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Do que nos orgulhamos em junho?

Por Márcio Jangarélli

Do que você mais se orgulha na sua vida? Rápido, a primeira resposta que vier à cabeça. Do seu trabalho? De suas conquistas? Da sua família? De alcançar metas? Do seu parceiro ou parceira? Orgulho, esse sentimento tão divisivo, que em excesso estraga e em pequenas doses é pouco, é a nossa recompensa pessoal por alcançar algo que almejamos muito, para nós mesmos ou para os outros. 

É a euforia máxima do ego, o engrandecimento do ser, a validação do esforço. Mas o Orgulho do mês de junho é diferente e se a sua resposta para a pergunta acima não é “orgulho de estar vivo” ou “orgulho da minha liberdade”, é hora de sentar, escutar e aprender sobre o que significa junho e o orgulho para a comunidade LGBTQIA+.

A Revolta de Stonewall de 1969

O Stonewall Inn ainda existe hoje, aberto para visitação como parte do Stonewall National Monument, que também incorpora o parque em frente ao antigo bar. Foto: Divulgação / CP

Em 28 de junho de 1969, em Nova York, a “primeira pedra” simbólica foi atirada. Nesse dia, no Stonewall Inn, um bar do East Village que servia de ponto de encontro para os grupos marginalizados da época – especialmente gays, lésbicas e pessoas trans – foi atacado mais uma vez pela polícia. A homossexualidade era um tabu pesado nessa época, considerada crime em muitos lugares. Assim, o lugar era alvo constante de intervenções policiais violentas, geralmente acatadas de maneira passiva pelos frequentadores.

Mas não é “só” isso. O Stonewall Inn conversa muito mais com a raiz da comunidade LGBTQIA+ do que pode parecer. Diferente de outros bares e locais que aceitavam esse público em Nova York, se reuniam ali outras parcelas ostracizadas da sociedade. Pessoas negras, latinas e de etnias estrangeiras que sobreviviam na sombra do preconceito; drag queens, prostitutas e aqueles que não possuíam um trabalho ou arte “digna” do grande público; pessoas pobres, vindas da periferia ou das ruas. As cores do arco-íris que nos representa hoje veio dessa mistura dos excluídos do mundo. 

O Stonewall Inn era um lugar que acolhia a margem e estava na margem.

Sua existência dependia de pagamentos para a máfia, para a polícia não fechar o estabelecimento de vez. O bar não possuía licença para venda de bebida alcoólica, não tinha saída de emergência e não atendia diversas normas sanitárias. Na verdade, não dá nem para dizer que a direção do lugar favorecia a comunidade que o frequentava, quando existem relatos de chantagem e exploração de clientes por parte dos donos.

Então qual é o sentido desse orgulho?

Marsha P. Johnson (esquerda) e Sylvia Rivera (direita), ícones da Revolta de Stonewall e da comunidade LGBTQIA+. (Fonte: Observatório G)

De novo, em 28 de Junho de 1969, a “primeira pedra” simbólica foi atirada. Essa pedra revolucionou a concepção inicial de comunidade dessas minorias e se tornou a base para o movimento LGBTQIA+ que conhecemos hoje. Naquela madrugada, nove policiais entraram no bar, depois de terem efetuados algumas batidas recentes ali. Eles deram ordem de prisão para os funcionários, por conta da licença de bebidas, e para pessoas trans e drag queens presentes devido às leis de “pudor” e gênero da época. Treze pessoas foram detidas de maneira violenta e vexatória e estavam sendo levadas para as viaturas.

A pedra é lançada aqui. Em resposta à prisão humilhante dos companheiros de bar, o público local começou a atirar moedas, garrafas e, enfim, pedras nos policiais. Até houve uma tentativa de derrubar a viatura. Nesse meio tempo, alguém jogou uma garrafa com tecido em chamas dentro do Stonewall, que causou um incêndio no bar. Os policiais responderam a situação usando as mangueiras de incêndio contra a multidão e a situação caótica durou até a manhã.

Ninguém morreu no Stonewall Inn; foi somente a tolerância de comunidades periféricas ao abuso que desapareceu.

No dia seguinte, as comunidades gay e trans de Nova York, que viviam reclusas por conta da repressão, saíram às ruas para protestar contra o que aconteceu no Stonewall Inn e pelo direito de existir. Foram seis dias de manifestações, mas com um tom e pedidos diferentes do que as pessoas tinham visto até então.

Os relatos dessas manifestações – e as fotos refletem exatamente isso – dizem que essas pessoas queriam mostrar, provavelmente pela primeira vez em suas vidas, o quão orgulhosas estavam de ser como eram. Foi um protesto pelo direito de existir, de viver, contra a repressão do estado e da sociedade, mas também uma celebração de comunidades marginalizadas que nunca tiveram um lugar ao sol.

Orgulho Marginalizado

O protesto começou no Stonewall Inn, mas derivou em manifestações por cerca de seis dias por toda Nova York. Foto: Harvard

Assim, o orgulho que celebramos no mês de junho, em memória da revolta do Stonewall Inn, é um sentimento que você não possui se nunca precisou lutar pela sua vida, pela sua existência, pelo seu direito de ser, de amar, por respeito ou por liberdade.

O Stonewall Inn não era o lugar ideal, muito pelo contrário. Essas pessoas viviam do mínimo, no núcleo mais caótico, na margem da margem. Esse era o lugar que nos restava e, mesmo assim, queriam roubar até mesmo isso. Não deve ser difícil entender, então, que o nosso orgulho vem de sobreviver, crescer e lutar mesmo nos lugares mais improváveis. Não é à toa que “I Will Survive” da Gloria Gaynor é um hino quase religioso para nossa comunidade.

E se você pensa que depois do Stonewall Inn foi um mar de rosas, a história está aqui para provar que a comunidade LGBTQIA+ balança sua bandeira em uma estrada em chamas. Uma das protagonistas da revolta de 1969, que atirou as primeiras pedras, Marsha P. Johnson, mulher trans negra, viveu para lutar e não pôde colher os frutos de sua batalha, assassinada aos 46 anos, em 1992, dias depois de uma parada do orgulho. Seu corpo foi encontrado no Rio Hudson, em Nova York, e o caso foi abafado pela polícia, sendo registrado como suicídio.

Nos é negado viver e não recebemos nem dignidade na morte. Não podemos ter direitos, não podemos ter história, não podemos nem mesmo nos enxergar na ficção. 

Em 2019, na Bienal do Rio, esse quadro fez o ex-prefeito e réu, Marcelo Crivella, pedir o recolhimento das HQs “Os Vingadores: A Cruzada das Crianças” do evento em tentativa de censura.

Nosso amor é proibido, nossa vida é sexualizada ao ponto do afeto entre personagens gays ser considerado indecente e imoral. Nos negam famílias, amigos, até lugares na cidade. Se você acha que a repressão policial a estabelecimentos LGBTQIA+ acabou no Stonewall Inn, infelizmente é um grande engano.

Essa violência é diária e escancarada. Ela nos fere, tortura e mata. O Brasil ainda é o país que mais mata pessoas trans no mundo. Nossos direitos estão sendo abafados por pessoas que não nos consideram nem seres humanos. Não faz nem dois anos que um quadrinho sofreu uma tentativa de censura publicamente porque trazia dois heróis se beijando. O que isso diz para você?

Nosso orgulho vem da margem e o que nós sentimos é êxtase por, apesar de ter um mundo todo contra nós – às vezes nossas famílias, nossos amigos, as pessoas que nos eram mais queridas – nós sobrevivemos. Nós nascemos assim. Nós nos expressamos dessa forma. Nós casamos com a noite, mas conquistamos o Sol.

Celebração do Orgulho na Legião

Nossa esperança é de que a Legião seja um espaço seguro para nossos leitores LGBTQIA+, assim como é para nossa equipe.

Agora, se a sua pergunta é sobre o porquê da Legião dos Heróis, uma rede de entretenimento, se importar com isso e postar esse tipo de texto hoje, a resposta é muito simples.

Em comemoração ao mês do Orgulho LGBTQIA+, começa hoje um Momento Legião especial sobre essa pauta. Boa parte da equipe LH é composta por pessoas da comunidade LGBTQIA+ e a nossa missão aqui é colocar luz em assuntos que são críticos para nossa causa. Queremos expressar nosso orgulho pelo movimento, por aqueles que pavimentaram nosso caminho e pelas novas vozes que estão surgindo. E, também, pelo lugar que nos permite falar tão abertamente sobre isso.

Assim, a partir de hoje, até o último dia de junho, materiais especiais sobre o Orgulho LGBTQIA+ serão lançados em todas as nossas redes. Estaremos no Instagram, no Twitter, no YouTube, no TikTok e, claro, aqui no site. Vejo vocês lá?

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sobre o autor Márcio Jangarélli

Assessor, redator e jornalista. Madonna de Jakku.