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Tokyo Ghost – Ultraviolência na era da tecnologia!

Por Gus Fiaux

Se você está um pouco cansado da hegemonia de super-heróis da Marvel e da DC Comics, mas ainda quer ler histórias e quadrinhos – muitas vezes produzidas pelos artistas que trabalham nas duas editoras mencionadas, mas com mais liberdade criativa – deveria ficar de olho na Image Comics.

Uma editora mais “independente” do mercado norte-americano – embora esteja bem longe de ser indie “de verdade” –, a Image é conhecida por publicar várias histórias dos mais diversificados gêneros, desde a fantasia e a ficção científica ao drama, comédia e horror. O destaque está na forma como os roteiristas e ilustradores não precisam do aval editorial e detém todo o controle criativo de suas obras.

E um bom exemplo, para quem quer embarcar nesse mundo, é Tokyo Ghost, uma saga em dez edições recém-publicada no Brasil pela Darkside Books, em um volume completo e com alguns extras. Nós, da Legião dos Heróis, recentemente demos início a uma parceria com a editora – e agora, é hora de falar um pouco sobre seus lançamentos.

Tokyo Ghost é uma HQ escrita por Rick Remender (conhecido por seu trabalho na Marvel, como nas revistas da Fabulosa X-Force e na saga EIXO) e ilustrada por Sean Murphy (lembrado por Punk Rock Jesus, da Vertigo). A arte fica ainda mais completa com a colorização de Matt Hollingsworth, que já foi indicado para diversos Prêmios Eisner (o “Oscar” das HQs).

A história se passa em um futuro distante e distópico, onde a maior aliada da humanidade se torna seu maior inimigo: a tecnologia. Desde as primeiras páginas, somos apresentados a um mundo literalmente “viciado” na tecnologia, onde drogas psicotrópicas são substituídas por injeções de nanitas carregados com sensações hiperestimuladas.

Porém, como o próprio Remender bem indica, a HQ é – acima de tudo – uma história de amor, contada do ponto de vista de dois personagens. De um lado, temos Debbie Decay, uma mulher resiliente que nunca cedeu aos impulsos da tecnologia, e usa a experiência traumática de sua infância para se manter fiel aos seus princípios. Já do outro lado, temos Teddy, que após um evento cruel em sua juventude, se tornou um viciado em tecnologia e agente especial conhecido como Led Dent.

Juntos, eles precisam fazer trabalhos bem… moralmente questionáveis, para finalmente se verem livres da prisão criada pelo estilo de vida hipertecnológico nos Estados Unidos.

E sua primeira opção de uma “nova vida” reside num lugar bem peculiar… Tóquio. A capital japonesa deixou de ser um polo tecnológico no mundo, para se tornar o único lugar onde a humanidade pode prosperar sem a distração provocada pelo seu vício futurista. É um local repleto de jardins e de natureza, que é cobiçado por grandes estruturas de poder.

Em quesitos técnicos, a HQ surpreende pela arte super fluida de Murphy e pelas cenas de ação extasiantes, que compõem um ritmo muito ágil de leitura. É uma aventura direta e agradável, que realmente capta nosso interesse desde o primeiro momento.

A incorporação desse universo distópico é o que chama a atenção, principalmente pela forma como algumas ideias são subvertidas – como, por exemplo, o Japão ter se tornado um grande jardim a céu aberto –, criando um futuro alternativo um pouco diferente do que estamos acostumados nos cinemas, em games ou até mesmo nas HQs.

Infelizmente, o problema da história está nos roteiros de Remender. O autor é conhecido por seus altos e baixos, tendo surpreendido com Deadly Class e Fabulosa X-Force, mas também tendo criado verdadeiras atrocidades em HQs como Fabulosos Vingadores ou EIXO. E aqui, temos uma obra inconstante que levita entre esses dois polos diametralmente opostos.

Enquanto ele consegue incorporar bem a ação à trama, e criar alguns diálogos cheios de simbologia e subtextos, a história acaba fluindo de uma maneira “boba”, especialmente por algumas decisões bem questionáveis.

Por exemplo, há um exagero no uso da nudez e na linguagem sexual. E embora isso sirva para mostrar como a sociedade se tornou completamente imoral e pervertida, o uso excessivo e descabido, especialmente para efeitos cômicos, torna a crítica deslocada e parece mais um humor infantiloide de “pinto e bunda”.

Além disso, há um foco muito grande nesses elementos que acabam tirando espaço sagrado do desenvolvimento da história. Da metade para o fim, há muitas sequências que acontecem quase como ex machinas, já que a construção desses eventos é deixada de lado em prol de “cenas besteirol”.

Isso faz com que Tokyo Ghost nunca atinja todo o seu potencial. A HQ, como um todo, não chega a ser ruim – até porque varia muito do subjetivo de cada leitor –, mas acaba perdendo força no que diz respeito ao desenvolvimento dos personagens e do próprio percurso da trama.

Ainda assim, é uma recomendação para quem quer fugir do núcleo de super-heróis e ter contato com algo um pouco diferente – ainda assim, com muitos dos elementos que tanto gostamos em histórias da Marvel e da DC. É uma HQ com bastante potencial – e que, em boa parte, consegue entregar algo diferente o suficiente para entreter, sem deixar de lado a “crítica social f*da”.

Na galeria abaixo, fique com algumas imagens da edição da Darkside Books:

Tokyo Ghost já está à venda nas livrarias do país. Caso queria comprar online, você pode adquiri-la na loja da Darkside Books.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux