult (Michael Wincott).

Na vida real, nunca existiu um Alistair E. Haywood. A identidade e a família do cowboy negro precursor do cinema são criação de Peele, uma especulação sobre os rumos da história do cinema a lá Tarantino em Era Uma Vez… em Hollywood, e que molda Não! Não Olhe! como uma ode ao pioneirismo negro na sétima arte.

Ao longo de toda a insana jornada, o cineasta sempre remete à presença negra no início da indústria cinematográfica, e faz alusão a um cinema que se desenvolveu e impressionou mesmo esnobado por Hollywood, sem nenhum tipo de apoio financeiro ou mesmo infraestrutura. “Gostamos de dizer que desde que as imagens passaram a se mover, nós tínhamos pele em jogo”, declara Em como parte do slogan do negócio de sua família.

Não! Não Olhe! é, essencialmente, um filme sobre a arte de fazer cinema

Sua exploração da história do cinema não acontece apenas em nível temático, mas também em um passeio por uma vasta gama de gêneros e estilos. O longa ecoa tanto Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977) quanto Sinais (2004) e Fim dos Tempos (2008) em seu suspense de invasão alienígena, mas logo expande seu repertório com pegada de faroestes, horror e até mesmo clássicos de anime sci-fi, como Akira e Neon Genesis Evangelion.

No meio disso tudo, o diretor demonstra sua excelência na técnica cinematográfica. Seu domínio da tensão nunca esteve tão afinado, em um filme altamente sufocante por sua intensa aura de mistério, e pela forma que demora para revelar seus horrores ao olhar do espectador. Os momentos mais explícitos são de arrepiar, e servem para demonstrar o profundo conhecimento do realizador sobre o gênero de horror: uma cena envolvendo uma literal chuva de sangue é um daqueles que ficará na memória, acredite. Seu estilo autoral se mistura com homenagens a grandes mestres, transitando entre Steven Spielberg, Alfred Hitchcock, M. Night Shyamalan e Spike Lee em questão de cenas.

Tudo é intercalado por boas doses de humor (afinal, Peele se criou na comédia), que dão a chance da excelente Keke Palmer roubar a cena com seu enorme carisma e jeito descontraído. Ela se destaca em um elenco de altíssimo nível, liderado por um Daniel Kaluuya sóbrio, reservado mas que sabe como se soltar quando necessário, seja quando se depara com absurdos ou quando precisa assumir o posto de herói.

Entre carisma e tensão, Keke Palmer rouba a cena em Não! Não Olhe!

Tá, mas e onde o tal massacre do chimpanzé – que literalmente abre o longa – se encaixa com o restante? Bom, essa é a questão que deve martelar na cabeça do público mais desatento. É possível interpretar discussões sobre a tendência humana de vilificar instintos naturais, ou então de acreditar que é possível domesticar algo que não se respeita (não é), mas todas essas discussões só podem acontecer após o espectador se entregar de corpo e alma para Não! Não Olhe!. É uma obra excessiva, grandiosa e imperfeita, que definitivamente não funcionará para todos, mas que se beneficia de ser sentida ao invés de decifrada.

O forte uso de simbolismo de Jordan Peele é dádiva e maldição. O diretor é altamente inteligente e tem um vasto repertório, mas o nível de atenção e homenagens que colocou em Corra! – sua estreia de peso, consagrada no Oscar – criou uma noção de que suas obras são enigmas que precisam ser desvendadas em seus mínimos detalhes para poderem ser realmente apreciadas. Tudo se torna uma busca pelo comentário social da vez, escondido abaixo da superfície do projeto, algo que se marcou muito presente na forma que Nós foi recebido (até literalmente, no caso da trama subterrânea daquele longa).

Não! Não Olhe! é um pouco mais desafiador por seu escopo e ousadia, mas a tentativa de uma compreensão plena não deveria ofuscar a enorme escala da ambição do cineasta. Além de seu forte estilo autoral em uma obra repleta de suspense e humor, Jordan Peele aqui acena para os mais diferentes gêneros cinematográficos não em um exercício de fanservice, mas sim como forma de demonstrar que o audiovisual é muito amplo e variado para que realizadores negros fiquem confinados aos filmes sobre racismo e denúncia. Se estão lá desde antes da fundação do cinema, é de seu direito que façam as obras que bem entenderem.

NOTA: 4 de 5

Aproveite e confira: