Bu! Afinal, precisa mesmo de jump scares?

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Bu! Afinal, precisa mesmo de jump scares?

Por Gus Fiaux

Toda vez que você é convidado pelos seus amigos para assistir um filme de terror, você já espera a mesma situação recorrente: em uma das cenas mais tensas, a trilha sonora cai enquanto os personagens principais investigam algum canto escuro de uma casa amaldiçoada (pontos extras se for o sótão ou o porão). Você começa a se retorcer na cadeira, enquanto a tensão chega a um limite extremo… até que um demônio pula na tela, dando um susto nos personagens do filme e quase provocando infartos no público.

Esse é o famoso jump scare – um termo bem conhecido pelos fissurados do gênero do horror, e que em sua tradução literal, significa “susto do pulo”. Teoricamente, é um susto tão grande quem tem, como objetivo, te fazer pular da cadeira. E é um elemento usado em doses cavalares, sobretudo em filmes de terror mais mainstream e populares.

Mas afinal, esse recurso estrutural é bom ou ruim? Há quem odeie profundamente os chamados “terror de jump scare” – filmes de horror que se sustentam à base desse tipo de susto. Por outro lado, há quem goste e que ache interessante a sensação provocada por eles – o que nos faz nos questionarmos: afinal, eles são inimigos ou amigos dos filmes de terror?

Descanse em paz, Marion Crane!

Quando falamos de cinema e produtos audiovisuais, é importante frisar que os jump scares não eram tão comuns quando o horror foi concebido, originalmente. Isso não significa que não tínhamos alguns sustos. E não pense que isso é tática de cineasta de quinta: até mesmo Psicose, de Alfred Hitchcock, conta com um elaborado jump scare na cena do banheiro.

Além dele, outros clássicos também contavam com sustos de fazer gelar a espinha. Só para termos alguns exemplos, podemos citar Os Inocentes (adaptação de A Outra Volta do Parafuso, um dos maiores exemplos de literatura fantasmagórica) e o suspense Um Clarão nas Trevas, protagonizado por Audrey Hepburn. Esses filmes contém sustos bem lembrados por quem os assistiu.

No entanto, a grande popularidade do jump scare surgiu nos anos 70 e 80, especialmente com a popularização do slasher – um subgênero do horror onde acompanhamos algum louco assassino indo atrás de um grupo de pessoas. Um dos grandes expoentes disso é A Hora do Pesadelo, de Wes Craven, que apresentou ao mundo a figura deformada de Freddy Krueger, com uns bons sustos no meio.

Olha a plenitude na face da desavisada.

Além dele, filmes como Carrie, a Estranha e Sexta-Feira 13 foram grandes percussores desse tipo de recurso – ainda mais considerando que ambos possuem dois dos jump scares mais famosos do cinema (o primeiro, quando a mão de Carrie sai do túmulo, e o segundo, quando o corpo decrépito de Jason Voorhees pula do lago, logo ao fim do filme).

A partir daí, os jump scares passaram a ser usados com maior frequência. Contudo, com a virada do século – e a chegada de filmes como O Grito, O Chamado, A Chave Mestra, Premonição e Olhos Famintos (isso, é claro, sem contar com as diversas continuações de clássicos oitentistas) – esse recurso chegou a um limite instável.

Logo, os críticos de cinema se tornaram grande odiadores dos jump scares. Isso porque todo filme de horror usava esse recurso da forma mais barata possível, criando sustos que se tornavam previsíveis e passaram a conceber o maior clichê do gênero nessa década.

O típico “jump scare dos 2000” funciona de uma maneira bem similar à que foi descrita no começo deste texto. Geralmente, ele se passa em um ambiente escuro, há um grande crescendo da música e ao fim, algo salta na tela, assustando tanto os personagens quanto o público.

O problema principal se dá quando esse recurso passa a ser previsto pelo público. Dessa forma, não há como criar uma tensão completa, já que o espectador já sabe o que vai acontecer. E isso também acaba sacrificando a atmosfera.

Que rostinho angelical!

Há quem pense que o jump scare é um inimigo total de filmes de horror mais atmosféricos. Esse não é o caso. Quando usado com parcimônia, esse tipo de susto pode cooperar para criar um ambiente ainda mais assustador e inseguro. Podemos pensar, por exemplo, na versão “sem censura” de O Exorcista. Na cena em que Regan passa por alguns experimentos, vemos um breve flash de Pazuzu, o demônio que habita o corpo da menina.

Em vez de quebrar a atmosfera do filme, a cena foi muito bem-recebida (juntamente com a sequência da escada, que até hoje é considerada um dos pontos altos dessa versão do filme), ajudando a compor um sentimento criado através de outros fatores – como a encenação, trilha sonora, interpretação, direção de arte e fotografia.

Ou seja, o jump scare pode ser um excelente aliado do filme de horror, quando ele pega o público de surpresa e subverte suas expectativas. No caso de O Exorcista, nunca esperaríamos ver o rosto do demônio, e a forma como é inserido ali na história, faz com que o filme só fique mais assustador e atmosférico.

No entanto, quando o horror não se preocupa com isso, o jump scare se torna um “substituto” da atmosfera, ao ponto em que o filme vai tentar te assustar – mesmo em cenas onde não há a abertura para isso.

Um exemplo aqui fica com as diversas continuações de Atividade Paranormal. Todas elas contam com um momento bem inquietante em que alguém investiga um local (geralmente um armário ou quarto), e acaba levando um susto brutal de algum amigo. Conhecido como o fake jump scare, esse recurso é quase sempre bem dispensável, porque só serve para assustar o público por assustar, sem uma construção de atmosfera ou até mesmo de narrativa.

No caso do filme citado, isso se torna ainda pior ao considerarmos o fato dele ter sido feito como found footage, o que significa que o espectador (propositalmente) vai levar o susto em primeiro plano, já que ele é o primeiro a encarar tudo o que os personagens filmam através de suas câmeras.

E é justamente outro ponto que veio para corroborar com o “ódio” aos jump scares recentemente: a falta de foco nos personagens. Não há mais uma preocupação em transmitir o sentimento que os personagens têm ao ver algo horrendo e assustador. Em vez disso, o único foco é fazer o público pular. E isso, em determinados níveis, acaba “tirando” o espectador do filme, já que ele sabe – ainda que inconscientemente – que toda essa intensidade é conduzida apenas para ele.

No entanto, nos últimos anos, algumas mudanças na forma como se produz filmes de horror acabaram ajudando a reformular a fórmula dos jump scares. Basicamente, se o cinema de horror, durante os anos 2000, passaram a se tornar uma espécie de “escória hollywoodiana”, que nem fazia um grande público e nem atraía a crítica, agora parece que o jogo virou.

De um lado, temos aquele que é (equivocadamente) conhecido como o pós-terror, do qual fazem parte filmes como Hereditário, A Bruxa, Corra! e Ao Cair da Noite. Eles conseguem se diferenciar, sobretudo, por uma forte construção de atmosfera e o uso mínimo do jump scare. Esses filmes apostam em um horror mais cerebral e complexo, que nem sempre é digerido com facilidade por todos os públicos.

No entanto, a outra alternativa recaiu sobre o horror mainstream. Agora, algumas franquias se tornaram extremamente famosas e bem-sucedidas nas bilheterias, como Invocação do Mal, Um Lugar Silencioso, IT: A Coisa e até mesmo Sobrenatural. Esses filmes não tentam “fugir” do jump scare, mas ousam subvertê-lo de uma forma mais inteligente.

Até hoje estou tomando remédios pelo infarto que essa cena me causou.

Nesse sentido, James Wan é um mestre incomparável. Dois de seus filmes devem ser analisados para que possamos entender como essa subversão acontece. O primeiro deles é o susto dado pelo demônio de rosto vermelho no primeiro filme da franquia Sobrenatural. Tudo começa quando uma mulher fala sobre a experiência que tem com uma entidade demoníaca.

Temos então os planos e contra-planos que mostram essa mulher falando e um investigador sobrenatural (interpretado por Patrick Wilson) ouvindo. Do nada, em uma das cenas, a mulher olha para o investigador e se assusta. Quando há o contra-plano, nós percebemos: o demônio está atrás dele.

Cadê o cramunhão? Achou!

Outra cena acontece no primeiro capítulo de Invocação do Mal. Além da icônica cena das palmas, o filme conta com outro susto que foi bem utilizado na divulgação: em determinado momento, Lorraine Warren (vivida por Vera Farmiga) está tirando as roupas de um varal, quando um vento forte bate e acaba levando um grande lençol. O tecido para no ar por alguns segundos, como se tivesse “capturado” um fantasma. Lorraine se assusta com isso, e o pano volta a voar.

Ambas as cenas trabalham com algo que deve ser utilizado a risca para compor um susto desse naipe: a surpresa. Nunca esperaríamos ver algo justamente nessas cenas – e é isso o que faz com que elas tenham um impacto tão grande. Ao desestabilizar a expectativa do público, o cineasta nos faz acreditar que nenhum lugar é seguro e que a qualquer momento, podemos levar outro susto. Está instalada a tensão.

No entanto, não é todo filme que consegue subverter esses modelos. As continuações de Sobrenatural e os derivados de Invocação do Mal, como o primeiro Annabelle e A Freira, voltaram a usar recursos previsíveis para dar susto em quem assiste – e portanto, não é surpresa que esses filmes tenham uma baixa aceitação da crítica.

Há também um “problema” quando os sustos vêm em grande quantidade: há uma ausência geral no medo. Por exemplo, IT: A Coisa é um ótimo filme, que sabe compor uma boa atmosfera e apresenta um vilão interessante na figura de Pennywise. Contudo, como o palhaço é utilizado tantas vezes em sustos ao longo do filme, quando chega na batalha final, o público – assim como os heróis do Clube dos Perdedores – já não têm mais medo do vilão.

De forma geral, o jump scare não deve ser considerado um “susto barato”. Muitos deles são realmente bem-colocados, e ajudam a impactar o público. Contudo, é nítido que nenhum cineasta de horror deve usá-los para substituir elementos mais graduais, como tensão e atmosfera. Em vez disso, esses sustos devem ser adendos, que cooperam com a história e despertam o medo do público, e não o seu tédio.

Da próxima vez que for assistir a um filme de terror, pense nisso. Veja mais detalhes na forma como cada susto é construído, e com que frequência o diretor tenta te fazer pular da cadeira. Você vai perceber que alguns são mais eficazes que outros, e logo estará entendendo por que o jump scare é um recurso valioso no cinema… mas também, uma faca de dois gumes.

Achou que não ia ter um sustinho básico aqui, é? Achou errado!

 

Já que mencionamos ao longo do texto, fique aqui com os 10 momentos mais assustadores da franquia Invocação do Mal nos cinemas:

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux