Capa da Publicação

Obras-Primas do Medo – Freddy Krueger e A Hora do Pesadelo!

- – “1… 2… Freddy vem te pegar!”

Por Gus Fiaux A década de 80 foi o período perfeito para o horror nos cinemas. Foi justamente nessa época que várias franquias prolíficas de Hollywood surgiram, apresentando vilões memoráveis. Enquanto Michael Myers e Leatherface já tinham seu lugar assegurado nos pesadelos do público, novos assassinos foram surgindo, na forma de Jason Voorhess, Pinhead, Chucky e, é claro, Freddy Krueger.

Krueger foi uma criação de ninguém menos que Wes Craven – responsável por franquias icônicas do cinema de horror, como Pânico e Quadrilha de Sádicos. Craven teve uma das mentes mais brilhantes da história de Hollywood, usando inspirações reais para explorar o horror de uma forma quase que poética.

Com Freddy, não foi diferente. Inspirado por uma série de mortes misteriosas em Los Angeles, nas quais as vítimas tinham constantes pesadelos e morriam durante o sono, ele decidiu criar um vilão como nenhum outro: um assassino de crianças que volta à vida após ser linchado, perseguindo novas vítimas no plano dos sonhos.

Assim, nascia A Hora do Pesadelo, uma das franquias mais populares de terror no mundo todo. Além de seis continuações, a saga desse “bicho-papão” também teve um crossover com Sexta-Feira 13, um reboot e até mesmo uma série televisiva, embora muitos não saibam.

O primeiro filme foi lançado em 1984, logo se tornando um sucesso de público. Um dos dois únicos filmes dirigidos por Wes Craven, o longa segue a jovem Nancy Thompson e seus amigos, que começam a ser perseguidos pelo fantasma de Krueger em seus sonhos.

O longa é um espetáculo visual. Mesmo que muitos de seus efeitos sejam datados, o interessante aqui é observar o horror nesse local onírico, fantástico e completamente fora da realidade. Freddy é um assassino genial, o que torna seus crimes criativos e diferentes – gerando cenas bem memoráveis, como o momento em que o jovem Glen Lantz (vivido por Johnny Depp, no começo de sua carreira) é “engolido” por sua cama e transformado em uma piscina de sangue.

Mas mais do que isso, o destaque do filme está nos polos. De um lado, temos Heather Langenkamp no papel de Nancy, que representou uma quebra de paradigmas ao se provar uma “mocinha” bem diferente das que tínhamos na época. É claro que, na superfície, ela é apenas mais uma final girl – porém, ela era inteligente e astuta, carregando o legado que foi deixado por Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) do primeiro Halloween.

Porém, um herói só é tão bom quanto o vilão que o antagoniza. E nesse sentido, Robert Englund cai como uma luva (perdão pelo trocadilho) no papel de Freddy. O astro viveu o personagem em todos os filmes da franquia original, sendo substituído apenas no remake de 2010.

Diferente dos vilões da época, que eram sérios e silenciosos – como Leatherface, Jason e Michael Myers –, Freddy sempre foi um inimigo tagarela e irônico, cheio de piadas e trocadilhos. O sinal claro de um assassino que gosta de matar, que se diverte estripando adolescentes e fazendo-os perder noites de sono (e de vida).

Por conta disso, o embate entre Freddy e Nancy é um espetáculo à parte no primeiro filme. Enquanto ela é a clara imagem de pureza, de inocência e de bondade, o vilão é a representação de todo o oposto: mau, sádico, cruel e completamente insano.

Curiosamente, Nancy fica viva ao final do primeiro filme, conseguindo “derrotar” o vilão. Isso nos faz ficar surpresos com o fato de que o segundo filme da franquia, A Hora do Pesadelo 2: A Vingança de Freddy, decide ignorar quase que por completo a personagem e as tramas do primeiro longa.

Em vez disso, o filme segue Jesse Walsh (vivido por Mark Patton), um adolescente que se muda com sua família para uma casa na famigerada Rua Elm – o local assombrado por Freddy. Lá, ele começa a se ver “possuído” pelo assassino, que deseja retornar ao mundo dos vivos para causar um caos total.

A única relação do filme com o longa original está na própria casa em que a Família Walsh vai viver – é a mesma casa em que Nancy vivia, quando adolescente.

O filme em si é uma continuação bem inferior, perdendo boa parte do charme do original. Porém, há muito mais sob a superfície do que podemos imaginar. O longa foi originalmente concebido como uma metáfora para a homossexualidade reprimida de seu protagonista, o que torna várias cenas recheadas de duplo sentido e subtextos.

Claro que, na época, abordar um assunto como a homossexualidade era um grande tabu, então isso é feito às cobertas, de uma maneira que o contexto ainda pode ser extraído, embora o tema da sexualidade nunca seja diretamente mencionado.

Inclusive, para quem quiser ter mais informações sobre o assunto, fiquem de olho para o lançamento do documentário Scream, Queen! My Nightmare on Elm Street, que lida mais a fundo com o assunto.

Apesar de não ser um filme muito bom, A Vingança de Freddy continua construindo a mitologia do vilão e transformando-o em um ícone do terror. Há cenas memoráveis e um ar mais sombrio, o que transformou o longa em um clássico cult para milhares de fãs.

E isso nos leva ao divertido A Hora do Pesadelo 3: Os Guerreiros dos Sonhos, que finalmente traz de volta Heather Langenkamp ao papel de Nancy Thompson. Aqui, ela é uma psicóloga que se envolve com um grupo de delinquentes juvenis, em um reformatório enquanto são perseguidos por Freddy.

O filme então começa a trazer os elementos mais excêntricos e campy da franquia, com várias cenas cheias de momentos constrangedoramente engraçados (a boa e velha vergonha alheia). Ainda assim, é um baita filme e uma das melhores continuações do original.

No longa, os jovens liderados por Nancy precisam descobrir habilidades dentro de seus sonhos para derrotar o assassino. É claro que essa é uma proposta altamente exagerada, que se torna ainda mais ridícula na tela, com os efeitos da época. Ainda assim, é um filme divertido que aborda muito bem as tensões adolescentes e que consegue criar sequências perturbadoras.

Um ótimo exemplo disso é o momento icônico em que Freddy começa a controlar um garoto como se fosse uma marionete, segurando suas veias e tendões. É um dos momentos que mostra como não há limites para o vilão quando o assunto é derrubar sangue de inocentes.

Porém, um grande pecado do filme está no tratamento dado a Nancy. Ela está de volta, melhor do que nunca, mas acaba tendo um fim… amargo. Não falarei mais para não dar spoilers.

Ainda assim, o quarto filme da saga, A Hora do Pesadelo 4: O Mestre dos Sonhos é uma continuação direta do terceiro, seguindo uma das sobreviventes do reformatório. Porém, é aqui que a franquia se entregou ao lucro, de forma que a história não faz o mínimo sentido.

(E honestamente, nem o público da época estava interessado na história. Todos só queriam ver Freddy matando geral.)

É a partir daqui que a saga entrega tramas mais absurdas e insanas a cada filme. No caso deste longa, temos uma protagonista que “absorve” as habilidades psíquicas de seus amigos mortos, e precisa usá-las no final para deter Freddy de uma vez por todas.

Dirigido por Renny Harlin, o filme é como uma obra de Salvador Dalí protagonizada por um assassino em série. É um filme psicodélico e surrealista, especialmente na construção de suas sequências de sonhos. Todo esse aparato visual é justamente o que torna a experiência interessante, já que o roteiro – co-assinado por Wes Craven – não é o forte da obra.

Foi também neste filme que os produtores da New Line Cinema – o estúdio responsável pela franquia – perceberam que os fãs não se importavam mais com o “elemento humano”. O que interessava era Freddy e sua carnificina – um mérito que deve ser atribuído, mais uma vez, a Robert Englund e sua performance impecável no papel.

Esse foi o pensamento levado para os dois filmes seguintes da franquia, a começar por A Hora do Pesadelo 5: O Maior Horror de Freddy. O filme larga um grande f*da-se para qualquer lógica e traz uma história bem absurda envolvendo o “filho perdido” de Freddy Krueger.

Os personagens são terríveis e a reviravolta é bem óbvia desde o começo, mas não é como se isso fosse o forte do filme. Mais uma vez, o que importa aqui é ver Freddy em toda sua glória, assassinando quem quer que esteja em seu caminho e fazendo piadas enquanto o sangue jorra para todos os lados.

Além disso, o filme trouxe uma ambientação bem mais sombria para a franquia. Se o longa anterior era recheado de cores e luzes psicodélicas, O Maior Horror de Freddy é um filme escuro e com uma atmosfera gótica, ainda mais nas sequências de sonho.

Dessa forma, o visual sempre se destacou nos filmes, já que cada um possui sua identidade própria e única.

Mas em A Hora do Pesadelo 6: Pesadelo Final, a Morte de Freddy, nem isso foi o suficiente para salvar um longa execrável. Dirigido por Rachel Talalay, que já era uma produtora de longa data da saga, o filme não é apenas chato como também desinteressante.

Até mesmo a performance de Englund parece menos interessante nessa adaptação, mesmo que ele fosse a única coisa impedindo a saga de cair em completo esquecimento. Curiosamente, o longa ainda fez um sucesso considerável nas bilheterias, em parte porque o público (a contragosto do que o título sugere, estava disposto a não deixar Freddy morrer).

E é ainda mais curioso pensar que um dos primeiros roteiros do filme foi escrito por Peter Jackson – sim, o diretor da trilogia O Senhor dos Anéis. Infelizmente, o roteiro foi descartado, mas posso apostar que teria sido melhor do que o que foi apresentado nas telas.

Felizmente, Wes Craven voltou como um cavaleiro no cavalo branco para salvar sua franquia em 1994. Em O Novo Pesadelo: O Retorno de Freddy Krueger, o criador fez uma de suas obras mais complexas e impressionantes, mudando completamente a perspectiva da franquia.

No filme, Heather Langenkamp, a atriz do filme original, retorna. Mas dessa vez, ela está interpretando… Heather Langenkamp.

O longa é, basicamente, um filme sobre a produção de um novo longa de A Hora do Pesadelo. É um filme dentro do filme, que traz vários atores e produtores clássicos da franquia interpretando eles mesmos – e isso inclui o próprio Wes Craven, que é uma peça central da narrativa.

Freddy Krueger então ganhou uma nova interpretação e um novo visual. Em vez de ser um assassino saído do mundo dos sonhos, ele é uma entidade demoníaca que assumiu a forma de Freddy devido ao clamor do público pelo personagem. E através disso, ele “sai do filme” e começa a causar mortes no “mundo real”.

Apesar de alguns problemas, O Novo Pesadelo é uma das melhores sequências do filme clássico, especialmente por sua auto-consciência e humor referencial. De muitas formas, o filme é um precursor de tudo que Craven faria em sua franquia Pânico, que também funciona como uma sátira dos filmes de terror.

Esse conceito trouxe um novo ar à franquia, mas os fãs não compraram muito a ideia. A prova disso é sua bilheteria que rendeu míseros 19 milhões de dólares, tudo isso com base em um orçamento limitado de 8 milhões. Para se ter uma ideia, a bilheteria do filme era quase um terço da bilheteria do quarto longa, O Mestre dos Sonhos.

E isso fez com que a saga fosse deixada na geladeira por quase dez anos – e isso foi sintomático em todo o gênero do horror. Franquias como Hellraiser, Halloween e outras também tiveram um hiato nos anos 90, já que o cinema estava acomodando outros tipos de terror, especialmente com a entrada do cinema asiático na jogada.

Porém, o retorno de Freddy Krueger veio como um ponto fora da curva, em Freddy vs. Jason, o famigerado crossover com Sexta-Feira 13. Embora seja um filme trash de alto nível, o longa rendeu mais de 100 milhões de dólares, tomando o primeiro lugar nas bilheterias da saga.

A premissa é confusa e cheia de problemas, mas o filme é uma diversão garantida se você já for esperando um filme ruim. Na verdade, é aqueles casos em que uma obra péssima dá a volta e se torna tão boa justamente por ser tão ruim. E o ponto de partida de tudo isso está no título: o confronto entre Freddy Krueger e Jason Vorhess.

O filme em si é mais lúdico e engraçado do que assustador, mas isso dá um charme trash genial para a obra. É péssimo, mas é divertido. E honestamente, não dá para pedir muito de uma franquia que coloca dois monstros de séries clássicas de horror um contra o outro – Alien vs. Predador que o diga.

Por fim, chegamos em 2010, sete anos após o lançamento de Freddy vs. Jason. Hollywood já tinha percebido o lucro na repetição, e isso motivou uma leva incontestável de remakes de filmes de terror – um pior que o outro, diga-se de passagem.

E nem o pobre Freddy escapou dessa.

Lançado na virada da década, A Hora do Pesadelo é um filme canastrão e que se esforça demais para tentar recriar o que o longa original fez com facilidade. Em vez de apostar nas cores e na ironia perversa de seu vilão, o longa tenta demais ser “sombrio”, o que realmente não combina em nada com a franquia de Wes Craven.

Para piorar, o filme também jogou Robert Englund para longe, dando o papel do assassino dos sonhos para Jackie Earle Haley (sim, o Rorschach de Watchmen). Além de um design péssimo, que depende de efeitos visuais sofríveis, em vez de maquiagem, o personagem é completamente sem vida. Não tem nem o charme de Englund e muito menos o carisma necessário para se manter fiel ao seu legado.

E Earle Haley não foi o único ator desperdiçado no longa. O elenco conta com nomes bons, como Rooney Mara, Katie Cassidy, Clancy Brown e Connie Britton, todos em papéis asquerosos, que sequer servem como “releitura” dos personagens do filme clássico.

Desde então, A Hora do Pesadelo caiu no esquecimento de Hollywood – mas não dos fãs. Freddy ainda é um dos personagens mais icônicos do cinema de horror, e tudo graças à parceria inestimável de Craven e Englund. É uma figura sádica e sinistra, pronta para aterrorizar seus sonhos – mas fazendo piadas enquanto te mata.

Isso tudo torna a saga de Freddy Krueger um clássico obrigatório para qualquer fã de horror. Seu impacto na cultura pop é grande demais para ser esquecido, e o personagem é até hoje um dos grandes exemplos de como o horror pode ser divertido sem deixar de ser assustador.

Esperamos ainda ver Freddy nos cinemas – de preferência, com Englund de volta ao papel. Que seu legado possa continuar e que ele ainda possa nos aterrorizar muito, seja nas telonas ou em nossos pesadelos.

Na galeria abaixo, fique com pôsteres dos filmes da franquia:

Imagem de perfil
sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Pernambuco. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux