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[CRÍTICA] O Grito faz muito barulho, mas não diz a que veio

Por Gus Fiaux

Hollywood simplesmente não consegue se livrar de algumas franquias famosas, e o gênero do horror é um ótimo exemplo disso. Mais de dez anos após o último filme norte-americano, a saga de O Grito retorna aos cinemas com um longa que não tenta ser um reboot, um remake e nem mesmo uma continuação direta.

Em vez disso, o filme se passa entre os eventos da trilogia norte-americana, como um spin-off, mas dessa vez situado nos Estados Unidos. Mas será que o novo longa consegue produzir algo novo e assustar uma nova geração do público? Já conferimos o filme, e aqui está a nossa crítica!

Créditos: Sony

Ficha Técnica

Título: O Grito (The Grudge)

 

Direção: Nicolas Pesce

 

Roteiro: Nicolas Pesce e Jeff Buhler

 

Ano: 2020

 

Data de lançamento: 14 de fevereiro de 2020 (Brasil)

 

Duração: 94 minutos

 

Sinopse: Uma casa é amaldiçoada por fantasmas vingativos, e condena todos que entram nela a sofrer uma morte violenta.

O Grito faz muito barulho, mas não diz a que veio

Nos anos 2000, o J-Horror (a leva de filmes de terror feitas no Japão) tomou conta do mundo, e não tardou para que várias franquias ganhassem suas versões norte-americanas – afinal, o povo estadunidense tem uma certa fama pela preguiça em ler legendas. Foi assim que sagas como O Grito, O Chamado Espíritos se tornaram um sucesso comercial no Ocidente.

Essa febre parece ter passado, mas vez ou outra nos deparamos com uma nova continuação (vide O Chamado 3, lançado em 2017) ou um novo remake surjam para lembrar dessa era peculiar do cinema de horror. Agora, O Grito retorna às telas com um filme situado nos Estados Unidos, deixando essa história ainda mais americanizada.

Mas não se engane: apesar do título ser o mesmo do filme de 2004, protagonizado por Sarah Michelle Gellar (a eterna Buffy/Daphne), o novo longa não é um remake. Ou um reboot. Sequer uma continuação. A narrativa é quase um spin-off, que começa no Japão e traz a maldição de Kayako para as terras do Tio Sam, com direito a fantasmas “típicos” do horror de Hollywood.

Assim como os longas anteriores – tanto da franquia O Grito quanto da saga japonesa Ju-on – o novo filme tem uma história não-linear e que nos apresenta uma grande variedade de personagens. Porém, a história não tem um protagonista definido, e nos apresenta várias pessoas que sofrem com a maldição causada por uma morte violenta, que marca um lugar – uma casa – definitivamente.

E só isso já torna esse novo longa um pouco mais próximo da franquia japonesa. Mas as semelhanças param aí. É um filme americano, com personagens americanos e fantasmas americanos. Então não espere ver Kayako ou Toshio rastejando pelos cantos – por mais que a icônica fantasma faça uma breve participação no começo do longa. Não é spoiler. 

E é assim que começam os primeiros problemas do novo O GritoPor mais que a ideia de trazer definitivamente a franquia para os Estados Unidos não seja necessariamente ruim, o novo filme é completamente despido de personalidade e originalidade, sem ter um traço marcante. Os fantasmas são genéricos e não têm um décimo da imponência visual das assombrações nipônicas.

A história, por sua vez, segue o que já é esperado. No centro de tudo, temos uma mulher – a policial Muldoon (Andrea Riseborough) -, que se muda para uma nova cidade com seu filho, e começa a investigar crimes associados a uma casa misteriosa na vizinhança. Ela sabe que um acontecimento violento aconteceu a dois anos.

O resto do longa mostra como várias pessoas foram afetadas pela morte da Família Landers, que provocou um surto de violência bizarro e se alastrou pelo bairro. A ideia é boa, mas a execução fica no meio do caminho, já que todos os segmentos são fragmentados além do necessário e acabam de formas muito previsíveis e óbvias.

Os atores também são desperdiçados. O filme conta com um elenco razoavelmente bom, com nomes como John Cho, Demián Bichir, Lin Shaye e a própria Andrea Riseborough. Todos são bem representados através de figurinos e dos cenários que os rodeiam, mas não possuem um pingo de personalidade. Alguns até tentam, como Cho e Shaye, mas seus papéis são pequenos demais para isso.

E esse resultado é, no mínimo curioso, considerando a equipe por trás dessa produção. O longa é produzido por Sam Raimi, responsável por clássicos do horror como Uma Noite AlucinanteArraste-me Para o Inferno (e também produtor da trilogia original). Com o nome estampado em cada cartaz do filme, os fãs esperavam algo ao menos decente.

O roteiro e a direção são assinados por Nicolas Pesce, um cineasta que ficou conhecido pelo horror português Os Olhos de Minha Mãe, que por sua vez foi muito bem elogiado pela crítica e pelo público. Aqui, ele dá seu melhor na direção – e podemos ver pelos belíssimos enquadramentos e pelo trabalho competente de encenação, mas não há como se destacar com um roteiro tão genérico.

Além disso, o filme chafurda nos piores tipos de jump scares – não que a trilogia norte-americana não fosse cheia deles, mas aqui nem sequer podemos ver um dos fantasmas em detalhes, já que todas as vezes que eles aparecem são em momentos de sustos previsíveis e rápidos demais, muitos deles em sequência, não dando tempo para o público respirar e absorver o rascunho de história que o filme tem.

E isso se torna cansativo rapidamente. Pesce sabe criar atmosfera – o que é um ponto positivo, já que nem tudo depende apenas dos sustos -, mas não sabe criar jump scares surpreendentes ou criativos. Durante todo o filme, temos o mesmo tipo de cena: zoom em um canto escuro, o som diminui, os personagens ficam tensos, há um grande barulho e um fantasma aparece.

Por outro lado, algumas características ressaltam aos olhos. O filme tem bons efeitos práticos e uma direção de arte competente, especialmente na casa que é assombrada. A trilha sonora funciona, apesar de ser constantemente interrompida para que os fantasmas possam fazer a festa, e há um ou outro diálogo realmente bom no roteiro, mesmo que sejam ofuscados por todo o resto.

Para os fãs da franquia, não será uma perda total – ainda dá para se divertir e relembrar os filmes originais, principalmente graças a alguns easter eggs e cenas que se repetem no novo longa. E o espírito da franquia está lá, já que a história segue os mesmos princípios dos antecessores. Mas quem espera algo novo – como prometeu a campanha de divulgação – definitivamente vai se decepcionar.

O novo O Grito é um filme que poderia ter sido muito bom e memorável – assim como A Morte do Demônio, o remake de Uma Noite Alucinante, que também é produzido por Sam Raimi. Infelizmente, ele apenas traduz a história da franquia de vez para os Estados Unidos.

Mas, para isso, o roteiro dissipa qualquer sinal de originalidade ou elementos marcantes. Os fantasmas não surpreendem e a história soa igual, apenas ambientada em outro país. De muitas formas, pode funcionar como um remake, mesmo que essa não seja a proposta.

Mas para quem não liga muito para isso, o filme até pode ser divertido. Só não vá esperando um capítulo que realmente vá reformular a franquia e introduzi-la para uma nova geração. Esse novo O Grito é barulhento e definitivamente faz jus ao seu título, mas não diz muito a que veio.

Na galeria abaixo, fique com cartazes do filme:

O Grito está em cartaz nos cinemas.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux