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Obras-Primas do Medo – De Iluminado a Doutor Sono!

- – REDRUM!

Por Gus Fiaux → Ao longo de vários anos, Stephen King se tornou o Mestre do Horror, devido a todas as suas contribuições literárias ao gênero. Ele já escreveu uma infinidade de livros, contos, antologias e histórias macabras, além de ter colocado um pé nos cinemas, seja através das adaptações de suas obras ou pela participação em algumas delas. E até hoje, é difícil pensar em um caso mais curioso do que O Iluminado, uma de suas maiores obras-primas.

Publicado originalmente em 1977, o livro é um verdadeiro passeio auto-biográfico, já que foi escrito em uma época em que King era refém do alcoolismo. Ao criar o personagem Jack Torrance, um ex-professor universitário e escritor, ele insere muito de sua própria personalidade e seus próprios demônios internos, mostrando todo o conflito que ele tinha e a transformação pela qual passava ao cair na espiral do álcool.

Sendo o terceiro livro publicado de King, O Iluminado talvez seja a obra mais prestigiada da carreira do escritor. A história gira em torno de Jack, sua esposa Wendy Torrance e seu pequeno filho Danny, que precisam passar uma temporada no magnífico Hotel Overlook, que por sua vez está fechado por conta do inverno brutal das montanhas do Arizona. Jack é contratado, então, para tomar conta do hotel nesse período.

Porém, além do sentimento de enclausuramento sentido por toda a família, eles não estão preparados para lidar com a história sórdida que inunda os corredores do Overlook, um hotel assombrado por fantasmas de um passado sinistro e poderoso. Logo, Jack começa a ser atormentado pela influência do local, e sua vida se torna um verdadeiro inferno, enquanto ele se transforma em uma ameaça para a sua família.

O Mestre do Horror, sempre simpático.

Claro que, com o sucesso de vendas do livro, era questão de tempo até que essa história fosse transportada aos cinemas. Mas a surpresa mesmo veio através do diretor que se propôs a adaptá-la: Stanley Kubrick, um dos maiores cineastas de todos os tempos, que até o momento já tinha presenteado o mundo com obras sensacionais, como Laranja Mecânica, Lolita, 2001: Uma Odisseia no Espaço Glória Feita de Sangue. 

Ao ser lançado, em 1980, o filme de O Iluminado recebeu críticas polarizadas. Para muitos, Kubrick havia feito uma grande obra-prima do horror, enquanto que, para outros, o diretor havia destroçado o livro mais poderoso de King em uma adaptação fria, sem sentido e significado. Curiosamente, a pessoa que mais odiaria o filme seria ninguém menos que o próprio Stephen King.

A história de ambos, embora seja relativamente fiel, diverge em vários pontos. No livro, temos uma exploração muito mais profunda do hotel e seu significado sobrenatural. Jack Torrance é desenvolvido como um homem refém de vícios e dos fantasmas (tanto seus quanto do hotel), que no fim consegue encontrar a lucidez necessária para salvar sua família, enquanto se sacrifica para destruir o Overlook de uma vez por todas.

Já no filme, a escolha de Jack Nicholson sempre foi um ponto de divisão entre Kubrick e King. Embora Kubrick tenha achado o ator perfeito para o papel, levando-o ao limite para criar um dos maiores vilões do cinema, King sempre desprezou a escolha, já que achava que Nicholson tinha um visual “insano” desde o início, mesmo antes de Jack Torrance começar a ser possuído pelo espírito macabro do hotel.

“Here’s Johnny!”

Porém, com o passar dos anos, O Iluminado de Kubrick foi ganhando força e passou a receber uma visão cada vez mais positiva. O filme se tornou um clássico do horror, considerado por muitos como um dos melhores filmes do gênero já feitos, além de ter influenciado direta e indiretamente vários cineastas e filmes que vieram após seu lançamento.

O grande ponto de cisão entre o livro e o filme é algo que King explicou uma vez em uma entrevista, ao dizer que “o livro é quente, o filme é frio. O livro termina no fogo, e o filme termina em gelo.” Essa foi a forma dele dizer que Kubrick era frio, enquanto ele mesmo era quente. Uma definição exata de como a adaptação de sua obra perdeu toda a chama (figurativa e literal), algo que muitos fãs ainda reclamam atualmente. Porém, há uma forma de apreciar as duas obras e reconhecer suas qualidades, mesmo que divergentes.

Particularmente falando, sempre fui grande apreciador de Kubrick, especialmente no campo técnico. Já havia visto O Iluminado antes de ler o livro – e quando finalmente conferi a obra de King, não me senti tão movido quanto havia ficado pelo filme. Relendo o livro neste ano, pude perceber toda a genialidade de King transposta em palavras, em uma obra que dialoga de uma forma muito mais literal com o terror fantástico e sobrenatural.

A grande diferença entre as duas mídias está na abordagem – e pela primeira vez na história, temos um filme que consegue deixar a mensagem do livro ambígua. Afinal de contas, os eventos vividos por Jack Torrance são reais ou frutos de sua imaginação? Esse é um desafio tremendo, já que o cinema tende a ser bem mais explícito do que a literatura – basta pegar como exemplo a espetacular adaptação de O Exorcista, que remove toda a ambiguidade do livro.

Wendy e Danny Torrance, reféns do medo.

Por mais que os fãs puristas acreditem que uma adaptação precise seguir ao pé da letra a história de seu material fonte, são justamente as divergências que enriquecem tanto o livro quanto o filme de O Iluminado. São obras diametralmente opostas, mas que carregam dentro de si significados muito mais amplos quando vistos um ao lado do outro. De muitas formas, as duas mídias se complementam tanto quanto se antagonizam.

De um lado, King com seu jeito prolífico de escrever criou um dos maiores clássicos de “casa assombrada” da história, com a diferença que a casa é um hotel gigantesco, além de mostrar um homem no meio da tormenta causada pela culpa e pelo vício. Do outro lado, Kubrick fez um clássico do cinema, com uma atmosfera claustrofóbica, uma trama ambígua e personagens mais humanos.

De qualquer forma, o ponto focal que deve ser observado não é Jack, mas sim Danny Torrance, seu filho. É justamente a ele que o título faz referência, já que ele é uma criança “iluminada” – ou seja, possui alguns poderes psíquicos, sendo capaz de se comunicar telepaticamente, ler os pensamentos de outras pessoas e até mesmo ver o futuro, de uma forma um pouco limitada.

Ele se torna o alvo do Overlook, que quer fazer de sua estadia permanente. Ele é o centro da narrativa, uma criança perdida em um ambiente hostil, com uma mãe cautelosa e um pai que está cada vez mais mergulhado na loucura. Seu único recurso é Tony, seu amigo imaginário que representa seus poderes, ainda em formação. É um protagonista singular, cuja história não se limita apenas a O Iluminado. 

Danny Torrance, o Iluminado.

Após seu ódio expresso pelo filme de Kubrick, King começou a produzir sua própria versão do livro, em uma adaptação para a TV lançada em 1997. Tratava-se de uma minissérie em três partes, dirigida por Mick Garris – que já havia trabalhado em várias adaptações televisivas das obras de King – e que adaptava com fidelidade extrema o livro de 1977. Vinte anos após o surgimento dessa história, King finalmente estava feliz com uma adaptação.

Porém, o que O Iluminado de 1997 apresenta em fidelidade, também é perdido em estilo e técnica. A série é muito longa, conta com efeitos visuais vergonhosos e uma infinidade de diálogos ruins e atuações fracas. É uma obra que pode ser conferida pelos fãs mais puristas do livro, mas que não tem a mesma grandeza que a obra original ou até mesmo que o filme de Kubrick.

Após anos na geladeira, Stephen King resolveu revisitar esses personagens e seu universo em Doutor Sono. A ideia do livro partiu de diversas coletivas de imprensa, onde o autor sempre era questionado sobre “o que aconteceu com o menininho de O Iluminado“. Assim sendo, ele decidiu contar a história de um Danny já adulto, tendo que lidar com outros problemas.

Em Doutor Sono, Danny se torna Dan Torrance, um homem que também sofre com o alcoolismo e que encontra a paz ao se mudar para uma cidade pequena, onde se torna um enfermeiro que, por conta de seus poderes, consegue fazer a “transição” dos pacientes à beira da morte – o que lhe rende o apelido de Doutor Sono. Porém, o horror se dá de outra maneira por aqui.

O Iluminado, de 1997. Fiel, mas cheio de falhas.

Dan começa a se comunicar telepaticamente com Abra, uma menina iluminada que possui poderes muito maiores que os dele. A menina, por sua vez, começa a ser caçada por uma seita sinistra chamada de O Verdadeiro Nó, que basicamente é composta por “vampiros” que se alimentam da alma de crianças iluminadas. Essa alma sai na forma de um vapor, que é expelido quando as vítimas da seita são torturadas e ficam à beira da morte.

E embora seja uma continuação respeitável para a história de Dan Torrance, Doutor Sono talvez seja um dos livros mais estafantes de King nos últimos anos. A história demora para engatar, e quando isso finalmente acontece, já estamos de saco cheio e esperando que tudo acabe. O começo é enrolado e cheio de situações descartáveis, enquanto acompanhamos o que aconteceu na vida de Dan após os eventos no Hotel Overlook.

Mesmo com seus (vários) defeitos, o livro é uma carta de amor ao personagem e aos fãs do livro de O Iluminado. Não é apenas uma sequência, como também um sucessor espiritual que mostra Dan enfrentando seus próprios demônios enquanto precisa sair da sombra do pai. O livro foi lançado em 2011, e neste ano, ganhou sua adaptação para os cinemas, dirigida por Mike Flanagan (da excelente série A Maldição da Residência Hill).

Porém, Flanagan tinha um grande desafio em mãos: afinal, ele devia fazer uma adaptação literal do livro ou uma continuação d’O Iluminado de Kubrick? Essa questão permeou os fãs desde o anúncio do filme, e o resultado é uma obra que faz o “casamento” de King e Kubrick de uma forma perfeita, como já falei na crítica do filme. De muitas formas, o filme de Doutor Sono é a prova cabal de como essas duas versões da mesma história se antagonizam e se complementam.

Dan Torrance, o Doutor Sono.

O filme de Flanagan chegou aos cinemas no começo de novembro, e foi uma baita decepção para a Warner Bros. em termos financeiros, mesmo se provando uma continuação certeira de O Iluminado. O filme começa seguindo fielmente o livro de King, com apenas algumas mudanças à obra original, para se adaptar ao universo proposto por Kubrick em seu longa-metragem.

Do meio para o fim, no entanto, muita coisa é subvertida conforme Flanagan se afasta mais do Overloook literário e se aproxima de sua versão cinematográfica – de uma forma literal. Nos livros, o hotel é destruído ao fim de O Iluminado, o que significa que não o vemos em Doutor SonoNos cinemas, como o local se manteve intacto após a estadia dos Torrance, nós voltamos lá para um clímax aterrorizante.

Isso não quer dizer que o filme de Flanagan seja perfeito – há alguns problemas de ritmo e o começo é tão lento e entendiante quanto o início do livro -, mas ao menos vemos, mais uma vez, um cineasta capaz de dar sua própria voz para um projeto, enquanto executa-o de forma minuciosa. E embora o Hotel Overlook seja, de fato, a maior fonte dos medos, é justamente toda a trama central que causa calafrios.

Assim como O Iluminado de Kubrick, Doutor Sono de Flanagan é um filme que perturba mais do que assusta. O Verdadeiro Nó aqui é transposto de uma forma aterrorizante, em cenas brutais onde vemos os membros do grupo fazendo sua caçada. Há uma cena profundamente perturbadora que envolve a tortura e o assassinato de uma criança, feita de forma bem explícita.

Vampiros de almas!

Em suma, toda a história por trás de O Iluminado Doutor Sono é muito controversa. De um lado, temos os livros de Stephen King, um autor que sabe escrever horror – ainda que seja conhecido por algumas de suas falhas, como a escrita prolixa e seus finais decepcionantes. Ambos os livros tem sua cota grande de qualidades, com O Iluminado sendo uma das maiores obras de todos os tempos.

Já no campo dos cinemas, as obras podem até ter decepcionado os leitores mais puristas, mas ainda são filmes com grandes méritos. Você pode escolher entre gostar da mídia literária ou dos filmes, mas a experiência é ainda mais completa quando você dá a chance para as duas. É uma franquia que apresenta um raro caso onde dois criadores possuem muito a dizer sobre a obra, e a transformam em ideias autorais, mesmo que baseadas em outro material.

A discussão entre qual é o melhor entre o livro de King e o filme de Kubrick é eterna e não leva a lugar nenhum, já que há qualidades visíveis nos dois. É a prova de que você pode gostar de uma adaptação tanto quanto de seu material original, mesmo reconhecendo as semelhanças e as diferenças entre as duas obras. E não deixa de ser um clássico do horror.

Seja através de Jack Torrance, de Dan Torrance ou do próprio Hotel Overlook, a saga de O Iluminado Doutor Sono é uma das melhores já apresentadas no horror. É uma história angustiante, que mostra tanto o talento técnico de Flanagan e Kubrick quanto consolida King como um dos maiores mestres do terror de todos os tempos.

MURDER!

Na galeria a seguir, fique com cartazes de Doutor Sono:

Doutor Sono está em cartaz nos cinemas.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Pernambuco. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux