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Como a dublagem brasileira sobreviveu à pandemia

Por Arthur Eloi

No início de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou estado de pandemia por conta do novo coronavírus. A diretriz de segurança, para frear o rápido contágio, foi bastante simples: fique em casa. Nesse período de quarentena, os filmes e séries de TV se tornaram refúgio e companheiros em tempos de distanciamento social e incerteza. Mas em um país como o Brasil, que não costuma falar o mesmo idioma das muitas produções que consome, como fica a vida dos profissionais responsáveis pela localização das obras que o público consumiu do conforto de seus lares?

Com os cinemas fechados, canais de TV e plataformas de streaming se tornaram as principais ofertas de entretenimento, mas todo o conteúdo ainda precisava passar por um longo processo de tradução e gravação de vozes brasileiras. Assim como todas as áreas, a dublagem precisou se adaptar rapidamente à pandemia. “Logo em março uma empresa já freou os trabalhos presenciais, sem nenhum tipo de plano B pois era um mundo novo para todos. Aí as outras empresas também adotaram isso em um efeito dominó, e a dublagem – não só no Brasil, mas no mundo – parou”, explica Diego Lima, ator e diretor de dublagem conhecido pela elogiada localização de One Punch Man, para a Netflix. Em entrevista exclusiva à Legião dos Heróis, ele relembra como foram os primeiros dias da pandemia.

A dublagem de São Paulo, que basicamente é uma contraparte da dublagem do Rio de Janeiro, ficou da segunda quinzena de março até o comecinho de maio totalmente paralisada, algo entre 40 e 50 dias”, conta. “Nós [dubladores] nos reunimos em ambiente virtual, com o sindicato [Sated-SP] e agentes do mercado – mas não com os clientes, eles não participaram disso. Aí buscamos um jeito de se fazer dublagem protegendo os profissionais.” O diretor ressalta que o processo não foi nada fácil, afinal envolvia extensas reuniões virtuais com cerca de 400 participantes, todos buscando algum tipo de consenso ou alternativa para o período pandêmico.

Antes da pandemia, Diego Lima comandou a dublagem de One Punch Man; Agora, o diretor mediou as assembleias para a retomada segura da função

Tudo foi feito não só para garantir o exercício da profissão, mas também para definir um ambiente seguro. Como bem pontua, é preciso entender que um filme ou série dublado não é apenas esforço dos seus artistas, mas sim de extensas equipes das mais variadas funções: “É como se fosse um remédio para proteger os profissionais, e não só os dubladores: há também profissionais da parte técnica, do administrativo, o pessoal da limpeza, de todas as áreas. Dublagem a gente fala do dublador e, de vez em quando, do diretor, mas na verdade a indústria é composta até por mais pessoas que não são os artistas, da parte técnica aos tradutores.

O debate durou até maio de 2020, quando o Sindicato dos Artistas e Técnicos de Espetáculos e Diversões do Estado de São Paulo (Sated-SP) definiu diretrizes de segurança para o exercício da profissão. A partir daí, começaram os primeiros experimentos com a dublagem remota – e uma série de novos desafios.

Estúdio caseiro

Para contextualizar, pra ficar mais fácil, a dublagem acontecia presencial em 99% das vezes. Já existia alguns fragmentos de uma dublagem remota, mas para coisas muito pontuais e incipientes, nada que oferecesse risco à indústria da dublagem e do audiovisual”, explica o diretor, que afirma que já tinha equipamentos em casa para gravar anúncios para uma rede varejista e locuções em geral. Mas definitivamente não foram todos os profissionais que tiveram a mesma sorte. Antes, é bom entender como funciona o processo remoto de dublagem: “Através de uma plataforma, você gera um link com três pessoas: o diretor, o dublador e técnico de som, cada um na sua casa”, explica Diego Lima. “Nesse link há uma tela com o vídeo por streaming compartilhada com todas essas três pontas, e o dublador grava na casa dele.

Logo de cara, como garante o diretor, vários problemas já começaram a aparecer – muitos desses bastante conhecidos por qualquer um que se viu migrando para o modelo de home office. “Os dubladores investiram em infraestrutura de internet, que é o primeiro fator muito complicado porque a gente trabalha num país em que a telecomunicação ainda é muito precária. Eles tiveram que se adaptar. Alguns conseguiram criar uma estação de trabalho robusta, com uma qualidade razoável, e outros tiveram que fazer adaptações de acordo com suas necessidades econômicas, ou de região. Tem pessoas que moram do lado de uma grande avenida, ou de estações de trem e fábricas, e isso você não consegue mudar.

Em algumas horas, há falta de sincronização entre o vídeo e áudio do streaming dos conteúdos que você recebe”, explica. “Já em outras, trava demais, ou é preciso repetir várias vezes. Por exemplo, cenas de gritos ou de ação, que você fazia no estúdio em uma ou duas tomadas, coisa de 30 segundos, agora leva dez tomadas, porque é preciso sussurrar em um volume, gritar em outro. Agora, quem cuida disso – mesmo que sob orientação de um técnico – é o próprio dublador.

O grande surto das reformas de 2020

Trabalhar de casa significa aturar vizinhos pentelhos, problemas de luz e internet, ou então a grande epidemia de reformas que surgiu durante a quarentena. É um pouco irritante quando algo desse tipo atrapalha seu foco ou uma reunião, mas é simplesmente inviável quando sua profissão toda gira em torno de áudio de qualidade.

Quando a gente dubla, geralmente ensaiamos um determinado trecho do filme, de 20 segundos, que é chamado de anel (ou loop, no Rio de Janeiro). Então, durante o ensaio para ajustar sincronismo, interpretação e tom, tá tudo perfeito. Falou “Gravando!” e já surge a vizinha de cima com o aspirador de pó, o de baixo com reforma, o motoqueiro buzinando pra avisar que chegou o delivery, ou então cai a energia, cai a internet, cai a plataforma”, conta o diretor aos risos. “Os dubladores gritam o tempo inteiro durante uma cena de ação, aí o zelador toca o interfone para ver se está tudo bem. Isso aconteceu com muitos dubladores. No calor, as cabines caseiras não têm refrigeração, então muitos tiveram queda de pressão e passaram mal. Eu mesmo fiquei quatro horas numa gravação de um programa – um torneio de queimada onde eu era o narrador – e eu quase desmaiei.

Dificuldades do tipo, inclusive, não são exclusivas do Brasil. Jack Dylan Glazer, ator conhecido por It: A Coisa e Shazam!, recentemente fez a voz de Alberto Scorfano na versão original de Luca, a animação da Pixar. Para gravar suas falas com um mínimo de qualidade, o menino precisou improvisar seu estúdio dentro de um armário:

Comecei a gravar logo que a pandemia começou, coisa de um dia depois. Então fiz tudo dentro de um armário na minha casa. Durante um ano inteiro. Na verdade, foi divertido. Meus vizinhos provavelmente não acham o mesmo porque eu passei todo esse período gritando dentro de um armário. As pessoas provavelmente achavam que eu era louco!

Silenzio, vizinhos! Até Jack Dylan Grazer, voz original de Alberto em Luca, sofreu para gravar voz com qualidade em casa

Já Diego Lima afirma que essas pequenas coisas mundanas, quando acumuladas, acabam por complicar, estender e encarecer todo o processo da dublagem: “O que aconteceu bastante foram cancelamentos de dias inteiros, e não só comigo. Situações em que é preciso cancelar sua escala do dia porque caiu a internet, acabou a luz, por conta de muito barulho. É difícil, precisa ter uma resiliência muito grande.

Dublar já é muito difícil. Dominar essa técnica demora anos e anos. Vou ser muito sincero que acho que nunca ninguém está pronto quando se trata de dublagem. A pessoa tem ferramentas e um arcabouço de materiais, mas você sempre dubla conteúdos, personagens, atores e tramas novas, então tudo é novo, sempre”, discute. “Aí você recebe com delay, com áudio e vídeo falhando, ou então você grava uma sequência incrível e o áudio dá problema e você precisa fazer tudo de novo. A dublagem remota atualmente é extremamente desgastante. Ela é segura? Sim, pois você não sai de casa, só que ela é desgastante.

Sem pressão

Para realmente entender a importância de desenvolver um modelo remoto de dublagem, é preciso saber o quanto trabalha um dublador. Como Diego Lima coloca, os profissionais da voz, apesar de prestigiados pelo público, vivem sem uma renda fixa, mas sim pulando de trabalhos em trabalhos: “Na dublagem presencial, você percorre vários estúdios durante o dia. O dublador é um profissional que só têm renda se tiver volume de trabalho. Dublar só uma vez por mês não é vantajoso, então é preciso atender muitos estúdios, que trabalham com muitas distribuidoras e players do mercado, para poder fazer uma carteira”, explica. “A dublagem, em linhas gerais, depende de volume de trabalho igual a um taxista.

Como a pandemia acentuou, é muito complicada a questão de profissionais que não puderam se dar ao “luxo” de pausar suas funções para garantir o isolamento social, já que isso colocava sua própria subsistência em risco. Isso é especialmente arriscado na mão de patrões mal intencionados, capazes de sacrificar a saúde dos funcionários em prol de não sacrificar o próprio lucro. Felizmente, no caso da dublagem, parece que todas as partes envolvidas – profissionais, estúdios de dublagem e produtoras – estavam falando a mesma língua.

Olha, nós sabemos que muitos dos estúdios – os gigantes de streaming, as produtoras internacionais – se preocuparam e tiveram muito cuidado, não só com os dubladores do Brasil, mas do mundo inteiro”, garante Diego Lima. “O lockdown da Europa foi muito mais agressivo. No Brasil, a gente nem teve lockdown, só “medidas restritivas”. […] A gente percebe que houve boa vontade de alguns, que pensaram em nos proteger, que liberaram alguns microfones para alguns estúdios”. É bom saber que houve preocupação com os profissionais, mas isso não significa que a dublagem se manteve exclusivamente remota durante a pandemia.

O longo caminho de volta aos cinemas

Na reta final de 2020, e no início de 2021, ficou claro que os cinemas de algumas capitais do Brasil estavam ensaiando uma reabertura, com lançamentos exclusivos. Acontece que, como explica o diretor, atualmente é impossível dublar de casa os filmes que serão exibidos na telona: “Um último agravante é a inconsistência, e a pós-produção que isso gera para quem vai mixar e definir o padrão desse áudio. Por exemplo, eu tenho uma estação de trabalho, e outra pessoa tem uma de outro tipo. A microfonagem de tudo isso fica muito complicada. […] A dublagem remota para cinema é quase inviável. O cinema é áudio num nível – com tecnologias Dolby Atmos, 7.1, 12.1, 20.1 – que a dublagem que você grava remoto ainda é muito limitada do ponto de vista de qualidade técnica.

Imagina 40 dubladores em 40 estúdios diferentes”, continua. “Não vai ter padronização. É surreal pensar que 40 dubladores vão comprar apartamentos no mesmo prédio e fazer estúdios iguais, e isso sendo só o elenco de um único filme. Acho que houve boa vontade, alguns adiaram prazos. Tiverem filmes que foram adiados muitas e muitas vezes, alguns tiveram participações remotas para não trocar personagens, mas outros trocaram. Foi muito inconsistente porque ninguém estava preparado para a pandemia, e as alternativas foram experimentações.

Com isso, algumas distribuidoras avisaram que seus produtos só poderiam ser gravados de forma presencial. Diego Lima conta como foi a experiência de voltar aos estúdios no meio da pandemia, tendo dirigido a dublagem de Mortal Kombat e de Tom & Jerry – O Filme.

O estúdio de dublagem não é um ambiente em que você pode abrir janelas, mas sim de ar refrigerado, fechado e de circulação. Fizemos Mortal Kombat em março deste ano, e teria que ser integralmente presencial”, relembra. “Tanto a distribuidora quanto o estúdio de dublagem pensaram em medidas para proteger todo mundo. Dentro do switcher, onde fica o diretor e a captação, foi criada uma barreira de acrílico para evitar o contato. Já dentro do estúdio, foram colocadas medidas de higiene a cada dublador que saía, e intervalos de 30 minutos entre cada profissional com luz UV e higienização. Os dubladores foram orientados a cada um levar seu próprio fone, garrafa de água, caneta e usar luvas para manipular o texto, que é impresso. Não tivemos nenhum problema.

 

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Era um filme com altíssimo nível de proteção, de confidencialidade, e deu tudo certo. Nenhum dos profissionais foi infectado ou teve Covid-19. Foram medidas protetivas, de segurança, respaldado no que é falado por todos, e deu tudo certo, tanto com Mortal Kombat quanto com Tom & Jerry – O Filme, esse feito em janeiro, quando a curva [de casos] estava um pouco mais tranquila”, garante. O diretor, porém, reafirma que não é a favor da retomada da dublagem presencial neste momento, e que essas medidas são úteis apenas para raros trabalhos, com equipes reduzidas.

Acho que todas as medidas são bem-vindas, mas elas não são garantia, já que a pessoa pode estar assintomática e uma série de outras coisas. Mas deu tudo certo, tivemos apoio da Warner Bros., e o estúdio também teve uma cautela.

O futuro da dublagem remota

O Brasil e demais países do mundo passaram a vacinar sua população contra a Covid-19, sinalizando que todo esse pesadelo caminha para o fim – ainda que muito lentamente. Isso significa que haverá uma volta aos estúdios de dublagem em breve? Diego Lima não acredita que será o caso. “Agora, na vacinação, nós estamos em um país que está muito atrasado em relação ao mundo, com um governo que não tratou a pandemia como deveria, e que despreza sistematicamente todos os setores da cultura desse país – e a dublagem está inserida nesse segmento. Acho que a dublagem remota ainda vai perdurar pelo segundo semestre, e aí alguns esforços para voltar terão que ser conversados, mas não percebo ansiedade e nem pressão [dos estúdios].

Assim como os vários outros trabalhadores, há certa desconfiança de que o pós-pandemia abraçará de vez o home office em alguma capacidade, acelerando um processo que, sem a Covid-19, demoraria algumas décadas para realmente acontecer. O diretor entende que isso deve ocorrer na dublagem, mas há questões a serem resolvidas. Além da falta de infraestrutura – tanto da internet quanto do equipamento dos próprios dubladores -, ele acredita que as distribuidoras e produtoras não vão querer arriscar vazamentos de seus produtos ao dublá-los em um ambiente sem tanto controle.

Segundo Diego Lima, muitas obras de alto padrão optaram por adiamentos ao invés de ceder à dublagem remota. Isso deve se estender mesmo quando a gravação virtual deixar de ser necessária e se tornar apenas uma alternativa: “Vamos chamar de dublagem híbrida, que vai mesclar presencial e remota. Confesso que, com o tempo que tenho de carreira e os trabalhos com os quais já tive contato, acho difícil que os trabalhos de altíssima repercussão migrem para o híbrido. Quando tiver segurança, a dublagem presencial vai prevalecer, principalmente para os grandes players. Acho difícil um produto de alto nível, como um Game of Thrones, gravar remoto. Qualquer vazamento pode colocar em risco não só a dublagem, mas a cadeia inteira do audiovisual.

Pelo alto nível de confidencialidade, não espere que algo como House of the Dragon – nova série de Game of Thrones – seja dublada de forma remota

Qual tipo de obra será dublada remotamente, então? As produções sem muito hype, daquelas que apenas surgem nos catálogos de streaming sem muito alarde. Muito disso se dá pela natureza mais complexa do processo: “A dublagem remota é mais cara, porque todo o processo demora mais, e tempo é dinheiro, não? Demora mais, há mais profissionais envolvidos e mais atualizações, já que a janela tecnológica hoje é de seis meses a um ano. Imagina todo ano ter que trocar microfone, equipamento, interface, computador? Não é possível. Então acho que, naturalmente, a dublagem híbrida será uma coisa muito incipiente, e acho que só vai existir para produtos que não têm nenhum tipo de proteção, que são para cumprir grade de programação, porque se produz de forma mais rápida e mais eficiente no presencial.

A dublagem é parte fundamental da cultura brasileira, e garantir que o processo seja feito de forma segura para os seus profissionais é uma preocupação que os próprios consumidores devem ter em mente. Com a vacinação acelerando, há esperança de tempos melhores, mas também será um período para entender mudanças e reflexões que surgiram durante o ano trancafiado em casa. Essas são questões para o futuro mas, por enquanto, é bom celebrar que os dubladores – e todos os outros profissionais envolvidos – conseguiram tocar a função em segurança, ainda que eles tenham carregado o peso disso.

A pandemia mexeu muito com a saúde mental das pessoas. Muita gente trabalhando de casa fica ansiosa. Então a dublagem remota é como se fosse um remédio amargo”, afirma Diego Lima. “Ela é boa, protege e atende os clientes, mas não é um cenário perfeito. Eu defendo a dublagem remota para este momento que estamos vivendo. Pro futuro, acredito que é muito precipitado acharmos que a dublagem remota é um oásis que precisa ser defendido, porque é muito problemático e extremamente desgastante.

Momentos LH: Dublagem

Com o intuito de nos deter sobre essa técnica fundamental para fãs de cultura e para a sociedade como um todo, lançaremos por aqui uma série de matérias, listas e reportagens sobre dublagem, como parte do Momentos LH de julho de 2021.

Nesta semana, tanto aqui no site, como no Twitter, Instagram, YouTube e TikTok, abordaremos o papel da dublagem como um instrumento de acessibilidade, investigaremos os desafios de dublar durante a pandemia de COVID e relembraremos de algumas das dublagens mais icônicas da nossa infância e adolescência. Esses são apenas alguns dos conteúdos sobre o assunto que você vai conferir no Momentos LH!

Aproveite e confira 13 dublagens inesquecíveis em filmes que nós amamos:

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Arthur Eloi

Repórter entusiasta de filmes ruins, jogos de tiro e de horror em todas as suas formas. Dá notas duvidosas para obras questionáveis • @ArthurEloi117