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30 Dias de Noite – Carnificina vampiresca!

Por Gus Fiaux

Desde Drácula, o mito do vampiro está profundamente enraizado no horror mundial. A ideia de uma criatura profana, que se alimenta de sangue para viver e espreita à noite, com pavor do sol e de símbolos religiosos, é uma grande parte da cultura de diversos países, ainda que seja representado de formas diferentes.

Ainda assim, por mais que seja um dos grandes arquétipos do horror, sua imagem foi tão desgastada que, atualmente, é difícil nos sentirmos amedrontados ou mesmo intimidados por vampiros. O uso do vampiro na cultura pop, em franquias como Crepúsculo e The Vampire Diaries, nos tirou boa parte do impacto e do medo causado pelos demoníacos devoradores de sangue.

Felizmente, 30 Dias de Noite nos prova que ainda é possível ter pavor de vampiros.

Criada por Steve Niles e Ben Templesmith, a HQ original foi publicada em 2002, em três edições, e chegou a receber uma adaptação para os cinemas em 2007, dirigida por David Slade. A história originalmente se passa na cidade de Barrow, no Alasca, onde o inverno traz um mês de completa escuridão, sem o nascer do sol.

Aproveitando esse momento de “vantagem”, um clã de vampiros viaja até a cidade para fazer um verdadeiro massacre e se alimentar da população local. Porém, o que eles não esperam é uma verdadeira retaliação por parte dos sobreviventes humanos.

A HQ, lançada pela IDW Publishing, acabou fazendo tanto sucesso que acabou se tornando uma “franquia”, com diversas continuações, edições anuais e especiais. E agora, a Darkside Books acaba de trazer ao Brasil uma edição especial, com as três primeiras séries de Niles e Templesmith, formando uma trilogia vampiresca banhada em sangue e carnificina.

A história de 30 Dias de Noite é simples e direta ao ponto, com uma abordagem bem violenta e gore. A HQ original, de 2002, é simples e a história até vai mais rápido do que deveria, já que foi publicada em meras três edições. Aqui, acompanhamos um grupo de humanos tentando rechaçar seus detratores.

No cerne deste embate, está o casal Eben e Stella Olemaun, dois policiais da cidade de Barrow que lideram a investida contra os vampiros. Eles são o ponto central da trilogia original de HQs, mesmo quando não aparecem diretamente.

A segunda série, chamada de 30 Dias de Noite: Dias Sombrios, foca-se em Stella, algum tempo após a derrota dos vampiros. Para avisar o mundo, ela acaba escrevendo um livro sobre sua experiência com as criaturas noturnas, o que acaba atraindo a atenção de amigos e inimigos – e de uma das vampiras mais antigas da história, que parte em busca de vingança.

Por fim, a edição se conclui com 30 Dias de Noite: O Retorno a Barrow, onde seguimos Brian Kitka, um homem que vai até a cidade de Barrow após a morte de seu irmão (um personagem importante da série original). Três anos depois do ataque dos vampiros, ele acaba descobrindo uma cidade sitiada, preparada para outro massacre no mês de trevas.

A narrativa de Steven Niles é digna de aplausos. Mesmo sendo muito direto no que se propõe, o autor se delicia com os momentos de interação entre os personagens e as sequências de inevitável violência, o que cria uma vibe rebelde e bem repulsiva já de cara, mas faz com que nos importemos pelas pessoas retratadas na tela.

Quanto à arte de Ben Templesmith, é aqui que reside o verdadeiro trunfo da obra. O desenhista não se atém a um padrão convencional de ilustrações, criando algo mais estilizado e, ao mesmo tempo, surrealista. Seu uso de sombras, contornos borrados e ângulos “estranhos” fazem as HQs parecerem verdadeiros pesadelos.

Para quem gosta de narrativas com vampiros, 30 Dias de Noite é uma história excepcional. Sem nuances romantizadas quanto Crepúsculo e sem a “elegância refinada” de Drácula, é uma HQ descrita como grunge – e quando você ler, vai entender muito bem o motivo. É um pesadelo underground, com toques profanos de violência e massacre.

E claro que isso chamou a atenção de David Slade, que produziu a adaptação cinematográfica da HQ em 2007. Embora não seja nenhum marco dos cinemas, é certamente um excelente horror com vampiros – e talvez um dos melhores já produzidos.

A história da adaptação cinematográfica segue a risca a HQ original, mas aproveita seu tempo de tela para inserir novos elementos e criar uma trama mais “encorpada”, o que realmente traz mais profundidade para os personagens e para suas histórias.

Uma adição que realmente achei genial foi a ideia de que os vampiros falam em outro idioma, uma linguagem incompreensível para os seres humanos. Isso os torna ainda mais misteriosos e assustadores, embora sua presença física por si só já seja bem imponente.

Devido ao sucesso do filme, uma continuação – baseada em Dias Sombrios – foi produzida, em 2010, e lançada direto para DVD. Infelizmente, o segundo longa não consegue captar muito bem o espírito da HQ e nem funciona como um bom sucessor para o filme de Slade – tanto que os atores do original sequer retornaram para a sequência.

30 Dias de Noite é, definitivamente, uma ótima leitura – ainda mais no mês do horror, quando os mistérios são bem-vindos e o sangue pode correr solto. A história é repleta de momentos marcantes e não vai decepcionar aqueles que procuram uma narrativa visceral envolvendo vampiros e criaturas sugadoras de sangue.

Aliás, vale também ressaltar o excelente trabalho da Darkside Books. Além de conter todas as três séries na íntegra e em uma edição belíssima, o volume também conta com extras e capas originais de Ben Templesmith, o que torna a experiência mais completa.

Fica, então, a nossa recomendação de uma HQ espetacular, especialmente para quem quer fazer uma boa leitura nesse Mês das Bruxas. É uma história sagaz, violenta e que não poupa sangue. Prepare-se para testemunhar uma verdadeira carnificina.

Na galeria abaixo, fique com imagens da edição brasileira:

30 Dias de Noite está à venda nas livrarias. Se quiser comprar online, pode adquirir na loja oficial da Darkside Books.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux