Crítica – Boogeyman: Seu Medo é Real expande conto macabro de Stephen King para personificar o luto de uma família

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Crítica – Boogeyman: Seu Medo é Real expande conto macabro de Stephen King para personificar o luto de uma família

Por Jaqueline Sousa

Quando Prometeu roubou o fogo dos deuses para entregá-lo à humanidade, ele foi terrivelmente punido por Zeus. Mesmo com boas intenções, o titã enfrentou consequências desastrosas por ter presenteado os seres humanos com luz e calor, mas foi justamente a desgraça de Prometeu que iniciou uma nova era para os meros mortais: com fogo, o receio do que habitava na escuridão já não seria mais um problema. Mas e se, mesmo assim, a personificação do medo estivesse à espreita, nas sombras, apenas esperando as chamas se apagarem para atacar?

É partindo dessa pergunta que Boogeyman: Seu Medo é Real recebe o mês de junho nos cinemas. Usando o conto homônimo de Stephen King como ponto de partida, o diretor Rob Savage retorna após o divisivo Dashcam (2021) para levar às telonas toda a atmosfera macabra da obra original. E mais do que apenas adaptar o universo criado por King, os roteiristas Scott Beck, Bryan Woods e Mark Heyman aproveitaram a ideia do escritor para expandi-la, criando novas nuances e preenchendo lacunas com a ajuda de uma direção meticulosa de Savage.

Ficha técnica

Título: Boogeyman – Seu Medo é Real

 

Direção: Rob Savage

 

Roteiro: Scott Beck, Bryan Woods e Mark Heyman

 

Data de lançamento: 1 de junho de 2023

 

País de origem: Estados Unidos da América e Canadá

 

Duração: 1h 38min

 

Sinopse: Sadie Harper, uma estudante do ensino médio, e sua irmã mais nova Sawyer sofrem com a recente morte de sua mãe, sem o apoio necessário por parte de seu pai, Will, um terapeuta que também está lidando com sua própria dor. Quando um paciente aflito aparece inesperadamente em sua casa em busca de ajuda, ele deixa para trás uma terrível entidade sobrenatural que persegue famílias e se alimenta do sofrimento de suas vítimas.

Pôster de Boogeyman: Seu Medo é Real.

Quem tem medo do Bicho-Papão?

Tente lembrar da época em que você ainda era uma criança e estava prestes a iniciar o seu ritual do sono. Seus pais, provavelmente, interromperam uma brincadeira super empolgante para te obrigar a dormir antes das 20h, o que significa que sua mente estava elétrica demais para isso. Mesmo assim, as luzes do quarto se apagaram e, de repente, foi como se seus piores pesadelos tivessem ganhado vida, principalmente aquele monstro que estava escondido embaixo da sua cama.

É claro que, no período, isso era apenas a sua mente tentando te enganar. Mas e se todas aquelas criaturas que nos amedrontaram na infância – as Cucas, os Bichos-Papões e por aí vai – não fossem apenas fruto da nossa imaginação? É essa pergunta que Boogeyman: Seu Medo Real tenta responder a partir da perspectiva de Sadie Harper (Sophie Thatcher), uma adolescente que está tentando lidar com a morte da mãe, assim como a irmã mais nova, Sawyer (Vivien Lyra Blair), sem receber muito apoio do pai.

Se já não bastasse a dor do luto, as duas irmãs começam a presenciar acontecimentos estranhos dentro de casa depois que um paciente do pai, que trabalha como psiquiatra, aparece em busca de ajuda apenas para deixar uma entidade sobrenatural na residência. A partir disso, o simples ato de apagar as luzes pode ser extremamente mortal.

Boogeyman: Seu Medo é Real é inspirado em um conto de Stephen King.

Desde que o mundo é mundo, dizer que monstros estão escondidos embaixo da cama ou dentro do armário é um dos artifícios mais usados por adultos para fazer com que crianças sejam obedientes. É uma experiência universal que já foi reproduzida diversas vezes no cinema, na literatura, ou em qualquer outro tipo de arte, e o Bicho-Papão sempre aparece como a figura mais recorrente nessas “histórias”. Afinal, nada melhor do que usar a própria personificação do medo para causar espanto.

Stephen King sabe muito bem disso. O escritor não é conhecido como “Mestre do Terror” à toa, no final das contas. Seja em romances como Carrie, a Estranha ou em contos como The Boogeyman (O Bicho-Papão, em tradução livre), King consegue criar uma atmosfera embriagante de adrenalina que, cinematograficamente falando, faz seu coração bater mais rápido nas mãos de um cineasta que sabe o que está fazendo. Esse é o caso da adaptação do conto The Boogeyman, que chegou ao Brasil com o subtítulo de Seu Medo é Real.

Como dito, a intenção do filme de Rob Savage não é exatamente adaptar linha por linha o conto de Stephen King. Enquanto na história de poucas páginas acompanhamos um relato inquietante que Lester Billings faz ao Dr. Harper sobre o assassinato de seus três filhos, o longa-metragem estrelado por Sophie Thatcher (Yellowjackets) mostra a jornada das duas filhas do psquiatra do conto, que estão fazendo de tudo para enfrentar a perda da mãe sem receber muita ajuda do pai, Will (Chris Messina). Foi uma decisão criativa interessante para expandir a história de King, o que coloca os aspectos e detalhes instigantes da narrativa sob uma outra perspectiva.

Filme acompanha a jornada de duas garotas, juntamente com o pai, que tentam lidar com a morte da mãe.

Diante dessa realidade, por mais que Boogeyman: Seu Medo é Real traga os dramas da família Harper para o centro do debate, é a adolescente Sadie que ganha maior destaque na narrativa. Os medos e inseguranças da jovem que acabou de perder a figura materna se personificam na figura do monstro escondido no armário, o móvel que, ao mesmo tempo que mantém o vestido preferido da mãe, também esconde um horror que a consome cruelmente.

E não seria essa uma ótima maneira de tentar definir o que é vivenciar um luto, tornando-o “palpável” para, quem sabe, finalmente compreender o que ele é? A jornada dos Harpers, especialmente a de Sadie, pode ser vista a partir desse ângulo, afinal o monstro debaixo da cama pode até não estar à vista em um primeiro momento, mas desdenha-lo não vai mudar o fato de que ele está ali, pacientemente esperando que as luzes se apaguem para surgir.

É justamente quando uma fresta da porta se abre, ou a luz de uma vela diminui, que aquilo que Sadie achava que estava apenas em sua cabeça, ou que fosse somente a imaginação fértil de sua irmã mais nova, acabe se transformando em uma realidade sufocante e terrível, onde nem mesmo a luz pode interferir.

Não deixe ele sair

Há uma frase no conto de Stephen King que poderia facilmente resumir Boogeyman: Seu Medo é Real. Dita por Lester Billings, que no filme de Rob Savage é interpretado pelo ator David Dastmalchian (O Esquadrão Suicida), a sentença fala sobre aquela coisa que, a princípio, existe apenas na sua cabeça, mas que, se você acredita nela veemente, pode se tornar uma verdade. “Talvez, se você pensar em algo por tempo o suficiente, e acreditar, isso se torna real” (em tradução livre), Billings diz ao Dr. Harper. Olhando dessa maneira, o título que o filme ganhou aqui no Brasil não poderia ter sido mais certeiro do que ele é.

E é isso que torna a atmosfera de Boogeyman ainda mais interessante porque, em certos momentos, não existe nada mais assustador do que o que vive na nossa própria mente. O medo de que aquilo que se esconde nas sombras dos nossos pensamentos – os traumas, as dores e sentimentos ruins – se torne real o suficiente para escapar do mundo das ideais e nos assombrar em carne e osso é paralisante de maneiras que nem mesmo um Bicho-Papão é capaz de ser, por mais grotesca que sua aparência seja.

O filme brinca com a ideia de monstros escondidos embaixo da cama ou no armário para expandir o conto de Stephen King.

O diretor Rob Savage não somente entendeu esse ponto, como também conseguiu transmiti-lo através do olhar da câmera com competência, algo que ele já fazia em seus curtas-metragens, como o alucinante Dawn of the Deaf (2016). É nítido que a experiência de Savage com o horror fez com que Boogeyman se transformasse em uma jornada visual empolgante, já que o filme encontra perspectivas tão únicas que, na mão de alguém que não se sente à vontade com o gênero, dificilmente seriam bem executadas. É uma realidade que apenas pessoas como James Wan conhecem como a palma da mão, e Rob Savage parece trilhar um caminho bastante promissor para alcançar isso.

Assim, Boogeyman: Seu Medo é Real usa uma figura tão popularizada quanto o Bicho-Papão para falar sobre o luto de uma família que, cada vez mais, se esconde na escuridão de seus próprios sentimentos. Embora vivam o mesmo trauma, cada integrante dos Harpers enfrenta a perda de um jeito singular, e isso acrescenta novas nuances ao conto de Stephen King no que diz respeito à experiência de ter que aprender a viver com a ausência irreparável de uma pessoa querida.

Afinal, não há como superar a morte, e a personagem de Sophie Thatcher está tentando lidar com esse fato justo em uma fase da vida que por si só já é tão conturbada e repleta de mudanças a cada instante. A atriz consegue captar a essência de Sadie de um jeito genuíno, o que destaca ainda mais seu protagonismo na trama.

Sophie Thatcher é o grande destaque de Boogeyman: Seu Medo é Real.

Talvez seja o destaque de Sadie que acabe “apagando” um pouco as frustrações vividas por Will Harper, que precisa enfrentar a delicada situação na qual se encontra. Sem a esposa, o psiquiatra luta para se reerguer e servir de apoio para as filhas, mas o filme não explora muito essa questão tanto quanto aborda a vivência de Sadie e sua relação com a irmã mais nova, Sawyer. São escolhas, claro, e não é algo que realmente atrapalhe a execução da narrativa, mas não deixa de ficar aquela sensação de que poderíamos ter visto um pouco mais desse desenvolvimento.

Ainda assim, no final das contas, Boogeyman: Seu Medo é Real é um ótimo filme de terror que usa elementos inerentes ao gênero, como os famosos jump scares, por exemplo, com parcimônia, transitando muito bem entre camadas mais dramáticas e sequências aterrorizantes para costurar uma história onde o simples ato de sentir medo pode interromper a sua vida num instante. Afinal, você só precisa acreditar o bastante para que o medo se torne real.

Nota: 4/5

Boogeyman: Seu Medo é Real estreia no dia 1 de junho de 2023 nos cinemas brasileiros.

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