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Como a dublagem cumpre um papel social importante no Brasil

Por Camila Sousa

Em uma de suas pesquisas mais recentes, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) estimou que aproximadamente 11 milhões de brasileiros não sabem ler nem escrever. É um número expressivo e a instituição ressalta como o analfabetismo não somente faz com que essas pessoas não saibam ler nem escrever, mas também as tiram de contextos sociais importantes, como melhorias de carreira e etc.

Outro ponto que também é afetado é o consumo de cultura, especialmente de obras produzidas em outros idiomas. É aí que entra a dublagem, um dos recursos mais importantes quando falamos de acessibilidade de conteúdos audiovisuais. No Brasil, a dublagem tem um papel social tão importante, que ela se tornou também uma lembrança afetiva para muitas pessoas, que cresceram vendo filmes e séries dublados na TV aberta e hoje até acham estranho ouvir as vozes originais de astros como Adam Sandler e Jackie Chan.

Ponte entre culturas

Para se tornar um dublador no Brasil é preciso ter o DRT de ator, caminho trilhado por Adrian Tatini, que faz a voz de Zenitsu Agatsuma em Demon Slayer, de Usopp em One Piece, entre vários outros trabalhos. Após anos admirando animes e fazendo imitações, ele investiu na carreira de ator e fez o curso de Wendel Bezerra, famoso por ser a voz nacional de Goku, da franquia Dragon Ball. Em entrevista à Legião dos Heróis, Tatini fala sobre como é importante dublar obras muito queridas, como One Piece.

“Desde que comecei a dublar One Piece, que foi algo que me colocou muito em contato com os fãs de dublagem, comecei a receber muitas mensagens de diversos tipos, desde pessoas agradecendo pelo trabalho, até pessoas muito felizes pela obra que eles gostam finalmente estar sendo dublada”.

Usopp, de One Piece

Além da acessibilidade para pessoas não alfabetizadas, outro grupo que ganha bastante com a dublagem é o das crianças, que muitas vezes não conseguem acompanhar as legendas e as imagens ao mesmo tempo, de forma a compreender totalmente a história. Sobre isso, Tatini ressalta como a dublagem recente do anime permitiu uma experiência em família:

“Há pessoas que hoje têm seus 30 anos, e acompanharam One Piece quando eram mais jovens. Essas pessoas têm seus próprios filhos hoje e queriam muito poder acompanhar a obra ao lado deles. A dublagem dá essa oportunidade de assistir com os filhos e recebo muitas mensagens me agradecendo por isso”.

Outro nome que conversou com a Legião dos Heróis sobre o tema é Pedro Alcântara, conhecido por dublagens como Koby em One Piece e Inari e Udon Ise em Naruto. Para ele, o trabalho de dublagem é o que permite que todos possam ter contatos com outras culturas e, a partir disso, tenham uma bagagem cultural maior.

“Eu adoro a visão lúdica de que a dublagem é uma ponte entre duas culturas, porque penso que esse é um dos papéis principais do meu trabalho. Entretanto, não podemos esquecer da questão da acessibilidade. Além das pessoas que consomem produtos audiovisuais dublados porque gostam, temos milhões de pessoas que dependem deles. Existem crianças em fase de alfabetização, adultos não alfabetizados, deficientes visuais e até mesmo idosos com reflexo reduzido que não conseguem acompanhar legendas. Todas essas pessoas merecem poder assistir a um filme ou série em seu idioma”.

Acessibilidade

Como dito por Pedro acima, a acessibilidade trazida pela dublagem inclui também pessoas com deficiência, que precisam do recurso para entender as histórias que estão sendo contadas. Adrian Tatini afirma que já recebeu agradecimentos por isso também, não apenas de pessoas com deficiência visual, mas também com dislexia:

“Entrando na questão da leitura da legenda, já recebi muitas mensagens de pessoas com deficiência visual, que ouviam falar de One Piece, os amigos conversavam sobre, mas eles não podiam acompanhar. E também há as pessoas com dislexia, que têm dificuldade de ler as legendas e precisam de mais calma para a leitura. Sou muito fã de One Piece, porque é uma obra muito do bem, que faz muito bem às pessoas, e sinto que o público está sentindo isso também”.

Francisco Júnior é a voz de Momoa em Aquaman

Quem também já ouviu relatos parecidos é Francisco Júnior que, entre outros trabalhos, fez a voz do Aquaman em Liga da Justiça. Para ele, é muito gratificante poder colaborar com um trabalho tão importante, que torna os conteúdos disponíveis para todos.

“A dublagem é um trabalho essencial que merece ser respeitado. Me sinto muito feliz em poder contribuir. Já tive o prazer de falar com algumas pessoas que, por exemplo, têm dislexia. Essas pessoas não conseguem acompanhar uma legenda e a dublagem para elas é muito importante. Só de ver a alegria dessas pessoas, isso já vale para mim, e olha que esse é apenas um pequeno exemplo”.

Falar sobre acessibilidade ao tratar de dublagem é muito importante também para quebrar certos tabus. Como dito acima, é muito provável que a maioria dos fãs de filmes e séries hoje tenha começado a acompanhar tais conteúdos dublados, porém há uma certa depreciação ao falar da dublagem, com algumas pessoas afirmando que o conteúdo perde qualidade ao ser disponibilizado em outro idioma.

Ainda que adaptações sejam necessárias para encaixar o tempo de abertura de boca e etc., não é certo colocar o trabalho do dublador como algo menor dentro da indústria do entretenimento. Se hoje muitos fãs acompanham legendas tranquilamente em salas de cinema e streaming, é preciso ter um pouco mais de empatia com quem precisa da dublagem – e também lembrar que muitos de nós começaram da mesma forma.

Reconhecimento e carinho

A memória afetiva criada pela dublagem também rende carinho para com os profissionais que emprestam suas vozes para personagens e astros de Hollywood. Militar de carreira, Francisco Júnior começou a trabalhar com dublagem em meados de 2007, e o talento para emprestar sua voz para personagens falou mais alto. Segundo ele, há momentos em que sua voz é reconhecida na rua e isso sempre traz uma sensação boa de dever cumprido:

“Tem lugares em que isso é mais frequente, como na Liberdade, em São Paulo. É muito bom receber esse carinho, porque a gente nem imagina que certos trabalhos podem atingir tantas pessoas. Teve uma vez que uma menina chorou muito, a ponto de ficar soluçando, quando soube que eu era a voz do Luci, do desenho Desencanto. Eu não sabia o que fazer, mas ela se acalmou e tiramos umas fotos. Foi uma situação bem engraçada”.

Além da dublagem, Júnior também tem um canal no YouTube chamado Mitsubukai, ao lado dos também dubladores Glauco Marques e Adrian Tatini. A ideia do projeto é ter os três comentando sobre animes, cultura geek e, é claro, o universo da dublagem dessas obras.

Pedro Alcântara fez a voz de Tyler

Já para Pedro Alcântara, a história da dublagem vem de família, já que seu pai, Ricardo Vasconcelos, também é dublador e, por trabalhar com locução anteriormente, criou a oportunidade para o filho começar na área ainda muito pequeno, com mais ou menos 6 anos de idade. Ele também já foi reconhecido em algumas ocasiões, sendo uma vez pela voz do Ranger Vermelho/Tyler em Power Rangers Dino Charge.

“Foi há alguns anos, um taxista perguntou se eu trabalhava na TV, porque ele reconheceu minha voz de algum lugar. Contei meu trabalho e falei de alguns personagens que eu dublei. Ele via Power Rangers com o filho”.

Com todos esses relatos, fica muito claro como a dublagem é parte crucial da cultura pop no Brasil e como é importante reconhecer o trabalho de tais profissionais. Lendo legenda ou assistindo aos conteúdos dublados, o trabalho destes profissionais é imprescindível para que todos tenham acesso à cultura – como deve ser.

Momentos LH: Dublagem

Com o intuito de nos deter sobre essa técnica fundamental para fãs de cultura e para a sociedade como um todo, lançaremos por aqui uma série de matérias, listas e reportagens sobre dublagem, como parte do Momentos LH de julho de 2021.

Nesta semana, tanto aqui no site, como no TwitterInstagramYouTube e TikTok, abordaremos o papel da dublagem como um instrumento de acessibilidade, investigaremos os desafios de dublar durante a pandemia de COVID e relembraremos de algumas das dublagens mais icônicas da nossa infância e adolescência. Esses são apenas alguns dos conteúdos sobre o assunto que você vai conferir no Momentos LH!

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sobre o autor Camila Sousa

Jornalista por formação e nerd por natureza. Fã de diversos mundos fantásticos por aí e criadora do podcast Podcakes | @cakes_sousa no Twitter e Instagram