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Obras-Primas do Medo – A maldição de O Grito

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Por Gus Fiaux

Neste mês de fevereiro, chegou finalmente aos cinemas brasileiros o novo capítulo de uma das franquias mais importantes do horror mundial dos últimos anos. Mesmo não tendo caído no gosto dos fãs ou da crítica, o novo O Grito serve para nos relembrar da saga criada por Takashi Shimizu, que surgiu no Japão e logo conquistou o mundo inteiro.

Muito antes de dominar os cinemas norte-americanos, a saga Ju-On teve um forte começo no Japão, em uma época em que o horror japonês (ou J-Horror, como é mais conhecido) era uma moda estrondosa, com seus fantasmas vingativos e suas histórias assombradas repletas de elementos próprios da cultura oriental.

Inspirado por seus próprios medos de infância, o cineasta Takashi Shimizu – um dos maiores expoentes do J-Horror – criou uma mitologia rica, focada em uma maldição chamada Ju-On. No começo de cada filme da franquia, nós temos um pequeno letreiro explicando o que isso significa:

“Ju-On: Uma maldição nascida do forte remorso de alguém que já morreu. O local de sua morte abriga seu remorso. Qualquer um que entre em contato com essa maldição deve perder sua vida, e uma nova maldição se inicia.”

Os primeiros lançamentos da saga vieram em 1998, na forma de dois curtas-metragens que, apesar de feitos com baixíssimo orçamento, já introduziam as duas figuras centrais para essa história. Em Katasumitivemos o primeiro contato com Kayako Saeki, a fantasma mais influente da franquia, e em 4444444444, conhecemos seu filho, Toshio, que também se tornou extremamente popular.

Os dois curtas-metragens serviram como pontapé inicial, mesmo que não tenham histórias propriamente ditas, e nem se debrucem sobre a mitologia que a saga começaria a traçar em seus lançamentos seguintes.

Em 2000, surgiu o primeiro filme longa-metragem da saga, intitulado Ju-On: The Curse (traduzido no Brasil como Ju-On: A Maldição). O filme começa a explorar um pouco mais da história por trás de Toshio e Kayako, por mais que os dois se mantenham como figuras muito misteriosas e enigmáticas.

A partir daqui, a saga começou a tecer um modelo que seria incorporado por todos os filmes subsequentes – uma história antológica, seguindo várias pessoas afetadas pela maldição ao entrarem na casa que pertencia aos Saeki. O filme é dividido em segmentos e conta uma história não-linear, seguindo cada vítima dos fantasmas.

Porém, esses lançamentos ainda não tinham peso para chegar aos cinemas, principalmente por conta da fraca distribuição. Tanto A Maldição quanto seu sucessor, Ju-On: A Maldição 2, foram lançados no chamado V-Cinema, uma iniciativa de lançamentos direto para DVD e TV, realizada no Japão.

Tanto que A Maldição 2 serve mais como uma recapitulação do primeiro filme – caso o público não tivesse assistido – com mais da metade de sua duração sendo composta por cenas do longa anterior, além de alguns segmentos novos que “complementavam” a história do filme original.

Ambos foram dirigidos por Shimizu e lançados no ano de 2000, e conquistaram uma popularidade inesperada até mesmo pelo cineasta. Os fãs do J-Horror estavam loucos para saber mais sobre Kayako, Toshio e o que teria motivado as suas mortes, e logo a saga conquistou seu espaço de direito nos cinemas.

Assim, vieram os dois primeiros capítulos da franquia Ju-On: The Grudge (trazidos ao Brasil como Ju-On: O Grito e Ju-On: O Grito 2, para não confundir o público com os remakes norte-americanos). Ambos os filmes seguem a lógica dos lançamentos anteriores, com histórias antológicas segmentadas em uma narrativa não-linear.

No primeiro filme, acompanhamos uma assistente social que parte em busca de Toshio, depois que ele passa vários dias sem ir à escola. Na casa, ela é tocada pela maldição – sem saber que Toshio já está morto há semanas. A partir daí, todos que se comunicam com ela começam a sentir a influência dos fantasmas da Família Saeki.

O longa também finalmente apresenta a origem definitiva desses personagens. Takeo Saeki desconfiava que sua mulher, Kayako, tinha um caso com o professor de Toshio. Em uma crise de fúria e ciúmes, ele assassina violentamente a mulher e o filho, junto com o gato da família, antes de se matar.

Ju-On é estabelecido pelo remorso dos três membros da família, que retornam na forma de onryō, ou seja, fantasmas vingativos, “marcando” de vez sua casa como um local profano, de forma que qualquer pessoa que entrar pelas portas seria amaldiçoada.

O filme fez um sucesso estrondoso, e não demorou muito para que sua continuação saísse do papel. Lançado em 2003, Ju-On: O Grito 2 saiu apenas um ano após o primeiro filme, dando continuidade à história com mais um capítulo antológico, mostrando as várias pessoas que foram afetadas pela maldição dos Saeki.

E os norte-americanos, como sempre, se aproveitaram da ideia.

Como era de costume na época, todo filme de horror oriental logo ganhava um remake norte-americano – e com O Grito, não foi diferente, especialmente após todo o sucesso que a franquia O Chamado tinha feito nos Estados Unidos. Os direitos de adaptação foram comprados por Sam Raimi, que logo produziu – através da Ghost House, sua companhia, uma versão norte-americana de Ju-On: The Grudge.

O primeiro filme foi lançado em 2004 e segue de perto a história do longa original, sendo apenas uma “adaptação para o inglês”. O filme foi protagonizado por Sarah Michelle Gellar (de Buffy: A Caça-Vampiros e Scooby-Doo! O Filme), no papel de uma assistente social norte-americana que mora no Japão e logo se torna vítima da maldição ao entrar na casa dos Saeki.

Mesmo com algumas pequenas mudanças para que o filme ficasse mais palatável para o público norte-americano, a recepção foi bem abaixo do esperado. O filme fez rios de dinheiro, não há como negar, mas a crítica considerou uma releitura pobre – algo curioso, considerando que o longa foi dirigido pelo próprio criador da franquia, Takashi Shimizu.

Isso, no entanto, não impediu que a franquia americana continuasse. Foram lançados mais dois filmes, dando sequência ao longa de 2004, e ambos foram fracassos de crítica, apesar de terem alguns fãs. O Grito 2 segue de perto a história do original – e tem uma pequena participação de Sarah Michelle Gellar, enquanto O Grito 3 tomou mais liberdades e apostou na ideia de um edifício inteiro marcado pela maldição.

Claro que a popularidade foi decaindo – tanto que o terceiro filme sequer chegou a sair nos cinemas, sendo lançado direto para DVD e sem envolvimento algum de Shimizu, que estava dando um breve hiato da saga após ter dirigido o segundo filme norte-americano.

Ainda assim, 2009 trouxe uma nova experiência para os fãs da franquia japonesa. Para celebrar o aniversário de dez anos da saga, Takashi Shimizu concebeu a ideia de fazer dois filmes inseridos na mitologia do Ju-On, mas que não tinham relação alguma com Kayako e Toshio, apresentando novos fantasmas.

Nascia assim Ju-On: White Ghost e Ju-On: Black Ghost (Fantasma Branco e Fantasma Preto, em tradução literal), dois filmes comandados por diretores populares do J-Horror.

White Ghost foi dirigido por Mari Asato, enquanto Black Ghost ficou a encargo de Ryuta Miyake. Os dois filmes possuem histórias fechadas, cada um focado em personagens diferentes que são assombrados pelos fantasmas titulares de cada longa.

O experimento foi muito bem-recebido pelos fãs que sentiam falta de novos capítulos japoneses da saga, e foi a primeira vez que a franquia se afastou de vez da presença de Kayako, por mais que a família Saeki tenha sido brevemente mencionada.

E foi graças a esse reavivamento que Takashige Ichise – um famoso produtor que já havia trabalhado na franquia Ju-On e também era conhecido pelos filmes japoneses de O Chamado – decidiu dar continuidade à saga, mesmo que Takashi tivesse largado de vez de sua criação mais popular.

Assim, vieram dois capítulos bem controversos da série, ambos dirigidos por Masayuki Ochiai – responsável por Imagens do Além, o remake norte-americano de outro filme de horror oriental muito aclamado, Espíritos: A Morte Está ao Seu Lado.

O primeiro deles foi Ju-On: The Beginning of the End (trazido ao Brasil como O Começo do Fim), de 2014. Apesar de ter sido vendido como o terceiro filme da saga Ju-On, o longa serve mais como um reboot, trazendo de volta vários elementos do primeiro Ju-On: The Grudge, e introduzindo mais mitologia à origem de Kayako.

Aqui, descobrimos mais sobre a família de Kayako, e como sua mãe era uma espécie de médium que “retirava espíritos malignos” de seus clientes e dava como alimento para sua filha – um plot “reciclado” do norte-americano O Grito 2. Mais do que isso, o filme também introduzia a ideia de que Kayako havia traído Takeo com um fantasma, e essa entidade era o verdadeiro pai de Toshio.

O resultado não alegrou muito os fãs, mas isso não impediu que mais uma sequência fosse lançada. Em 2015, os cinemas japoneses recebiam Ju-On: The Final Curse (ou A Maldição Final), o filme que serviria para “encerrar” a franquia com grande estilo.

Apesar de ser consideravelmente melhor que o seu antecessor, este “quarto” longa também não caiu muito no gosto dos fãs, apesar de trazer um encerramento satisfatório para saga, mesmo mostrando como essa maldição está fadada a continuar para sempre, em um ambiente completamente sobrenatural e macabro.

Mas engana-se quem pensa que essas seriam as últimas vezes que Kayako chegaria aos cinemas. Em 2016, a fantasma retornou ainda mais vingativa e sedenta por sangue, no crossover mais bombástico do J-Horror. Sadako vs. Kayako (dirigido por Kōji Shiraishi) foi a reunião de duas gigantescas franquias de terror: O Grito e O Chamado. 

O mais curioso disso tudo é que o longa foi “anunciado” como uma pegadinha de primeiro de abril em 2015. Porém, após verem toda a recepção positiva dos fãs, os produtores logo trataram de pôr a mão na massa e fazer do projeto uma realidade. Em dezembro do mesmo ano, o filme era então anunciado oficialmente, e estrearia seis meses depois.

E por mais que crossovers de franquias de terror quase sempre decepcionem (vide Alien vs. Predador e Freddy vs. Jason), Sadako vs. Kayako conseguiu, apesar de todas as dúvidas, formar um encontro grotesco e divertido para esses dois ícones do horror nipônico, com uma trama um pouco confusa, mas ótimos sustos e um embate final épico – que resulta inclusive na “fusão” das duas, criando a mega-fantasma Sadakaya.

No Japão, essa franquia pode até ter chegado ao fim, mas os Estados Unidos não perdem a oportunidade de faturar em cima de nomes já estabelecidos. E é por isso que, neste ano, chegou aos cinemas o novo O Grito – que apesar de não ter nenhuma numeração e o título do original, não é um remake.

Na verdade, o filme serve mais como um “spin-off” do longa de 2004, mas dessa vez situado totalmente nos Estados Unidos. Temos uma brevíssima aparição de Kayako, mas o longa segue outra rota ao apresentar novos fantasmas e novos personagens, com uma casa marcada pelo Ju-On, mas dessa vez situada na Pensilvânia.

O filme já está em cartaz nos cinemas – e nós já pudemos conferi-lo -, mas o público rejeitou essa nova abordagem quase que por completo. Apesar do bom elenco, com nomes como Andrea Riseborough, Lin Shaye Demián Bichir, e do diretor aclamado Nicolas Pesce, o longa foi criticado por seu horror genético e pela ausência de qualquer dos traços marcantes que popularizaram a franquia japonesa no passado.

Com isso, não sabemos ainda para onde a saga de O Grito pode se expandir no futuro. Certamente, foi uma das sagas de horror mais importantes da década passada, especialmente no meio da popularização do J-Horror nos Estados Unidos e no mundo.

E mesmo com um lançamento ruim ou outro, a fantasma de Kayako estará para sempre imortalizada em nossas memórias como uma das criaturas mais assombrosas que o cinema já criou. Certamente ela – assim como Toshio Takeo – continuarão aterrorizando a mente de muitos, por vários anos. Mas nos resta saber se alguém vai adentrar sua casa novamente e dar início a uma nova “rodada” dessa maldição cruel e implacável.

Você teria coragem?

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Na galeria abaixo, fique com imagens do novo longa da franquia:

O Grito está em cartaz nos cinemas.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux