Por que o original é tão diferente do dublado? As questões por trás da tradução para dublagem

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Por que o original é tão diferente do dublado? As questões por trás da tradução para dublagem

Por Melissa de Viveiros

A dublagem é uma ferramenta de grande importância no dia a dia de muitas pessoas. Durante a infância, ela permite que tenhamos contato com conteúdo que não nos atingiria sem ela, como os diversos desenhos em programas como a TV Globinho ou o Bom Dia e Cia. Mesmo depois, ela continua sendo um elemento muito importante para quem não conhece outras línguas, tem dificuldade de leitura, entre muitas outras situações.

Seja por necessidade ou por preferência, a dublagem é parte da tradução audiovisual, e tem um papel enorme em transpor barreiras. Ainda assim, é comum que o público tenha muitas questões sobre o assunto, principalmente por causa das diferenças entre o material original e o dublado. Por que as falas não são iguais? Por que piadas são descartadas? Ou mesmo os títulos – por que eles mudam, ou tem subtítulos acrescentados?

As respostas para todas essas questões estão na parte tradutória do projeto. Nesse artigo, vamos explicar um pouco mais sobre como ele funciona, e responder algumas das dúvidas mais comuns sobre a dublagem!

Como é o processo para um programa ser dublado?

A dublagem começa bem antes da gravação das falas. (Créditos: Roberto Garcia)

Existe um longo processo até um filme ou série chegar ao formato final dublado. O trabalho requer muitos profissionais diferentes, indo bem além do dublador, que está envolvido nas partes finais do processo.

Para começar, o material original passa por um estúdio, de onde será direcionado aos tradutores. Em alguns casos, uma pessoa é a responsável por fazer a tradução de toda uma série, enquanto outros requerem o envolvimento de diversos tradutores. Com os filmes, é mais comum que toda a produção seja traduzida apenas por um profissional, embora isso também possa variar.

Depois disso, o texto é revisado, passando por outras etapas nos quais será marcado e dividido, antes de chegar à direção de dublagem e aos dubladores. Em geral, os atores que dão voz aos personagens só tem contato com as cenas que dublam no momento em que gravam suas falas, que são exibidas antes para que eles entendam melhor a situação e entonação que precisam ser utilizadas.

Por parte dos tradutores, o profissional da área recebe o vídeo no idioma fonte e o script a ser traduzido. Os programas de computador utilizados também costumam ser bem simples, com o uso de ferramentas como o Word ou Excel sendo bastante comuns. Certos estúdios também disponibilizam materiais extra, como glossários e episódios anteriores, visando manter a tradução coesa e evitando que termos sejam mudados de um episódio para outro, por exemplo.

Por que as falas são diferentes no original, no legendado e no dublado?

Mesmo dublagens aclamadas, como a de Todo Mundo Odeia o Chris, contam com diferenças quando comparadas ao original.

De modo simplificado, essas diferenças de tradução são resultado das limitações de cada meio. Por mais que um tradutor queira deixar tudo igual, é preciso alterar certas coisas por causa do próprio processo de dublagem, bem como pela tradução. Nem sempre uma expressão idiomática em inglês terá uma equivalente direta em português, por exemplo. Principalmente quando se trata de humor e trocadilhos, é difícil manter a tradução próxima ao original, mas os meios em que a tradução ocorre também influenciam o resultado final.

Na legendagem, o tradutor conta com limitações de caracteres, linhas e tempo. Isso tudo porque não basta colocar o texto o mais próximo possível do que é falado: é preciso que os espectadores tenham tempo de ler o que está em tela.

Já na dublagem, a limitação é ainda maior, pois é preciso utilizar o tempo de fala para evitar a falta de sincronia. Isso é importante porque, diferente da legenda, a dublagem “apaga” a língua original, a substituindo pelo idioma alvo do público, para dar aos espectadores a sensação de estarem ouvindo personagens que de fato falam aquele idioma. Com isso, vem o esforço de esconder ao máximo possível que essa substituição aconteceu, o que leva a dublagem a tentar se aproximar ao máximo do tempo de fala dos atores e até dos movimentos labiais quando possível.

Por causa disso, a métrica é bastante importante na tradução para a dublagem. O tempo todo, há uma preocupação em fazer com que as palavras se encaixem no movimento visto em cena nas séries e filmes que serão dublados. A pesquisadora Eliana Carvalho coloca de modo sucinto:

“[…] Na dublagem o mais importante é a história a ser transmitida e cabe ao dublador cuidado com o movimento dos lábios, para que seu texto não fique maior do que o que foi de fato pronunciado.”

Na prática, isso significa que mais do que traduzir exatamente o que é dito, é preciso passar a mensagem com um número de sílabas restrito. Palavras com o mesmo significado podem ter tamanhos muito diferentes em línguas diferentes. Por causa disso, muitas vezes o tradutor precisa cortar certos elementos ou mudar o modo como as coisas são faladas.

A dublagem das novelas mexicanas muitas vezes é motivo de piada justamente por não seguir esses parâmetros.

Existe também a questão da substituição de expressões, piadas ou falas que fazem sentido em seu idioma original mas perdem o sentido quando traduzidas de modo literal, ou que são consideradas intraduzíveis. Quando isso acontece, o tradutor precisa encontrar outras falas, piadas ou expressões que se encaixem no contexto da obra e nas limitações de tempo, mesmo que o resultado seja algo bem diferente do original.

Júlia Sancho explica em sua pesquisa sobre o tema:

“Se o importante é que a mensagem seja passada, existe a liberdade para adaptar o texto de forma que seja totalmente legível na língua de tradução, mesmo que seja perdida parte da forma do texto, desde que a alma do texto se mantenha intacta, e o leitor compreenda a mensagem central da obra. O objetivo principal se torna a comunicação, tendo como horizonte o público, o que leva a concessões e mudanças em favor de uma melhor compreensão.”

Exemplos disso estão por toda parte, sendo facilmente encontrados em séries de humor. Todo Mundo Odeia o Chris é uma produção muito conhecida no Brasil, que a maioria de nós assistiu em formato dublado. A mudança de certas piadas e trocadilhos não impede que a série seja divertida, como fica claro ao se comparar algumas frases originais  com sua versão dublada.

Uma pesquisa de Raíra MartinsLauro Amorim analisou a tradução da série. Uma das falas citadas pelo trabalho deles se refere à uma conversa entre Chris e Jerome, quando o protagonista conta que convidou Yvette para sair. O patrão do garoto então o aconselha, dizendo “When you ask a girl out, you have to get a gift together”. A fala apresenta um trocadilho com a expressão “get it together”, que tem sentido de tomar decisões, ser assertivo, e a palavra “gift”, que significa presente. Assim, ao mesmo tempo que a frase sugere que o personagem precisa tomar uma atitude, também indica que ele deveria levar um presente para a garota.

Isso não está presente na dublagem, que optou por deixar o trocadilho de lado. Em português, a fala de Jerome é “Quando a gente vai sair com uma gata, tem que ‘tá’ ligado”. Logo fica claro o teor mais informal da versão adaptada, que inclui gírias como “gata”, reduções como “tá” ao invés de “estar”, e a própria ausência do trocadilho original. 

Isso tudo é fruto dessas escolhas tradutórias que o profissional precisa fazer para que o texto se encaixe em métrica e tempo, além é claro do próprio contexto e da aproximação para a realidade brasileira. Algumas produções têm tolerância menor com mudanças, mesmo de piadas, principalmente por tratarem de temas bastante específicos. Um exemplo disso seria a série Blackish, que fala sobre o movimento negro nos Estados Unidos. Assim, adaptá-la para o Brasil, por exemplo, traria uma perda em relação ao original e o que a obra tem a dizer. 

Outras produções não sofrem com isso, no entanto, sendo mais liberais com as substituições e referências. Existem muitos exemplos disso, que vão desde os memes utilizados na tradução de (Des)encanto, ou da troca de nomes de artistas, como Percy Jackson e o Ladrão de Raios faz. No idioma original, um personagem compara Hades a Mick Jagger, enquanto na versão brasileira a fala o compara a Zé Ramalho

Em geral, o quanto é adaptado ou não depende do estúdio, da obra e, é claro, do próprio tradutor. As piadas e o humor não são o único alvo dessas escolhas, que podem levar todo tipo de expressão a ser mudado para se adequar à dublagem. Isso acontece, por exemplo, com Naruto. O personagem possui uma expressão característica em japonês, o “dattebayo”, que não é uma expressão de fato utilizada pelos falantes nativos da língua. Para lidar com isso, as adaptações de cada país precisaram encontrar outras expressões que passassem a mesma ideia de reforçar o que foi dito – como acontece no Brasil, onde a frase se tornou o famoso “Tô certo!” dito pelo personagem na versão que chegou à TV aberta.

Em outros idiomas, “dattebayo” recebeu outras traduções. Enquanto no Brasil a expressão escolhida foi “Tô certo!”, em inglês a frase é “Believe it!”, que poderia ser traduzida como “Acredite!”.

Por que os títulos de filmes são tão diferentes dos originais?

Apesar de não ser uma questão necessariamente ligada à dublagem, a tradução dos títulos de filmes e séries também está ligada à adaptação para o público alvo do país. Isso nem sempre fica por conta do profissional que faz a tradução para a dublagem, que pode sugerir outros títulos e ideias, mas não tem autonomia para decidir. Tudo depende do estúdio e dos departamentos de marketing das séries e filmes, que avaliam o que irá chamar mais a atenção dos espectadores.

Assim, a prioridade é criar algo atrativo, que combine com a produção e com seu material de divulgação, independente de ser fiel ao nome original ou não. Em certos casos, os responsáveis pelo título sequer conseguem ver a série ou filme antes, dependendo do próprio material de divulgação e apoio para encontrar um título adequado. É preciso que o título venda o filme, além de fazer sentido para o público daqui.

Essas são as mesmas razões pela qual muitos filmes vêm com subtítulos, principalmente quando seus nomes não são traduzidos. Frozen, por exemplo, recebeu o subtítulo Uma Aventura Congelante, decisão que busca atingir um público que talvez não se atraia por ou não entenda o que “Frozen”, por si só, quer dizer. Em 2017, o diretor de marketing da Paris Filmes, Gabriel Gurman, explicou a situação falando sobre o musical La La Land, que chegou ao Brasil como La La Land – Cantando Estações. Ele diz:

“‘La La Land’ se refere à Los Angeles. Mas como nem todo o público tem esse conhecimento e essa na verdade é uma expressão americana, incluímos ‘Cantando Estações’. Há diversos conteúdos que são quase impossíveis de se alterar o título original, portanto essa é uma saída interessante.”

La La Land ganhou subtítulo por ser uma expressão estadunidense.

A dublagem ser diferente quer dizer que a tradução é ruim?

Depois de apresentar todos os motivos para essas diferenças é mais fácil entender que a resposta para essa pergunta é não. Para quem tem o privilégio de entender mais de um idioma, pode parecer que essas diferenças levam a uma grande perda. Ainda assim, elas não ocorrem sem motivo, já que a dublagem é um processo complicado que tem muitos fatores envolvidos antes de chegar ao produto final que o consumidor assiste. 

Para avaliar se uma dublagem é boa ou não, além de considerar coisas como a atuação dos dubladores, o importante é perceber se a sincronização acontece do modo que deveria, e se o que é falado se encaixa no contexto, passando o teor do original adequadamente. Mesmo que uma piada seja feita de outro modo, ou uma expressão seja utilizada no lugar de outra que tem significado um pouco diferente, se o sentido que a obra pretendia passar permanece ali, a dublagem cumpriu seu papel de adaptar o texto para outra língua.

Também é por meio das adaptações que muita coisa que vem de outros países acaba ganhando uma cara mais brasileira e se conectando com a cultura do país. É o caso da linguagem de produções como a já citada série Todo Mundo Odeia o Chris, de filmes como A Nova Onda do Imperador, ou mesmo de jogos. Em League of Legends, por exemplo, Ezreal ganhou uma fala que só existe no Brasil, onde diz “Ezreal, eu escolho você!”. Essa referência só faz sentido aqui inclusive pela tradução do país na dublagem, já que foi adicionada pelo campeão de LoL contar com o mesmo dublador de Ash Ketchum, Fábio Lucindo.

Referências como a fala de Ezreal só são possíveis pela tradição de dublagem que o Brasil possui.

Além disso, vale lembrar que é apenas por meio da dublagem que muitas pessoas têm acesso a determinados tipos de conteúdo. Ao mesmo tempo, outros não têm conhecimento o suficiente para se relacionar com referências e significados de outras culturas, e as adaptações permitem que eles apreciem uma obra vinda de fora apesar disso. Seja ao atingir o público que precisa dela, se beneficia de sua facilidade, ou simples preferência, o fato é que essa forma de tradução audiovisual tem um papel muito importante no Brasil, indo muito além de trocar uma língua por outra ao adaptar a própria cultura do país.

Momentos LH: Dublagem

Com o intuito de nos deter sobre essa técnica fundamental para fãs de cultura e para a sociedade como um todo, lançaremos por aqui uma série de matérias, listas e reportagens sobre dublagem, como parte do Momentos LH de julho de 2021.

A partir de hoje, tanto aqui no site, como no TwitterInstagramYouTube e TikTok, abordaremos o papel da dublagem como um instrumento de acessibilidade, investigaremos os desafios de dublar durante a pandemia de COVID e relembraremos de algumas das dublagens mais icônicas da nossa infância e adolescência. Esses são apenas alguns dos conteúdos sobre o assunto que você vai conferir no Momentos LH!

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sobre o autor Melissa de Viveiros

Graduanda em Letras na UFMG. || What is infinite? The universe and the greed of men. || @windrunning_