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Crítica: Sweet Tooth, Temporada 1

Por Lucas Rafael

Um dia desses me falaram para nunca julgar uma série pelo piloto. Parando pra pensar numa perspectiva narrativa, o piloto é algo desafiador mesmo. É no piloto que as regras de um universo ganham contornos, que conhecemos os personagens. Geralmente, o andamento da trama acaba ficando estagnado nesse baile de introduções. Não é toda produção que consegue te prender logo de primeira, é por isso que frases como “não desiste que logo fica bom” ficaram famosas entre os consumidores ávidos de seriados. A primeira temporada de Sweet Tooth, nova série da Netflix que adapta as HQs de Jeff Lemire para o extinto selo Vertigo, se parece com um grande piloto de oito episódios. Um piloto competente, mas que ainda soa apenas… como um piloto, preparando o solo para uma segunda temporada promissora, caso ela seja aprovada, é claro. Ninguém quer que esse seja mais um Legado de Júpiter.  

Nesta adaptação (produzida por Robert Downey Jr.) temos um mundo pós-apocalíptico. A humanidade está sendo dizimada por um vírus conhecido como flagelo. As estruturas sociais colapsaram, as pessoas sobrevivem como podem. Quase que junto à pandemia surge outro fenômeno tão inexplicável quanto ela: começam a nascer bebês híbridos, meio-humanos e meio-animais.  

É um cenário instigante, cujo mistério é o principal chamariz para que você invista na narrativa. De onde veio o vírus? Quem são os híbridos? Qual a relação entre uma coisa e outra? Essas são algumas perguntas que ancoram a sua atenção na história.

Sweet Tooth bebê híbidro

Um dos bebês híbridos de Sweet Tooth. Foto: Netflix

A série remixa os eventos dos quadrinhos e os altera pelo bem da adaptação, sacrificando o tom sombrio e melancólico do material fonte em favor de um tom mais… fofinho, vamos dizer assim. 

Se a HQ de Sweet Tooth é amarga e bucólica, a série é doce e encantadora. 

A principal dinâmica de Sweet Tooth está entre o garoto-cervo Gus (Christian Convey) e seu relutante novo guia/protetor Tommy Jepperd (Nonso Anozie). Após o pai de Gus (Will Forte, numa performance adorável) falecer, o garoto vive recluso em um bosque até ser confrontado por caçadores e ser resgatado por Jepperd. 

Os arquétipos narrativos aqui são bem manjadinhos, do gigante durão que vai provando ter um coração de ouro até o garoto que precisa deixar para trás sua zona de conforto ao encarar uma aventura perigosa de autodescobrimento. No entanto, Sweet Tooth é confiante em todas as peças que emprega para construir sua trama, ainda que elas careçam de originalidade.  

Abrindo mão da violência bruta (as cenas de ação são até meio desconjuntadas e econômicas aqui na série) que há na HQ, a série prefere focar sua energia em momentos mais intimistas e contemplativos entre os personagens, fazendo eventuais revelações que mais intrigam do que respondem. 

Adaptação de Sweet Tooth é cheia de momentos sublimes. Foto: Netflix

Os episódios de Sweet Tooth intercalam geralmente entre dois tipos de tramas. O primeiro tipo foca em colidir os núcleos de personagens, já o segundo tipo são as tramas que buscam explorar passados e motivações, apresentando via flashbacks alguns dos traumas e cicatrizes que cada sobrevivente carrega após o colapso da humanidade. Isso gera um ritmo duvidoso: alguns episódios são ágeis e dinâmicos, outros um tanto paradinhos e tediosos.

No oitavo e último episódio, todas as peças estão em perfeita disposição para que a aventura de Gus e seus amigos seja mais ágil em seu próximo ano, o que dá para a primeira temporada da produção um gostinho de aperitivo, como se Sweet Tooth estivesse aquecendo para o que pode realmente oferecer no futuro. Lembra muito a primeira temporada de Castlevania nesse sentido (embora esta seja consideravelmente menor).  

Por mais que a qualidade de Sweet Tooth permeando todos os quesitos técnicos de uma produção (atuação, fotografia e essas coisas) seja competente, o final te deixa com a sensação de que os oitos episódios soam como a promessa de uma segunda temporada mais arrojada e competente. 

Fica difícil julgar Sweet Tooth, já que uma vez me falaram para nunca julgar uma série pelo episódio piloto. A nova original da Netflix se comporta e soa como um grande piloto, com pontuais momentos que aquecem o coração e te fazem erguer uma sobrancelha pelo instigante mistério que cerca aquele mundo. Se o foco dos produtores era o de apresentar um mundo e seus habitantes, a missão foi cumprida.

A HQ de Sweet Tooth conta com um tom muito mais tristonho que o da série.

Você já assistiu coisas piores, e Sweet Tooth é uma série competente e calorosa o suficiente para merecer a sua atenção, seja você um fã dos quadrinhos de Lemire ou alguém que busca uma história cativante sobre confiança num mundo desolado. 

Sweet Tooth pode ser um tantinho doce demais, introdutória demais, mas acerta ao apostar num otimismo cândido. Do jeito que o mundo anda, às vezes é bom assistir algo que é mais camomila do que café preto, e olha que Sweet Tooth tinha tudo para ser sombria e austera. Se as HQs de Lemire são mais parecidas com Last of Us ou algo como se o Cormac McCarthy escrevesse uma fábula, a série fica num meio termo entre Peter Pan e Onde Vivem os Monstros.

Ainda que não apresente nada de novo, Sweet Tooth dificilmente irá te decepcionar. 

A nota final para Sweet Tooth são três estrelas de cinco.

Confira também algumas imagens da série:

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sobre o autor Lucas Rafael

Redator. Entusiasta de coisas demais