Por que super-heróis negros costumam estar relacionados a cor violeta?

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Por que super-heróis negros costumam estar relacionados a cor violeta?

Por Junno Sena

“Acho que você irrita Deus se passar pela cor roxa em um campo e não prestar atenção nela”, Alice Walker em A Cor Púrpura. Eu entendo que a colocação da personagem é sobre encontrar lavanda em um campo aberto, mas não consigo deixar de atribuí-la à existência negra. Aos olhares constantes. A atenção indesejada. Ao desejo de passar despercebido, mas bom, você é sempre percebido. Seja pelo cabelo, pelos lábios grossos, pela cor da pele. É impossível deixar a cor púrpura passar despercebida e parece ser impossível deixar um corpo negro passar despercebido.

E talvez esse seja o primeiro motivo do porquê essa cor se manteve tão atrelada a heróis negros. Seja nas capas dos quadrinhos, nos detalhes dos uniformes, até na forma como seus poderes se manifestam. Constantemente, a vemos andando de mãos dadas com Pantera Negra, Ciborgue, Moon Girl e, até mesmo, Miles Morales. Ela parece reluzir na pele negra e também na história.

Miles Morales em Homem-Aranha no Aranhaverso

Como o púrpura se destaca na história

Para a autora Alice Walker, púrpura era sobre esse meio termo do corpo feminino e negro. Era essa sociedade pós-escravocrata estadunidense e a possibilidade de um futuro de direito igual para as mulheres. Era juntar as lutas contra racismo e sexismo.

Para Prince, era amor pintado no céu. Para os fenícios, era o que distinguia os cidadãos de altas classes, sendo amplamente valorizada por não desbotar no sol, mas se tornar ainda mais intensa sob essa luz. E para críticos e historiadores, é motivo de chamar um período da história da arte de “violettomania”. “Eu finalmente descobri a verdadeira cor da atmosfera”, diria Monet. “É violeta. O ar fresco é violeta”.

E hoje? O que significa? Não é difícil se recordar do traje do Pantera Negra reluzindo a cor no campo de batalha. Talvez, o mais interessante seja pensar nesse vibranium brilhando assim apenas para o T’Challa. Um dos principais heróis negros da Marvel. Púrpura que não foi atribuída apenas ao movimento sufragista no fim do século XIX, mas a tecnologia e até mesmo espiritualidade.

Chadwick Boseman no pôster de Vingadores: Guerra Infinita

Capa do quadrinho de Moon Girl and the Devil Dinosaur

O mundo espiritual do Pantera Negra carrega todos esses complexos significados. Da natureza até a magia e o tecnológico. Conversar com um ancestral, aqui, vai além do ser dopado por uma planta exótica, mas é o movimento científico de aprender com o passado e não repetir os erros no futuro.

Mas, dentre tantos significados, tentando procurar uma ligação clara para o que poderia juntar a pele negra ao roxo, talvez o mais sincero tenha sido a interpretação de Alice Walker em A Cor Púrpura. Não é apenas sobre tristeza ou a melancolia de Celie, mas sobre a sensação de prosperidade em meio a tudo que te limita. E o que é Miles, Lunella, T’Challa, Ororo além disso? Prosperar mesmo quando tudo parece limitante.

Mais que uma escolha estética

É claro que não é possível desvincular a cor também as possibilidades estéticas. No círculo cromático é fácil conseguir combinar tons de violeta com a pele negra. Mais do que isso, é fácil conseguir fazer uma substituição da mesma com seus tons. Artistas como Abelle Hayford, Robyn Smith e Dika Araújo fazem isso constantemente. Se precisa de um exemplo mais prático, temos a Garnet. Podendo ser lida como negra, mas com a cor da pele bem longe da realidade.

Não só isso, mas quando o pokémon Jynx e até mesmo o Mr. Popo, de Dragon Ball, foram apontados, por Carole Boston Weatherford, como um estereótipo racista para os afro-americanos, a forma de manter o design, mas fugir das críticas foi recolorir os personagens.

Primeiro a Jynx, que ganhou uma coloração roxa em 2002 nos games e então em 2005, nos animes. E então Popo, que foi recolorido pelo canal de televisão 4kids, em 2003, além de ter seus lábios diminuídos no mangá republicado nos EUA. Ainda investigando esse lado problemático da utilização da cor, temos a atribuição constante do roxo ao voodoo

Durante muito tempo, fosse na antropologia, fosse no cotidiano, o corpo negro foi entendido como algo alienígena, como “o outro”. Sua língua, estética e cultura foram demonizados pela Igreja. O púrpura, por outro lado, mesmo sendo um sinal de fortuna para algumas culturas, também se tratou de uma coloração distinta e mística. Fosse por não ser encontrada em nenhum animal, mas também pelas propriedades dela. Sua pigmentação tão intensa que quase não desbotava, por exemplo. Todas as características fizeram com que ela fosse atribuída a algo extraterreno. Um exemplo prático é como ao ilustrarmos a noite, constantemente trabalhamos tonalidades do roxo.

E é esse mesmo medo do desconhecido que encontramos no voodoo. A construção imagética, que foi amplamente critica por seu teor racista, do Dr. Facilier, de A Princesa e o Sapo, parte desse pressuposto. Outro personagem que exala magia e negritude é o personagem Innanna de The Wicked + The Divine. Mas, deixando de lado todos os pormenores problemáticos que podemos encontrar na história da cor púrpura nos quadrinhos e na cultura pop, talvez o conceito que mais vejo atrelado a mesma e ao corpo negro é: transformação.

Cena do quadrinho Nubia: Real One, ilustrador por Robyn Smith

Imagem do herói Ciborgue, da DC Comics

É sobre transformação

Assim como foi para o T’Challa, consumir a planta e passar por esse “ritual de passagem”; a cor púrpura para Walker é a transformação que Celie experimenta através da vida; também é com seus tons vibrantes que Miles experimenta sua transformação em Spider-verse. Ao invés de nos perguntarmos o porquê dessa cor ser constantemente atribuída a pele negra, talvez a pergunta seja: Porquê não?

Quantas cores conseguem transmitir tantos sentimentos, como os vistos nesse texto. De melancolia à prosperidade, de espiritualidade à tecnologia. E quantas existências conseguem passar por tantas experiências como a negra? Do alívio do fim da escravidão até a percepção de uma vida sob a segregação, da felicidade em ser o primeiro da sua família a entrar em uma faculdade e então perceber que é só o primeiro passo para ainda mais luta?

Comecei a pesquisa desse texto encontrando mais portas fechadas que abertas para essa pergunta. E com tudo que levantei, com toda a análise que eu podia construir, seria fácil falar sobre como essa cor é rara, mas diversa na natureza. Como sua interpretação mística se conecta ao corpo negro por que ele também já possuiu uma interpretação mística, selvagem, distinta. Mas, o que encontrei, foi orgulho.

Desde o movimento sufragista até o Prince. A cor púrpura foi ligada a luta e orgulho. E depois de anos de medo de evidenciar o racismo, de personagens apagados nos quadrinhos, como foi o caso de Isaiah Bradley de forma ficcional, mas também na nossa história; Chegou o momento de sentir orgulho de ser a cor púrpura no campo.

Momentos Legião

Estamos nos reunindo para mais um Momentos Legião, dessa vez dedicado a explorar a luta negra na cultura pop em homenagem ao Dia da Consciência Negra, que aconteceu no dia 20 de novembro, o último sábado.

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sobre o autor Junno Sena

Pós graduando em Antropologia com o raio problematizador ligado no 120. Assiste filme trash para relaxar e dorme cantarolando a trilha sonora de A Hora do Pesadelo. Blaxploitation na veia e cinema coreano no coração. Atualmente mora em Petrópolis, RJ.