Afinal, como adaptar animes para o live-action?

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Afinal, como adaptar animes para o live-action?

Por Junno Sena

A batida rápida e animada de jazz. O letreiro agitado, cores vibrantes dando lugar a silhueta dos personagens. Acontece uma vibração no peito no espectador com cada nota musical e no seu auge, a trombeta dá lugar ao título: Cowboy Bebop. Mesmo que pareça que estou falando do clássico anime, a descrição também bate com a sua adaptação live action. Odiado por alguns, visto com potencial por outros, a segunda tentativa da Netflix em adaptar um anime deixou um gosto agridoce. 

E junto, uma preocupação foi instaurada, uma vez que o streaming está desenvolvendo projetos como Yu Yu Hakusho e One Piece e até mesmo Avatar: A Lenda de Aang — que embora seja uma produção americana se encaixa quase que perfeitamente no caso. Com materiais ricos em personagens e história, a pergunta surge: É possível adaptar animes para live action? Não apenas por se tratar de uma empresa americana tomando para si duas narrativas japonesas, como também por serem mídias completamente diferentes.

A abertura da série Cowboy Bebop.

Entre cadernos da morte e esferas do dragão

Pôster de Dragon Ball Evolution (2009)

Cinema, série, anime. Enquanto o cinema investe em narrativas curtas, séries buscam manter o público preso à narrativa. Já animes, por exemplo, possuem a capacidade de construir o universo que o seu criador imagina, com pouquíssimas barreiras que impossibilitem a “criação de mundo”. Poderes, habilidades especiais, tudo isso ganha um novo parâmetro.

Enganado é quem acredita que essas produções são apenas sobre Kamehameha’s e Jutsus Clones das Sombras. Pelo contrário, a lógica utilizada por essas narrativas foge completamente do que é visto nos Estados Unidos. Existem pormenores culturais que, mesmo com as melhores intenções da produção, passam despercebidos.

Um exemplo claro disso é no anime Sarazanmai. Nele, música, diálogo e visual são cruciais para compreender todas as suas camadas. Para um não dominante da língua japonesa, fica impossível entender as sutilezas apresentadas. Sem contar que ler e falar japonês não significa ter assimilado a cultura e o folclore. 

Nesse caso, se torna óbvio por que adaptações como Dragon Ball Evolution e Ghost in the Shell falharam em reproduzir o seu material fonte. Em ambos os casos, o problema — não se trata apenas do whitewashing de Scarlett Johanson e a interpretação caricata de Justin Chatwin — está em não assimilar o que há escondido por baixo da primeira camada narrativa dos animes.

Comparação entre o filme animado Ghost in the Shell e a adaptação live-action.

Ghost in the Shell, por exemplo, é sobre a evolução tecnológica em um mundo onde há mais humanidade em máquinas do que em humanos. Na sua tradução, o erro foi reproduzir algo sem tentar entender o todo que o engloba, seja quanto ao momento em que ele foi produzido, o motivo de ainda ser tão comentado ou o porquê de trazer a história novamente em 2017.

Por outro lado, nem mesmo os japoneses conseguem criar produções perfeitas quando falamos de live-actions. Fullmetal Alchemist recebeu diversas críticas por resumir demais a história de Edward e Alphonse e fazer personagens importantes se tornarem apenas aparições curiosas na trama. Já quando falamos de Attack on Titan, um roteiro simplificado, CGI de qualidade duvidosa e um desconforto constante do elenco nos papéis fez com que caísse na pilha de adaptações fracassadas.

Poster de Gantz (2011)

Perdido na tradução

Ainda assim, é curioso pensar como a série de Cowboy Bebop falhou em adaptar um mundo que foi, primeiramente, inspirado pela cultura americana. Com momentos de blaxploitation e jazz, o anime é um amálgama de referências, enquanto a série tenta homogeneizar a narrativa para se encaixar em um modelo seriado.

Percebendo tantos problemas nessa “tradução”, será que é possível fazer uma adaptação satisfatória? Sim e não. Conhecendo a fonte, pode-se encontrar diversas adaptações que são boas em relação ao original, mas também conseguem trazer uma ótica distinta para o anime. É o caso de Gantz (2011) e Gantz: Perfect Answer (2011), que em comparação ao original, trazem um frescor a um anime que, para alguns, envelheceu mal. 

As versões japonesas de Death Note são outro caso à parte. Os primeiros filmes, protagonizados por Kenichi Matsuyama e Tatsuya Fujiwara, seguem grande parte da narrativa do mangá e anime, mas com algumas modificações, construindo um novo universo que foi expandido em formato seriado. Outros filmes como Bleach (2018), Tokyo Ghoul (2017) e séries como Kakegurui (2018), Mirai Nikki: Another World (2012) são um aperitivo para inserir o espectador no universo desses animes.

Mesmo que, a princípio, a narrativa dessas produções tenha um sabor infantil, com atuações exageradas e, às vezes, um baixo orçamento para bancar os efeitos visuais, elas possuem um diferencial: entendem a obra original. A minissérie Mirai Nikki caminhou por um universo completamente diferente do anime, mas utiliza as mecânicas da fonte original tentando expandi-lo. Assim, só há ganhos, pois o fã do anime recebe uma história nova que respeita o original e, quem nunca consumiu pode ter um gosto do que se trata a história.

O material original continua lá

Então, antes de perucas bem presas e roupas criadas lado a lado com os personagens originais, o que parece faltar em diversas adaptações que deram errado é a compreensão de que não há como ser melhor que original, mas também que não é para ser melhor.

Como sempre é dito: “O material original continua lá”. Não é sobre reinventar e apagar o antigo, mas construir uma obra que consiga homenagear a sua fonte, ser divertida para os fãs e apresentar o material para um público novo.

Fica claro o porquê do único elogio da versão americana de Death Note ter ficado por conta de Lakeith Stanfield como L. Dentre um roteiro meia boca, personagens caricatos que pareciam fazer chacota com o original e uma americanização das críticas que o anime fazia, Lakeith parecia ser o único ponto coeso. Ele era uma versão nova do L, mas que parecia conectado ao original.

Lakeith Stanfield e Kenichi Matsuyama, ambos como L.

“Quando a história foi apresentada pra mim, Adam Wingard e eu lemos o roteiro e eu pensei que o conceito era legal. Então eu vi o anime, li o mangá e entendi que era algo que eu amava e que eu tinha me apaixonado pelo L. Eu queria ser parte disso”, explicou o ator em entrevista para o The Verge.

Com mais erros que acertos, a adaptação procurou uma saída mais comercial e menos filosófica do que o anime, mas acabou caída, não no esquecimento, mas, nas lembranças do que não foi bom. Agora, com essas duas produções feitas pela Netflix, será que o streaming aprendeu a lição?

Com o cancelamento prematuro de Cowboy Bebop, talvez não, porém só saberemos com o andar da carruagem. É importante frisar que essas adaptações precisam enfrentar públicos severos que sempre vão fazer comparações com o material original. E, mesmo que fique claro que não é sobre destruir a obra adaptada, nem todo mundo aceita tão bem algumas mudanças.

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sobre o autor Junno Sena

Pós graduando em Antropologia com o raio problematizador ligado no 120. Assiste filme trash para relaxar e dorme cantarolando a trilha sonora de A Hora do Pesadelo. Blaxploitation na veia e cinema coreano no coração. Atualmente mora em Petrópolis, RJ.