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Obras-Primas do Medo – Sobrenatural e o horror assombrado de James Wan

Por Gus Fiaux

Que James Wan é um dos maiores Mestres do Horror do cinema contemporâneo, não há como negar. O cineasta surgiu no meio quando lançou o primeiro Jogos Mortais – que logo se tornou uma franquia de sucesso, por mais que ele tenha “abandonado o navio” após os primeiros filmes – e atualmente é o criador da franquia Invocação do Mal, um verdadeiro “universo compartilhado” dentro do gênero.

Porém, no meio tempo entre Jogos e Invocação, Wan lançou uma franquia um pouco mais contida, que de muitas formas representa o “protótipo” para a saga de Ed e Lorraine Warren, com um horror muito próprio da década de 2000 e o surgimento de criaturas que se tornaram ícones do medo nos cinemas. Estou falando da franquia Sobrenatural, iniciada em 2010 e que, até o presente momento, conta com quatro filmes.

A franquia surgiu da parceria entre James Wan e Leigh Whannell – que já havia trabalhado com o diretor anteriormente em Jogos Mortais. A ideia era criar um longa de “casa assombrada” que trouxesse o melhor do terror sobrenatural, criando figuras tão icônicas quanto Freddy Krueger Jason Voorhees. 

No entanto, Wan já tinha em mente o que queria fazer em Invocação do Mal enquanto gravava o primeiro filme – tanto que não faltam comparações entre os primeiros filmes de cada franquia. Patrick Wilson é contratado como o protagonista de Sobrenatural – e posteriormente retorna como o Ed Warren de Invocação do Mal.

Ainda assim, a história segue uma abordagem surpreendentemente original. Um menino, filho do casal Josh e Renai Lambert, é assombrado por uma aparição macabra, e acaba entrando em um coma severo. O casal se desespera e procura formas de combater essa entidade maligna, apenas para perceber que o problema não era a casa onde moravam – e eles continuarão a ser perseguidos pelo demônio onde quer que vão.

Auxiliada pela mãe de Josh, a família procura a ajuda de Elise Rainier, uma investigadora paranormal que tem um longo histórico com casos sobrenaturais, possessão e entidades malignas. No fim, todos vão ao Plano Astral, onde precisam deter a criatura que possui o filho dos Lambert para salvar a criança de uma vez por todas.

Em sua base, é como uma história de horror comum – e não é à toa que muitos comparam o primeiro filme da franquia a Poltergeist: O Fenômeno, de 1982. Os dois filmes giram em torno de uma criança possuída, uma entidade aterrorizante, o surgimento de uma investigadora paranormal e até mesmo um plano “além da compreensão humana”.

No entanto, essa trama “comum” é complementada pelo excelente trabalho de Wan – seja na criação de jump scares meticulosos e certeiros ou por ideias que ele posteriormente incorporaria à franquia Invocação do Mal. Um exemplo perfeito disso são as criaturas apresentadas ao longo da saga, que são muito marcantes – e que poderiam render spin-offs, assim como a boneca Annabelle ou a Freira Valak.

O primeiro filme faz isso muito bem com o Red Lipstick Demon (também conhecido “Demônio do Batom Vermelho”, em uma tradução mais literal). Esse Darth Maul do inferno é um excelente ponto de partida para a franquia, mostrando que Wan estava disposto a ir aos limites mais macabros do horror para oferecer ao seu público uma experiência única.

O primeiro Sobrenatural foi um sucesso, rendendo 97 milhões de dólares a partir de um orçamento minúsculo de pouco mais de 1 milhão. Isso, aliado ao final aberto do filme, fez com que Wan retornasse para uma sequência, lançada em 2013 e intitulada Sobrenatural: Capítulo 2. 

O filme deixa um pouco de lado a história do filho do casal para se focar em Josh Lambert. Após os eventos do primeiro longa, descobrimos que ele havia sido vítima de uma possessão quando era criança. E assim que ele entra no Plano Astral para resgatar seu filho, ele logo se encontra novamente com a Noiva de Preto – que por sua vez, também havia sido introduzida no primeiro filme.

Essa nova entidade tem uma fúria incontrolável e deseja acabar com a vida de Josh e com sua família – e o Capítulo 2 vai dissecando aos poucos os motivos pelos quais ela existe. No filme, vemos Elise em destaque – mesmo que ela não esteja… viva, o que tornou a personagem interpretada por Lin Shaye um dos grandes focos da franquia.

O grande problema de Sobrenatural: Capítulo 2 é que o filme não se sustenta por si só. Como parte de uma franquia, ele até é uma continuação decente do primeiro longa, mas não temos como não sentir a ausência de uma “coesão” narrativa própria. O filme começa sem começo e termina sem fim, apenas fechando as pontas necessárias da trama da Família Lambert.

Mesmo sendo um produto de James Wan, parecia mais como uma ideia de estúdio empurrada com a barriga pelo diretor – que, por sua vez, já tinha lançado o primeiro Invocação do Mal e estava tendo problemas em conciliar a agenda das duas franquias. É por isso que, quando um terceiro filme da saga foi anunciado, Wan acabou abandonando o posto de diretor – embora ainda tenha permanecido como produtor -, que por sua vez foi ocupado por Leigh Whannell.

Sobrenatural: Capítulo 3 é um filme bem diferente de seus antecessores. Embora seja carregado de referências e ligações com os outros longas, a história seguiu uma rota completamente oposta, explorando o passado de Elise Rainier, que havia se tornado a personagem mais popular da saga após os dois primeiros capítulos. O filme se passa alguns anos antes do primeiro longa de Wan, e mostra a investigadora tendo que lidar com outra assombração.

No filme, uma jovem mulher é assombrada pelo Homem Que Não Consegue Respirar, um ser nefasto que parece sair de seus sonhos para atacar na vida real. O filme segue uma abordagem bem mais emocional e introspectiva, por mais que seja carregado de jump scares como os anteriores. De muitas formas, era o que a franquia precisava depois da “bagunça” do Capítulo 2. 

Claro que, a essa altura do campeonato, a franquia já estava perdendo a popularidade e a força – em parte por causa da ascensão de Invocação do Mal e do interesse renovado do público por um horror menos mainstream e carregado de sustos. Por conta disso, o filme acabou tendo a “menor” bilheteria da franquia (desconsiderando apenas o primeiro filme), e colocando os planos de sequências na gaveta por um tempo.

No entanto, Hollywood tem um apreço por franquias já estabelecidas, e em 2018 chegou aos cinemas o quarto e – até agora – último filme da saga, que por sua vez também era um prequel focado na vida de Elise Rainier. Porém, Sobrenatural: A Última Chave é uma completa desassociação das ideias que tinham tornado a franquia tão inovadora.

O filme é um verdadeiro festival de jump scares sem propósito e sem uma narrativa envolvente. A bomba da fez ficou sob o comando de Adam Robitel, um diretor que já havia mostrado seus “talentos” em filmes amplamente criticados, como A Possessão de Deborah Logan Atividade Paranormal: Dimensão Fantasma. Sem o charme de Wan ou a percepção de Whannell (mesmo que ainda estivessem envolvidos no roteiro e na produção), o longa foi a pá de cal no que poderia ser um universo fantástico.

Curiosamente, é o filme mais bem-sucedido da franquia, tendo arrecadado US$ 167 milhões – em parte, por conta de uma campanha extensa de marketing e uma estreia quase livre de concorrência.

O filme também se foca no passado de Elise – mas dessa vez, a história se situa imediatamente antes do caso retratado no primeiro capítulo da franquia. Elise precisa lidar com as memórias terríveis de sua infância, enquanto vai atrás do Keyface, um demônio que assombra sua família desde a década de 50.

Aliás, por falar na criatura, é aqui que está o maior trunfo do longa. Apesar de todos os seus defeitos, o quarto filme da saga Sobrenatural consegue apresentar mais uma assombração de peso com um visual inovador e macabro, enquanto explora o perigo que esses “fantasmas” representam para os personagens humanos. Não fosse isso, o longa seria um completo desastre.

Ainda assim, a franquia acabou se estagnando por conta da saturação – e embora um Capítulo 5 esteja sendo planejado, são escassas as informações a respeito da produção, o que nos leva a crer que o projeto pode ser engavetado muito em breve. Porém, mesmo com um final deveras decepcionante, a saga trouxe um legado impressionante para o horror.

A começar por Elise Rainier. É muito raro vermos mulheres protagonizando grandes franquias de horror, salvo algumas populares exceções. É mais raro ainda ver uma senhora no auge de seus setenta anos de idade, lutando com monstros, demônios e entidades malignas. A franquia estabeleceu Elise como uma verdadeira heroína, que aos poucos deixou de ser coadjuvante para se tornar a peça central da história.

Além disso, se não fosse por Sobrenatural, o universo de Invocação do Mal seria um sonho distante na mente de James Wan. A estrutura da franquia serviu como um “protótipo” para o universo compartilhado centrado em Ed e Lorraine Warren. As criaturas aqui apresentadas mostraram como era possível criar ícones do horror que conseguissem carregar nas costas seus próprios spin-off. 

A grande diferença é que, em Sobrenatural, cada filme serve como um spin-off centrado em alguma entidade diferente, enquanto o universo de Invocação do Mal abre espaço para uma franquia “principal” e seus diversos derivados.

Tudo isso mostra como James Wan evoluiu enquanto cineasta. Sobrenatural não é apenas um “protótipo” para os trabalhos posteriores do diretor, mas também um produto de seu tempo. Em 2010, era incrível ver um filme com uma história bem pirada e muitos sustos causadores de infartos. Em 2020, já estamos um pouco cansados disso e queremos coisas novas – mas não tem como negar que, mesmo com seus defeitos, a saga marcou toda uma década.

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Na galeria abaixo, fique com cartazes dos filmes da franquia:

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux