Fãs trans de Harry Potter abominam o discurso de J.K. Rowling, mas não demonizam a obra

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Fãs trans de Harry Potter abominam o discurso de J.K. Rowling, mas não demonizam a obra

Por Evandro Lira

Os livros da saga Harry Potter, lançados entre 1997 e 2007, se tornaram um verdadeiro fenômeno cultural, marcando para sempre o mercado editorial até 2018, haviam sido vendidos mais de 500 milhões de livros em todo o mundo, tornando-os a série mais vendida da história , bem como o cinema, que adaptou os sete romances em oito filmes bilionários, responsáveis por estabelecer todo um universo mágico no imaginário popular.

Uma imensa comunidade de fãs se formou em volta desse fenômeno. A internet, quase contemporânea ao sucesso de Harry Potter, oportunizou que toda uma geração se conectasse para expressar seu amor por aquela história. Fóruns eram usados para se discutir teorias, sites voluntários surgiram para deixar os fãs informados, um número incalculável de fanfics baseadas nos livros foram publicadas, e laços foram criados em todas as partes do mundo.

Quando jovens, muitos membros da comunidade LGBTQIA+ abraçaram essa história e tiveram suas vidas impactadas pela obra de J.K. Rowling. A saga do menino bruxo serviu de refúgio e foi essencial para a formação identitária dessas pessoas. O que elas não esperavam, porém, é que em 2020 seriam confrontadas por um embate pessoal e ético contra aquela que criou todo o universo que as acolheu anos atrás.

Os lançamentos dos livros de Harry Potter lotaram as livrarias mundo afora

Este é o caso de Nicholas Freitas, um engenheiro trans brasileiro, que considera Harry Potter parte essencial de quem ele é. Na adolescência, Nicholas fazia cosplay de Luna Lovegood, uma das personagens mais queridas dos livros. Ele tem tatuagens de Harry Potter, frequentava os encontros de fãs realizados por fã-clubes de São Paulo e fez amizades que carrega até os dias de hoje.

“Sempre me senti acolhido tanto pela história quanto pela comunidade que se formou. Fiz vários amigos por causa de Harry Potter. De repente, a pessoa que me proporcionou tudo isso, que foi fundamental para minha infância e adolescência, falou aquelas coisas. Eu fiquei muito mal. Fiquei chocado e bravo”, relata Nicholas em entrevista à Legião dos Heróis.

Nicholas está se referindo, é claro, às falas da escritora J.K. Rowling, que geraram muita comoção na internet no ano passado ao serem apontadas como transfóbicas.

O que é transfobia?

Para entender o que é transfobia é preciso ter em mente o que define uma pessoa transgênero. Tratam-se de pessoas que têm uma identidade de gênero diferente daquela atribuída a elas ao nascer. Pessoas transgênero se sentem genuínas e confortáveis com elas mesmas a partir do momento em que entendem e aceitam uma nova identidade de gênero. 

A transfobia, portanto, é a discriminação contra as pessoas transgênero. Sendo intencional ou não, a transfobia causa consequências irreparáveis às pessoas que sofrem com essas ações.

A bandeira do Orgulho Transgênero

A transfobia de J.K. Rowling

Em junho de 2020, Rowling usou seu Twitter para criticar uma matéria que fazia uso da expressão “pessoas que menstruam”. O texto tinha como objetivo tornar a linguagem mais inclusiva, contemplando também homens trans que, por nascerem com o sexo biológico feminino, poderiam menstruar.

“Naquele fim de semana em que ela sugeriu que só mulheres menstruam, eu estava menstruado. Quando ela diz isso, ela diz que pessoas como eu, que sou um homem trans, não existem. Ela debocha de toda uma luta de gente que levou anos para chegar onde chegou”, diz o jornalista Caetano Vasconcelos, que também topou conversar com a Legião sobre o assunto.

Rowling, porém, não parou por aí. Ainda no Twitter, a escritora justificou sua posição, afirmando que não se pode negar que existe sexo biológico, pois trata-se de um fator determinante para a experiência de cada individuo.

“Se sexo não é real, não existe atração entre pessoas do mesmo sexo. Se sexo não é real, a realidade vivida por mulheres ao redor do mundo é apagada. Conheço e amo pessoas trans, mas apagar o conceito de sexo remove a habilidade de muitos discutirem suas vidas de forma significativa. Não é ódio dizer a verdade” – J.K. Rowling no Twitter

O criador de conteúdo Jonas Maria, um homem trans, falou com a Legião dos Heróis e explicou que, ainda que Rowling tenha se colocado como alguém que apoia pessoas transgênero, sua posição vai diretamente contra isso.

“É conveniente a forma como ela demonstra apoio. Ela apoia de acordo com as normas que ela mesma estabelece. Se ela não respeita o uso inclusivo da linguagem, ela não apoia a gente”, diz Jonas.

“As pessoas costumam achar que transfobia é quando alguém bate em uma pessoa trans. Ou quando você bate nela dizendo ‘estou te batendo porque você é trans’. Mas a transfobia que a gente sofre no dia a dia, essa mais velada e sutil, também machuca”, desabafa Caetano.

Poucos dias depois dos tweets, J.K. Rowling tentou esclarecer seu ponto de vista sobre as pessoas trans publicando um longo texto em seu site oficial. O ensaio, porém, acabou causando ainda mais desconforto na comunidade LGBTQIA+.

No texto, que foi traduzido em português pelo site Potterish, Rowling explica suas preocupações em relação ao ativismo trans, sugerindo que a maioria das pessoas que querem fazer a transição de gênero hoje são mulheres, boa parte delas influenciadas por suas bolhas e pela misoginia (ódio às mulheres) que sofrem.

Rowling ainda utiliza um argumento considerado como um dos mais prejudiciais à comunidade trans, especialmente quando se trata de mulheres transgênero. A escritora afirma que, por ser uma sobrevivente de abuso sexual, ela não quer que mulheres cisgêneros (que se identificam com o sexo de nascimento) se sintam menos seguras, sugerindo que a presença de mulheres trans em ambientes exclusivos para mulheres pode apresentar ameaça à elas.

“Quando você abre as portas de banheiros e vestiários para qualquer homem que acredita ou sente que é uma mulher – e, como eu já disse, certificados de confirmação de gênero podem ser dados sem qualquer necessidade de cirurgia ou hormônios –, você abre a porta para qualquer homem que desejar entrar. Essa é simplesmente a verdade.” – Trecho do ensaio de J.K. Rowling

Para Jonas, não há dúvidas de que Rowling possui um posicionamento transfóbico. “A posição dela é inquestionavelmente transfóbica. Dificilmente você vai encontrar uma pessoa trans que vai relativizar essas falas.”

O discurso de Rowling foi amplamente criticado pela comunidade LGBTQIA+, bem como por aliados cis. Celebridades como Jameela Jamil (The Good Place), Nicole Maines (Supergirl), Sarah Paulson (American Horror Story) e Mara Wilson (Matilda) falaram abertamente sobre as problemáticas das falas de Rowling, bem como os atores da franquia Harry Potter, Daniel Radcliffe (Harry), Emma Watson (Hermione), Rupert Grint (Rony), Bonnie Wright (Gina), Evanna Lynch (Luna) e Katie Leung (Cho).

Caetano, que também é fã de Harry Potter desde criança, conta que não foi fácil assumir para o mundo sua transgeneridade. Segundo ele, pessoas trans sofrem violência de todos os tipos, todos os dias:

“É muito difícil assumir isso para o mundo. A gente vive no país que mais mata pessoas trans. Você vai ter dificuldades em casa e no mercado de trabalho. Você vai ter dificuldades de usar o banheiro. Você não vai ter seu nome respeitado. Você corre o risco de apanhar se sair na rua. Até mesmo numa consulta médica você vai sofrer transfobia.”

Fãs transexuais de Harry Potter se sentem traídos

A comunidade de fãs de Harry Potter já foi objeto de estudos científicos. Segundo uma pesquisa publicada no Journal of Applied Social Psychology, as pessoas que leram a série do Menino-Que-Sobreviveu tendem a ser menos preconceituosas com grupos socialmente marginalizados.

Isto, é claro, não é em vão. A luta de Harry, Rony e Hermione contra Voldemort é também contra o fascismo e a intolerância. O bruxo das trevas lidera um movimento que menospreza parte da sociedade e promove uma “limpeza” daqueles que não se encaixam na norma.

Há uma série de mensagens poderosas nas páginas de Harry Potter que dialogam com o mundo ao nosso redor. E para os fãs, que cresceram cercados por essas ideias, é inadmissível compactuar com discursos como o de J. K. Rowling, que machuca e discrimina pessoas.

“Harry Potter sempre significou, para mim, um grande recado contra a intolerância. Acho que ensinou muita gente a respeitar as diferenças. Harry Potter não é sobre preconceito. Não é sobre ódio. É o contrário. J.K. Rowling está o tempo inteiro mostrando que a Hermione é tão bruxa quanto qualquer outra que veio de uma família bruxa. É isso que a obra combate, e por isso é incoerente. Ela leu o que ela mesma escreveu?”, questiona Caetano.

Em Harry Potter, personagens principais lutam contra o autoritarismo e o preconceito

O jornalista também explica que Harry Potter foi fundamental no processo de encontrar sua própria identidade.

“Eu tentava me achar nas pessoas. Tentava me identificar e não conseguia. Não me encaixava nem no grupo das meninas e nem no dos meninos. Então, a cultura foi muito importante para mim nesse processo. Harry Potter acabou sendo o primeiro livro que eu li por livre e espontânea vontade e eu cresci acompanhando essa história. Enquanto eu era adolescente, eles também eram. Parecia que eu tinha aquelas três pessoas ali, Harry, Rony e Hermione como aliados. Foi muito importante ter esse referencial na minha vida.”

Nicholas relata que o discurso de J.K. Rowling em relação às pessoas trans foi algo parecido com o sentimento de ser traído por alguém que você confia. Ele conta que foi difícil lidar com a sensação, da mesma forma que se viu em um conflito pessoal, em parte gerado pela comoção na internet.

“Como LGBT, a gente se sentiu muito acolhido por Harry Potter. Quando aconteceu, eu não soube lidar. Foi um baque. J.K. Rowling estava extremamente atrelada a Harry Potter, algo cujo valor para mim era muito sentimental. Foi como uma facada. Ao mesmo tempo que você tinha que lidar com isso, começou toda uma cobrança. Era uma cobrança coletiva, da comunidade, mas também individual. Eu não sabia o que fazer.”

O que fazer com o amor por Harry Potter?

Uma vez que alguém teve sua vida influenciada de tantas maneiras por uma única obra, é difícil deixá-la para trás. Nicholas admite que, mesmo sendo um homem trans e abominando as ideias de J.K. Rowling sobre transgeneridade, ele não consegue abandonar o universo que o abraçou.

“A mágoa que eu sinto pela J.K. Rowling e o fato de que eu não consigo me desvencilhar desse universo está totalmente ligado à minha transição e com quem eu sou hoje. Harry Potter estava lá quando eu mais precisei. Na minha infância, eu não fazia parte de nenhum grupo, era sempre ‘o estranho’, era ‘a menina que não era uma menina direito’, e em todos esses momentos, Harry Potter estava ali. Eu não consigo apagar minha tatuagem e nem minha história com Harry Potter. E para falar a verdade, não sei se eu quero.”

À medida em que o mundo avança e os jovens se tornam consumidores mais críticos e conscientes, existe também uma discussão sobre se é possível separar autor da obra — que vem de teóricos da literatura —, algo que muitos fãs de Harry Potter passaram a adotar como norte na hora de repudiar os comentários de Rowling e mesmo assim admirarem o universo criado por ela.

“Algumas pessoas vão te dizer ‘Tá na hora de você deixar para lá e seguir em frente com Harry Potter’. Mas é muito pessoal. Mexe com meu emocional demais tudo isso. Cada um faz o que quer sobre esse assunto. Eu não vou apontar dedo nem para quem quiser continuar amando Harry Potter e nem para quem prefere se afastar. Eu, particularmente, separo a obra do autor”, afirma Nicholas.

“Existe toda uma discussão sobre isso na Literatura. Há várias abordagens em relação a isso. Eu, particularmente, acho muito complexo separar. Uma obra está muito ligada ao contexto em que o autor vive, ela muitas vezes vai refletir as ideias e os pensamentos do autor. Não tem como desvincular a obra de quem produziu ela”, observa Jonas Maria.

Caetano compartilha da ideia de Nicholas, embora admita que, mesmo amando Harry Potter, não pretende mais consumir produtos da marca.

“Eu não vou dizer por aí que Harry Potter é um lixo. Não tem como eu demonizar algo que foi tão importante para mim. Mas não dar dinheiro para isso hoje, enquanto homens trans, vai me fazer botar a cabeça no travesseiro de forma mais tranquila”, ele diz.

Mesmo que os livros de Harry Potter já tenham sido publicados e que os filmes tenham sido todos lançados há uma década, ainda há muitos produtos originados da obra sendo comercializados no mundo todo.

Há parques de diversões temáticos de Harry Potter que recebem milhões de pessoas todos os anos e produtos de merchandising vendidos em qualquer loja de departamento. A cada ano, são lançadas versões diferentes dos sete livros da série e, desde 2016, há uma nova franquia de filmes escritos por Rowling situada no Mundo Bruxo.

Jonas duvida que deixar de consumir produtos derivados da marca Harry Potter faça alguma diferença. No entanto, ele entende o valor simbólico que ações como esta desempenham para pessoas que não concordam com os posicionamentos da escritora.

“Esse posicionamento transfóbico pode ter manchado o nome dela enquanto artista, mas não mexe no bolso. O legado dela já está aí, Harry Potter vai permanecer por gerações. O boicote, nesse caso, é muito mais um movimento simbólico do que efetivo.”

Ao menos no Reino Unido, terra de J.K. Rowling, as falas da escritora não parecem ter abalado a popularidade dos seus livros. Segundo o The Guardian, a linha editorial infanto-juvenil da editora Bloomsbury viu um crescimento de 28% em 2020, com destaque para a série Harry Potter

“Eu me questiono às vezes, pensando ‘Será que eu tô fazendo certo?’ Mas é o que eu consigo fazer”, reflete Nicholas sobre sua decisão de não abandonar Harry Potter.

“Eu ainda acho que é um universo muito bonito. As pessoas que não leram ou viram Harry Potter e que vão começar hoje, eu acho que elas podem amar. É maravilhoso”, diz Caetano, com carinho.

Contudo, ele não acha que gostar de Harry Potter signifique baixar a cabeça para falas como a de J.K. Rowling. Para ele, é importante respeitar a individualidade dos fãs, mas sem deixar de criticar a autora quando necessário.

“Eu acho que a gente tem que respeitar a individualidade de cada um quanto a isso [não se afastar de HP]. O que eu não concordo é com fãs de Harry Potter que se recusam a enxergar que foi transfobia e continuam defendendo a autora. O que ela fez foi transfobia e isso não é uma discussão.”

Celebração do Orgulho na Legião

Você acabou de ler um conteúdo especial do Momentos Legião em comemoração ao mês do Orgulho LGBTQIA+. Boa parte da equipe LH é composta por pessoas da comunidade LGBTQIA+ e a nossa missão é colocar luz em assuntos que são críticos para nossa causa. Queremos expressar nosso orgulho pelo movimento, por aqueles que pavimentaram nosso caminho e pelas novas vozes que estão surgindo. E, também, pelo lugar que nos permite falar tão abertamente sobre isso.

Assim, até o último dia de junho, materiais especiais sobre a relação da cultura pop com a comunidade LGBTQIA+ serão lançados em todas as nossas redes. Estaremos no Instagram, no Twitter, no YouTube, no TikTok e, claro, aqui no site.

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sobre o autor Evandro Lira

Editor, bacharel em Cinema e Audiovisual, bruxo nascido trouxa, filho dos filhos do átomo, mestre dos quatro elementos, fã de mais coisas do que deveria, frequentemente falando sozinho no Twitter. Segue: @evandroslira