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[REVIEW] A Menina do Outro Lado – Uma obra de arte em forma de mangá

- – Uma história doce e misteriosa!

Por Gus Fiaux → Nos últimos anos, temos visto uma ascensão cada vez maior da cultura pop japonesa no mundo todo. Os animes estão cada vez mais populares, e os mangás não saem da boca do povo, seja através das adaptações de Hollywood ou dos fenômenos que se tornam sucesso entre os leitores. Porém, vez ou outra, um título surge do nada e se prova uma verdadeira obra de arte.

Esse é exatamente o caso de A Menina do Outro Lado, o título que está sendo publicado no Brasil continuamente pela Darkside Books – a editora parceira da Legião dos Heróis. A história está encantando no Japão, e já foi encerrada com oito volumes, dos quais os três primeiros acabam de ser lançados no Brasil, no ano passado.

Criada por Nagabe, um dos melhores mangakás atuais, a história segue um padrão mais refinado e lírico, sem tanta ação. É uma história bela, suave e misteriosa, que trabalha a dualidade entre bem e mal, luz e trevas, certo e errado de uma maneira muito delicada. É uma verdadeira obra-prima que prova que a Nona Arte tem espaço para muitas coisas incríveis.

Na história, uma menina chamada Shiva encontra-se perdida na floresta, aos cuidados de um ser misterioso chamado Sensei – um homem com chifres e a pele escura como a noite. Porém, tudo isso faz parte de um contexto ainda maior. Há uma grande guerra entre o mundo “normal” dos humanos e os “seres do outro lado”.

Esses seres – que habitam as florestas e bosques – são ditos como amaldiçoados, e os humanos os temem e odeiam. Basta tocar na pele de um desses “seres do outro lado” e qualquer pessoa pode acabar amaldiçoada, se transformando em uma criatura inumana como Sensei.

Porém, a história segue uma jornada mais intimista entre Shiva e Sensei. A jovem menina é inocente e bondosa, e não tem noção de todo o conflito envolvendo os seres humanos e as criaturas “do outro lado”. Ela vê Sensei quase que como uma figura paterna, um amigo que está apenas cuidando dela enquanto sua tia não chega.

Já Sensei parece ser bem diferente das criaturas de “sua espécie”. Certa vez, ele foi um homem, mas manteve sua civilidade e seus modos mesmo depois de ter sido amaldiçoado. Ele cuida de Shiva como se fosse sua própria filha, mesmo sabendo que a tia da menina provavelmente não voltará para buscá-la. E é justamente na relação de Shiva e Sensei que o mangá encontra sua maior força.

No primeiro volume, somos introduzidos à vida dos dois num casebre no bosque, e como Sensei cuida para que Shiva não passe fome, frio e – principalmente – não caia vítima da mesma maldição que o afetou. A relação entre os dois é respeitosa e madura, e é muito bonito ver os dois vivendo uma vida normal, enquanto a criatura do outro lado protege a menina a qualquer custo.

As coisas começam a ficar sombrias no segundo volume, quando Sensei encontra outros habitantes do outro lado. É assim que o homem percebe que o mundo não é tão cruel quanto ele pensa, e que talvez os seres humanos sejam os principais culpados em toda a história.

É aqui que o mangá começa a desenvolver melhor seu tema, inclusive nos apresentando toda uma trama espiritual que deve ser melhor trabalhada nos próximos volumes da história. O tempo todo, ouvimos falar sobre a grande Mãe dessas criaturas sobrenaturais e também sobre uma Alma profética – seria a Menina? Ou o Sensei?

Em apenas dois volumes, Nagabe consegue criar algo sentimental e poético, sem tirar os momentos bem humorados entre Shiva e Sensei, além de mostrar como o cerco está apertando – especialmente dentro das muralhas que protegem as cidadelas humanas.

A arte do mangaká é excepcional. Seu traço sabe explorar as nuances suaves da narrativa, ao mesmo tempo que o domínio de luz e sombras cria um contraste que casa muito bem com toda a história. Apesar de ser considerado um mangá shounen – ou seja, para um público adolescente masculino -, a narrativa e a arte não caem nos clichês desse “gênero”. De muitas formas, parece um gekiga, ou seja, uma história voltada para um público mais maduro.

E a obra de Nagabe só fica melhor a cada volume. A terceira edição de A Menina do Outro Lado é mais recheada de ação, para quem gosta. É aqui que a trama sofre uma grande reviravolta, quando uma figura do passado de Shiva retorna para “resgatá-la”.

É justamente aqui que temos mais detalhes sobre a vida nas cidades humanas, que estão sendo controladas por um reino de ferro, completamente oposto a qualquer investida dos seres do Outro Lado – o que corrobora a teoria de que os humanos são os verdadeiros culpados na guerra que “separou os dois lados”.

Falar um pouco mais seria dar spoilers dessa trama linda e maravilhosa – e é melhor que você confira A Menina do Outro Lado por si só. Até o momento, só os três primeiros volumes chegaram ao Brasil – o que significa que ainda restam cinco volumes até a conclusão dessa história linda.

Mas de muitas maneiras, o que Nagabe faz aqui é de um valor sem tamanho. O autor consegue transformar uma simples história entre uma jovem menina e o homem que cuida dela em uma trama maior, com um grande contexto espiritual e um embate entre luz e trevas que não esquece os tons de cinza.

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Na galeria a seguir, fique com algumas imagens das edições da Darkside Books:

A Menina do Outro Lado está à venda nas livrarias. Se você quiser, pode comprar as três edições na loja oficial da Darkside, clicando aqui, aqui e aqui.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux