Crítica: A Lenda de Candyman resgata terror noventista sem se deixar seduzir pela nostalgia

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Crítica: A Lenda de Candyman resgata terror noventista sem se deixar seduzir pela nostalgia

Por Arthur Eloi

Após tentar todo tipo de abordagem, Hollywood enfim encontrou uma forma de fazer sequências que agradam os fãs mais antigos ao mesmo tempo que servem de porta de entrada para novos públicos. A tendência eventualmente chegou ao horror, com Halloween (2018), O Massacre da Serra Elétrica (2021) e Pânico (2022). No meio desses gigantes, vem A Lenda de Candyman (2021).

Dirigido e coescrito por Nia DaCosta (Passando dos Limites), o filme resgata O Mistério de Candyman (1992), a adaptação da obra de Clive Barker (Hellraiser) pelas mãos de Bernard Rose. Mas o longa tem algo que os outros não têm: uma relação conturbada com nostalgia. Enquanto os demais vivem em serviço dos clássicos, A Lenda de Candyman entende o seu passado como uma maldição.

Ficha técnica

Título: A Lenda de Candyman (Candyman)

Direção: Nia DaCosta

Roteiro: Jordan Peele, Win Rosenfeld e Nia DaCosta

Data de lançamento: 26 de agosto

País de origem: Estados Unidos

Duração: 1h 31 min

Sinopse: Uma “sequência espiritual” do filme de terror de 1992 “Candyman”, que retorna ao bairro de Chicago, agora gentrificado, onde a lenda começou.

A Escrita nas Paredes

O filme de 1992 acompanha a pesquisadora Helen Lyle (Virginia Madsen), que passa a investigar estranhos assassinatos no bairro de Cabrini-Green, uma região pobre da cidade de Chicago, EUA. Ela então se depara com a lenda urbana do Candyman (Tony Todd), uma aparição fantasmagórica, com um gancho no lugar da mão direita, que é invocada quando seu nome é repetido cinco vezes em frente a um espelho. Rapidamente Helen descobre que é tudo verdade, e passa a ficar obcecada pelo assassino sobrenatural.

A Lenda de Candyman é ambientado cerca de 27 anos depois da trama do original, e retorna à Cabrini-Green. A fórmula de um “sucessor espiritual” já é conhecida desde Star Wars: O Despertar da Força (2015), que envolve trazer atores clássicos de volta mas dar os holofotes para uma nova geração de personagens – de preferência, que tenham alguma conexão com seus antecessores. O filme parece seguir por esse caminho, especialmente por ter como protagonista Anthony McCoy (Yahya Abdul-Mateen II), filho de uma das moradoras de Cabrini-Green que foi entrevistada por Helen Lyle. A diretora Nia DaCosta sabe muito bem como funcionam sequências assim, e também o poder da nostalgia no público moderno. Ela então se aproveita para perturbar e desvirtuar essa sensação de conforto.

O novo filme de Candyman não se deixa iludir por memórias do passado. Na verdade, ele vai na direção contrária, e argumenta que não há nada do que se orgulhar. As tensões raciais e sociais que consagraram o conto de Clive Barker e o filme de Bernard Rose continuam presentes, e só se tornaram ainda mais agudas com o passar dos anos.

A vida dos moradores de Cabrini-Green, conjunto habitacional marginalizado pelo restante da cidade, não ficou mais fácil com o tempo – muitos foram expulsos por conta da gentrificação, basicamente o processo de “gourmetização” imobiliária. E o racismo que criou o Candyman lá no século 18, perseguido por uma multidão branca por ter um romance com a filha de um magnata, não deixou de existir, mas sim só se agravou e se tornou sistemático.

A jornada de Anthony McCoy no longa é uma de descoberta de uma verdadeira tradição de injustiças, e isso começa a cobrar um preço. O rapaz ouve a lenda de Daniel Robitaille, o Candyman original, mas também de Sherman Fields (Michael Hargrove), assassinado pela polícia em Cabrini-Green, e de muitos outros cujos destinos lhe foram roubados pela violência e preconceito.

Ao tentar manifestar tudo isso em sua arte, o protagonista se vê cada vez mais envolvido com essas histórias, ao ponto de que se vê conectado com as encarnações fantasmagóricas que as vítimas assumiram após a morte. O desejo do Candyman de se tornar uma lenda urbana ganha novos significados aqui, de que a única forma que essas pessoas garantem a continuidade de sua existência interrompida é através da conscientização – ou então da assombração.

Nessa configuração, o filme desafia a noção de relembrar carinhosamente da obra original, de ser um ponto de partida para a retomada da franquia, ou mesmo de glamourizar o passado, como faz Rua do Medo ou Stranger Things. A Lenda de Candyman é uma verdadeira espiral de insanidade anti nostálgica.

Seja Minha Vítima

O que faz com que o filme acertar em cheio, mesmo com o desafio de lidar com questões tão complexas, é o talento puro de todos os envolvidos. Yahya Abdul-Mateen II traz uma sensibilidade enorme a um papel que, nas mãos de alguém menos qualificado, poderia facilmente beirar a prepotência ou um exagero cômico. Felizmente, o ator entrega uma performance de alguém que, apesar das vitórias e felicidades, sempre desconfiou ter algo errado, e gradualmente vai entendendo o peso que carrega nos ombros.

O restante do elenco não decepciona. Tayonah Parris (WandaVision), que vive Brianna Cartwright, a namorada de Anthony, funciona por ser uma personagem independente, com objetivos e ambições próprias, comprometidas pelas descobertas perturbadoras do namorado. Nathan Stewart-Jarrett (Generation) conquista como Troy, o irmão de Brianna e comedido alívio cômico. Já Colman Domingo (Fear the Walking Dead) rouba a cena como William Burke, um dono de lavanderia que serve como guia para a jornada de Anthony pelas lendas urbanas de Cabrini-Green. Até mesmo Michael Hargrove, que vive Sherman Fields – o Candyman da vez -, consegue deixar uma impressão duradoura, tanto como assassino sobrenatural quanto vítima.

Nia DaCosta conduz a obra com muita confiança e estilo. Desde a abertura, que mostra versões espelhadas dos logos do estúdio e produtoras, fica claro que a cineasta pretende usar e abusar de espelhos, reflexões e ângulos ousados. Mas a diretora se destaca mesmo nos momentos em que A Lenda de Candyman fica mais gráfica, e retrata as ofensivas da assombração de forma que eleva a figura fantasmagórica do assassino ao ponto de traumatizar.

O Candyman nunca é mostrado diretamente, mas é possível vê-lo flutuando de forma ameaçadora, ou então sua silhueta espreitando através do espelho. Nos momentos em que ele é invocado, a matança não demora para acontecer, e mesmo os trechos mais sangrentos são retratados com muita sutileza e autocontrole, nunca cedendo ao espetáculo da violência. O resultado é um filme brutal e altamente macabro, que não só revira o estômago como também arrepia os pelos da nuca.

A Lenda de Candyman pode ter sido adiado algumas vezes por conta da pandemia, mas compensa a espera com um dos melhores filmes de terror do ano. A nova versão é autêntica ao espírito da original, aumentando todas as questões que já eram discutidas na obra de 1992, e dando ainda mais destaque ao horror sobrenatural da figura do antagonista. Com exceção de alguns efeitos visuais questionáveis, e a falta que faz Tony Todd como o Candyman ou a marcante trilha sonora de Philip Glass, o longa entrega excelência pura em quase todos os aspectos.

Sabendo como Hollywood opera, é muito possível que o sucesso do filme dê novo fôlego à franquia, mas é uma obra que não parece confortável com essa noção. Por si só, A Lenda de Candyman deseja caminhar na direção contrária da incansável revisitação de clássicos que fazem os estúdios, sempre em busca de novas marcas. Aqui, a única coisa que o passado pode oferecer é a certeza de que algumas coisas nunca mudam – ou então só pioram.

NOTA: 4.5 de 5

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sobre o autor Arthur Eloi

Repórter entusiasta de filmes ruins, jogos de tiro e de horror em todas as suas formas. Dá notas duvidosas para obras questionáveis • @ArthurEloi117