Whitewashing: Como a prática de embranquecer personagens afeta as adaptações de quadrinhos

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Whitewashing: Como a prática de embranquecer personagens afeta as adaptações de quadrinhos

Por Gus Fiaux

Estamos em 2021, mas um debate que é levantado há décadas diz respeito ao embranquecimento de pessoas e figuras históricas negras no cinema – estratégia que ficou conhecida pelo termo whitewashing. No que diz respeito aos quadrinhos, essa prática já foi muito comum (e até hoje acontece), levantando críticas e debates de fãs que clamam pela diversidade na cultura pop.

Por ser um debate muito rico e cheio de nuances – inclusive envolvendo a prática “oposta”, que envolve transformar personagens originalmente brancos em pessoas negras ou de outras etnias no cinema -, é necessário analisar todo o impacto histórico e cultural desse movimento e entender como ele é prejudicial, até hoje, para a representação de diversos grupos minoritários.

Como parte do Momentos Legião dedicado a explorar um pouco mais da cultura negra e a pluralidade de filmes, séries, games e quadrinhos que abracem esse tema, vamos conversar um pouco sobre whitewashing!

Mancha Solar é um homem negro nos quadrinhos, mas em Os Novos Mutantes foi vivido por Henry Zaga, um ator branco.

O que é whitewashing?

Quando falamos do cinema, o whitewashing é uma prática que começou desde os primórdios – mas é importante definir exatamente o que é isso. Um neologismo da língua inglesa, whitewashing vem das palavras white (branco) e wash (lavar), e se refere ao embranquecimento de personagens negros, asiáticos, nativos americanos e de outras etnias tidas como minoritárias.

Dessa forma, personagens (e até mesmo figuras históricas) não-caucasianos passam a ser interpretados por pessoas brancas no cinema, apagando a representação e a vivência de povos não-brancos. No começo do cinema, essa prática ainda era aliada do blackface (no caso específico de pessoas negras), uma outra prática racista muito criticada que envolve o uso de maquiagem e próteses para “transformar” uma pessoa branca em negra.

Um exemplo bem nítido disso veio no filme O Nascimento de uma Nação, de 1915. O longa é motivo de debate há anos, por representar pessoas negras como selvagens desumanos que colocam em risco a vida de pessoas brancas – e não apenas isso, mas traz também membros da Ku Klux Klan, notória célula supremacista dos Estados Unidos, como os grandes “heróis” da história. No filme, os personagens negros são vividos por pessoas brancas de blackface.

Em Nascimento de uma Nação (1915), D.W. Griffith retrata membros da Ku Klux Klan como heróis – ao mesmo tempo em que pessoas negras são interpretadas por atores brancos de blackface.

Com o passar dos anos e a popularidade dos quadrinhos, o whitewashing também se infiltrou nos filmes de super-heróis. Personagens que são originalmente retratados como negros ou pessoas racializadas são interpretados por atores e atrizes caucasianos, enquanto há um apagamento cultural e um esvaziamento de representação para essas minorias étnicas.

Um exemplo disso acontece no filme O Procurado (2008), baseado nos quadrinhos homônimos de Mark Millar. Nos quadrinhos, temos uma personagem chamada Fox, que é uma mulher negra. O artista da HQ, J.G. Jones, se inspirou em Halle Berry para compor o visual da personagem, mas na adaptação cinematográfica dirigida por Timur Bekmambetov, ela foi vivida por Angelina Jolie, uma mulher branca.

Mas esse não é um assunto “do passado”. No ano passado, tivemos o lançamento de Os Novos Mutantes, o filme final dos X-Men pela Fox antes da compra da Disney. No longa, não apenas um, mas dois personagens negros foram interpretados por pessoas brancas: Cecilia Reyes e o Mancha Solar. Embora os dois atores escalados para esses papéis, Alice Braga e Henry Zaga, sejam considerados latinos por serem brasileiros, eles ainda são “lidos socialmente” como caucasianos.

O whitewashing afeta outras minorias étnicas. Esse é o caso da Feiticeira Escarlate, que perdeu seus traços roma ao ser interpretada por Elizabeth Olsen.

Por que whitewashing é problemático?

whitewashing está diretamente ligado à visão predominante de cinema – que sempre foi, ao menos em Hollywood, branca, heterossexual e cisgênera. Pessoas que “desafiam” essa convenção sempre foram empurradas para a margem na cultura pop, relegadas ao papel de minoria. whitewashing reforça essa estrutura, por tirar ainda mais a oportunidade de atores e atrizes que não são brancos.

Além disso, em muitos casos, o whitewashing ajuda a perpetrar caricaturas e traços racistas, enquanto apaga total ou parcialmente a importância cultural desses personagens ou figuras históricas. Um exemplo disso é Cleópatra, de 1963, que traz Elizabeth Taylor no papel da jovem Rainha do Egito. Historicamente, ela não era caucasiana – até por conta do local geográfico onde estava inserida -, mas aqui ela é vista como uma figura branca com “traços étnicos”.

Isso é ofensivo por diversos motivos, dentre os quais: a) retirar oportunidade de atrizes não-brancas que poderiam ter feito esse papel; b) reforçar a estrutura branca no cinema e no audiovisual; e c) criar uma espécie de revisionismo histórico onde o Egito, um dos impérios mais importantes da história da humanidade, foi dominado por brancos – quando esse não era o caso.

Cleópatra vivida por Elizabeth Taylor (esq.). Recriação do que seria o rosto real da Rainha do Egito, feita pela egiptóloga Sally-Ann Ashton (dir.).

O cinema é linguagem e é uma forma de retratar a realidade quando a conhecemos. A partir do momento em que um personagem é embranquecido em uma mídia que já é muito branca, a mensagem passada é nítida: pessoas negras, latinas, asiáticas, indígenas e qualquer outra etnia “desviante” não merece espaço. Por isso, o whitewashing ainda é combatido por ativistas até hoje.

E esse problema não se restringe apenas a pessoas negras, embora a maior parte do debate esteja concentrado aqui. Nos filmes da Marvel, tanto a Feiticeira Escarlate quanto o Mercúrio são vividos por atores brancos, embora nas HQs ambos possuam origens roma, o povo cigano (vale lembrar que o termo “cigano” é considerado pejorativo) do Leste Europeu.

Anciã de Doutor Estranho é tida como outro exemplo de whitewashing, já que o personagem original das HQs é tibetano – assim como Motoko Kusanagi, personagem vivida por Scarlett Johansson na adaptação live-action de Ghost in the Shell. Todos esses exemplos explicitam o apagamento de etnias racializadas e a marginalização de pessoas não-brancas na representação audiovisual.

Tanto a Canário Negro quanto o Tocha Humana são personagens brancos nas HQs, mas foram interpretados por atores negros em Aves de Rapina e Quarteto Fantástico (2015).

Por que alguns personagens estão sendo sendo interpretados por atores negros no cinema?

Por outro lado, de alguns anos para cá, algumas produções têm adotado um caminho inverso. Em vez de convocar atores e atrizes brancos para papéis não-brancos, esses filmes e séries escalam pessoas racializadas para viver alguns personagens que sempre foram tidos como brancos. Um exemplo é o Tocha Humana de Michael B. Jordan em Quarteto Fantástico (2015), o Pistoleiro de Will Smith em Esquadrão Suicida (2016) e a Canário Negro de Jurnee Smollett em Aves de Rapina (2020).

Em parte, essa decisão é tomada para incentivar a propagação da diversidade de representações no cinema norte-americano, trazendo em foco atores diversos para papéis que normalmente seriam representados apenas por atores brancos. Com isso, espera-se ter um “equilíbrio” na forma como caucasianos e não-caucasianos são representados no cinema, de forma mais abrangente e inclusiva.

Em outros casos, alguns diretores e produtores afirmam que os atores encontrados apenas eram os “melhores para o papel”, ou então que o papel em si não exigia nenhuma relação intrínseca étnica para funcionar – e isso sempre gera muitos debates e reclamações na internet, vindas de um público que compara a mudança de etnias com a prática do whitewashing.

Mesmo em 2012, os Vingadores são apresentados nos cinemas como uma equipe branca. Só em Capitão América: Guerra Civil (2016) temos o Falcão e o Máquina de Combate inseridos como membros oficiais da equipe.

Historicamente, pessoas não-brancas possuem pouquíssimas representações no cinema em comparação a milhões de representações brancas. A mudança desses papéis serve para diversificar mais o cinema e trazer novos pontos de vista, enquanto se estabelece uma relação de responsabilidade para com o público que consome esses filmes, séries e derivados – e é importante dizer: não são apenas pessoas brancas que consomem cultura pop

E é sempre importante bater na tecla de que a maior parte da cultura pop que experimentamos hoje foi criada há muitos e muitos anos. Pouca coisa nova se cria nos cinemas, na TV ou até mesmo nos quadrinhos, já que os clássicos sempre serão lembrados como a parte mais essencial dessas narrativas. E essas criações vieram de uma época em que não se discutia representatividade e a diversidade ainda era um tabu.

Basta pensar nos Vingadores, que foram criados em 1963 e só contavam com pessoas brancas na equipe. O primeiro herói negro a se juntar à equipe foi o Pantera Negra – mas isso só aconteceu em 1968, depois que vários heróis brancos já tinham passado pelo grupo. De lá para cá, dá para contar nos dedos quantos heróis negros se associaram ao grupo: FalcãoLuke Cage e até mesmo a Tempestade. São pouquíssimos os exemplos, e por isso se faz necessária a adição de mais personagens negros nos cinemas, para corrigir essa dívida histórica e atualizar as franquias para novas sensibilidades.

Não, o “Pantera Negra interpretado por um branco” não é a mesma coisa que whitewashing!

Por que não é a mesma coisa?

Você já deve ter visto em alguma sessão de comentários os infames dizeres: “Se colocassem um ator branco para o Pantera Negra, seria a mesma coisa”. Isso sempre surge quando se discute a “mudança de etnia” de personagens brancos para não-brancos no cinema. Contudo, não é a mesma coisa e esse argumento aponta uma falsa simetria no que diz respeito à representação branca e a representação não-branca.

Como dito, historicamente, pessoas brancas nunca tiveram um déficit de representação e de identificação no cinema – muito por conta da cadeia produtiva da sétima arte, que sempre beneficiou e reforçou essa estrutura. Os avanços em termos de representação sempre engatinharam, então quando paramos para analisar a quantidade de pessoas brancas X a quantidade de pessoas negras, asiáticas, indígenas, etc no cinema, a discrepância é assustadora.

Quando um personagem tem sua etnia “alterada” nas adaptações, não há um desequilíbrio do status quo contra a etnia caucasiana. Você ainda tem um cinema majoritariamente branco e com pouca representação diversa, mesmo que dez personagens originalmente brancos sejam interpretados por atores negros. No caso do whitewashing, as representações não-brancas são afetadas diretamente, pois há pouca diversidade e ainda se retira mais em prol de representações brancas, resultando em um abismo ainda maior para etnias minoritárias.

Pantera Negra e Tempestade sempre foram vistos como figuras indissociáveis da luta e do movimento negro. Embranquecê-los seria esvaziar esse significado.

E quando falamos de quadrinhos e adaptações de super-heróis para os cinemas, precisamos nos lembrar que essa representação é ainda mais “precária”. Diversos personagens negros foram criados justamente para suprir essa necessidade e, por conta disso, eles são diretamente associados à cultura, ao movimento e à luta negra – como é o caso do Pantera Negra, do Super-Choque, da Tempestade e até mesmo de Miles Morales.

A mudança de etnia em personagens brancos não causa efeitos significativos porque, na maioria esmagadora dos casos, a etnia e a raça nunca foram uma questão central para esses personagens. Eles são brancos apenas porque a branquitude sempre foi representada em detrimento a outras etnias, então uma ressignificação desses personagens não esvazia seus propósitos culturais – em alguns casos, até enriquece essas figuras.

E embora sempre haja o debate a respeito de “por que não criar personagens novos então?“, esse problema entra em outra questão ainda mais abrangente envolvendo outras minorias – como pessoas LGBTQIA+, pessoas com deficiência e mulheres. E para esse caso, acredito que já respondemos essa pergunta específica em outro artigo. No fim do dia, é importante analisar que o caso do whitwashing e das mudanças de etnia é complexo e não é, de forma alguma, equivalente.

Momentos Legião

Estamos nos reunindo para mais um Momentos Legião, dessa vez dedicado a explorar a luta negra na cultura pop em homenagem ao Dia da Consciência Negra, que aconteceu no dia 20 de novembro, o último sábado.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux