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Jordan Peele é o novo Alfred Hitchcock?!

Por Gus Fiaux

O cinema de horror está passando por uma transformação gigantesca nos últimos anos, graças ao lançamento de diversos filmes que compõem uma leva bem diferente do que Hollywood estava produzindo para as massas. Equivocadamente categorizada por alguns como “pós-horror“, essa nova onda de filmes acabou estourando com produções aclamadas, dentre as quais, o magnífico Corra!

Desde então, o nome na boca do povo é Jordan Peele. Surgido de um background voltado para a comédia, com a popular série Key & Peele, que acabou rendendo uma longa parceria com o ator Keegan-Michael Key. Da série, surgiu a oportunidade de estrelar o filme Keanu, além de várias outras empreitadas cômicas.

Corra!, o primeiro longa-metragem de Jordan Peele.

No entanto, em 2017, Corra! chegou aos cinemas e fez um gigantesco estardalhaço. Desde então, muitos cineastas elogiam o filme como sendo um dos melhores exemplares do horror da década. Para se ter uma ideia do sucesso, o longa chegou a ganhar reconhecimento do Academy Awards – ou Oscar, se preferir -, um feito relativamente raro para um longa do gênero. E agora, dois anos depois, Peele volta aos cinemas com Nós. 

Dentro de uma perspectiva de horror, Nós é um filme muito mais centrado no pavor que o gênero pode causar – por mais que não deixe de fora alguns traços únicos da filmografia de Peele. Ainda é um filme com muita comédia e ainda é uma plataforma para discutir temas sócio-políticos extremamente relevantes para nossa realidade. Mas não deixa de ser um grande horror.

Pôster de Nós, protagonizado por Lupita Nyong’o.

E, desde então, Peele está sendo chamado na internet de “o novo Alfred Hitchcock”. 

Essa comparação bombou no Twitter assim que o filme teve suas primeiras reações divulgadas. Muitos começaram a elogiar o longa situando o impacto que as obras de Jordan Peele tem hoje em relação ao impacto causado por Hitchcock em seu auge. Porém, essa é uma comparação um pouco injusta.

Recentemente, o Quartzy fez um texto (que você pode ler aqui na íntegra, em inglês) intitulado: “Jordan Peele não é o próximo Spielberg ou Hitchcock. Ele é o primeiro Jordan Peele”. O texto originalmente era uma review completa de Nós, mas acabou dissecando um pouco sobre a carreira de Peele. E aqui, gostaria de reiterar alguns pontos.

Hitchcock e Peele compartilham de várias semelhanças. Na verdade, se você analisar de longe, os dois possuem pontos idênticos em suas carreiras. Assim como Jordan, Alfred começou em um gênero diametralmente oposto ao horror. Suas primeiras obras eram melodramas britânicos, apesar do diretor ter se embrenhado na Alemanha para produzir alguns de seus primeiros filmes. Ali, víamos um pouco da veia de suspense do autor, mas bem secundarizada.

Aos poucos, o cineasta britânico realmente começou a produzir filmes mais voltados para o suspense, criando então clássicos atemporais como Um Corpo que Cai, Psicose, Os Pássaros, Disque M para Matar Janela Indiscreta, todos filmes que moldaram a reputação póstuma de um dos maiores gênios que o nosso cinema já viu.

Alfred Hitchcock, gênio do cinema de suspense.

E ele não parou nas telonas. Na televisão, ele produziu e apresentou Alfred Hitchcock Presents, uma série antológica que visava revelar os novos nomes do suspense, com cada episódio tendo uma história separada que era escrita e roteirizada por artistas geralmente iniciantes.

Nesse sentido, Peele tem uma jornada parecida. Filmes que não são de terror no início da carreira? Confere! Auge com o suspense e o terror? Confere! Televisão? Sim. Para quem não sabe, Peele é responsável por produzir – e talvez apresentar – o remake de The Twilight Zone. Conhecida popularmente no Brasil como Além da Imaginação, a série também seguia o modelo antológico, com cada episódio focado em um conto de horror sobre a tecnologia e elementos sobrenaturais. Basicamente, uma das séries que inspirou Black Mirror. 

Contudo, podemos dizer que Peele é o novo Hitchcock? 

Não necessariamente. É comum que as pessoas tenham a necessidade de comparar algo novo a um grande patamar estabelecido no passado. Isso não é diferente no cinema. Quantas vezes você já ouviu falar que “fulano é o novo Kubrick?” No entanto, no caso de Peele, há uma grande diferença.

E antes que me pergunte, não tem nada a ver com a quantidade de produções. Particularmente, acho Denis Villeneuve o maior cineasta da atual geração, e sua produção ainda é minúscula se comparada à de Alfred Hitchcock ou de Steven Spielberg, por exemplo.

A grande diferença é que Jordan Peele está apresentando uma obra única e incomparável. Goste você ou não dos filmes do diretor, ele já se provou um cineasta capaz de distorcer o gênero do horror e acompanhá-lo com fragmentos interessantes, seja de comédia ou de críticas sociais. A obra de Peele é um grande apanhado não necessariamente do que queremos ver, mas do que precisamos. 

Isso não quer dizer que a obra de Hitchcock não tenha feito isso em seu tempo (muito pelo contrário). Mas Peele é um dos grandes nomes dessa geração – e mesmo que suas obras diretoriais ainda sejam apenas duas, vale lembrar que ele está produzindo uma vastidão de projetos do gênero, incluindo o remake de Candyman, clássico de Clive Barker. 

Peele vai produzir o remake de The Twilight Zone.

As obras de Peele são extremamente diferentes entre si, ainda que carreguem similaridades marcantes – que, podemos dizer, é o traço do diretor. Ele fala sobre racismo, segregação, violência velada e o sentimento de que o vizinho pode ser um lobo em pele de cordeiro, sem abrir mão do suspense, do horror e até mesmo da comédia.

Enquanto isso, Hitchcock produzia filmes que condiziam com a carga da época. Isso não quer dizer que ele nunca foi político, já que há metáforas em Os Pássaros que arrepiam até os mais incrédulos, mas sua produção é “datada”, e não de uma forma pejorativa, já que ele retrata temas próprios de sua geração. Porém, estamos em uma nova era e o rosto do terror e do suspense nela é o de Jordan Peele.

Não devemos deixar Peele na posição de quem carrega a tocha do “próximo fulano de tal”. Ele não é o próximo Hitchcock, o próximo Spielberg e muito menos o próximo Kubrick. Citando novamente o texto do Quartzyele é o primeiro Jordan Peele. E precisamos aproveitar o nascimento de um novo grande nome do cinema.

Na galeria a seguir, fique com algumas imagens de Nós:

Nós está em cartaz nos cinemas. Corra está disponível em DVD. O remake de Além da Imaginação estreia no dia 1º de abril, no CBS All Access.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux