[CRÍTICA] Dolittle é um mico de filme

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[CRÍTICA] Dolittle é um mico de filme

Por Gus Fiaux

Um personagem muito querido da literatura e do cinema, o Doutor Dolittle está de volta às telas, dessa vez com um filme estrelado por Robert Downey Jr., em seu primeiro papel após ter se despedido de vez do Universo Cinematográfico da Marvel. 

Em Dolittle, acompanhamos o excêntrico médico capaz de falar com animais, enquanto parte em sua aventura mais grandiosa para salvar a Rainha da Inglaterra de uma enfermidade misteriosa. O longa finalmente chegou ao Brasil e pudemos conferi-lo… e aqui você fica com a nossa crítica!

Créditos: Universal Pictures

Ficha Técnica

Título: Dolittle

 

Direção: Stephen Gaghan

 

Roteiro: Stephen Gaghan, Chris McKay, Doug Mand e Don Gregor

 

Ano: 2020

 

Data de lançamento: 20 de fevereiro (Brasil)

 

Duração: 101 minutos

 

Sinopse: Um famoso doutor que pode se comunicar com animais embarca em uma jornada para encontrar uma ilha lendária, enquanto tem que lidar com um jovem aprendiz e vários pets estranhos.

Dolittle é um mico de filme

Após dez anos atuando como o Homem de Ferro no Universo Cinematográfico da MarvelRobert Downey Jr. finalmente está livre para perseguir outras oportunidades. E seu primeiro longa após Vingadores: Ultimato – que marcou a despedida do lendário Vingador Dourado – é Dolittle, uma nova versão da história do popular doutor capaz de conversar com animais.

O personagem foi criado por Hugh Lofting em 1920, e apareceu em quinze livros do autor publicados até 1952. Nos cinemas, o personagem logo caiu nas mãos da Fox, ganhando várias versões – a mais conhecida sendo a franquia originalmente protagonizada por Eddie Murphy -, até que o estúdio perdeu os direitos de adaptação, comprados posteriormente pela Universal Pictures. 

Originalmente intitulado “A Viagem do Doutor Dolittle”, o novo longa – dirigido por Stephen Gaghan – passou por vários problemas em sua produção, ganhando extensas refilmagens, que geraram o adiamento do lançamento em quase um ano. O resultado chegou aos cinemas norte-americanos no mês passado, mas o público brasileiro só pôde conferir ao filme a partir da última quinta-feira (20).

E mesmo se você for um fã confesso do personagem, não vá com altas expectativas. Dolittle é, para pegar “leve”, uma catástrofe. Vários problemas permeiam a produção da Universal, desde o CGI asqueroso ao ritmo incoerente e um humor péssimo, que fazem com que o filme seja uma tragédia premeditada, que assassina completamente as mínimas chances que o longa tinha de dar início a uma franquia lucrativa para o estúdio.

Mas vamos pela base: a história. O filme segue um Doutor Dolittle – interpretado por Robert Downey Jr., no papel mais canastrão e desinteressante de sua carreira – mais velho e mais cansado, ainda traumatizado por uma perda trágica de seu passado, que precisa voltar à ativa para salvar a Rainha da Inglaterra, doente por razões misteriosas e conspiratórias.

Na sua jornada, ele recebe a ajuda do jovem Tommy Stubbins – vivido por Harry Collett, que tenta ao máximo se entregar na “magia” da aventura, e provavelmente dá a melhor interpretação do elenco. Além de seu aprendiz, ele também leva consigo vários amigos animais – com trabalho de dublagem feito por grandes estrelas, como Rami Malek, Emma Thompson, Kumail Nanjiani, Octavia Spencer, Selena Gomez John Cena. 

A jornada então vai a lugares incríveis, passando por um reino governado por piratas e seus tigres de estimação a uma ilha misteriosa que guarda o segredo para a recuperação da rainha. E isso poderia ter sido incrível, se o filme não fosse tão inconstante, absurdo e mal-feito. A atuação é o menor dos problemas, já que todos, desde Downey Jr. a astros famosos como Antonio Banderas Michael Sheen estão propositalmente exagerados e excêntricos.

Você pode começar a reclamar “nossa, mas você não está pegando pesado com um filme infantil?”, e bem… 1) Isso não é desculpa: filmes infantis podem ser tão bem trabalhados e produzidos quanto filmes “de adulto”, basta ver o trabalho de animações como Como Treinar Seu Dragão e Toy Story. E 2) mesmo para um filme infantil, Dolittle comete um pecado imperdoável: é extremamente chato e tedioso.

O longa tenta inserir cenas cômicas para “quebrar o gelo” e justificar a ausência de qualquer magia cinematográfica que poderia ter tido, mas todas as piadas são, no máximo, constrangedoras. E, no momento em que você está assistindo à quinta cena em que um animal peida para produzir efeito cômico, tudo o que você quer é sair da sala o mais rapidamente o possível.

A parte técnica parece se esforçar para condenar ainda mais o filme, já que nada nela funciona – a fotografia é horrível, com muitos planos em close que tiram o brilho dos cenários (a única parte bem estruturada da direção de arte) e, para piorar, ressaltam ainda mais o problema dos efeitos visuais do filme – o que é ainda mais tenso em um longa em que todos os animais são construídos através de CGI. 

A música é estafante e até os figurinos parecem ter sido comprados em lojas de fantasia baratas, sem transmitir qualquer apelo visual até mesmo para a criança mais deslumbrada. Tudo isso corrobora os rumores de que a própria Universal estava “com pavor” da recepção do longa, jogando a data de lançamento (nos Estados Unidos) para janeiro, um mês conhecido como o “lixão dos filmes ruins” para os exibidores de cinema.

O roteiro é uma bagunça, e o máximo que existe aqui é um rascunho de enredo que parece ter sido escrito às pressas, sem lógica alguma. Mais revoltante ainda é saber que a Universal Pictures gastou US$ 175 milhões (uma quantia maior que a gasta em alguns filmes da Marvel Studios, a título de comparação) para produzir um filme que sequer tem uma história – mesmo tendo sido escrito por quatro roteiristas diferentes.

Em suma, Dolittle é uma catástrofe. É chato demais para funcionar como um filme infantil, vazio demais para servir como começo de uma nova franquia e mal feito demais para funcionar sequer como um filme. Há poucos elementos redentores aqui – e mesmo o trabalho de vozes não compensa, já que todos os animais “dublados” por astros de Hollywood mal aparecem o suficiente para notarmos quem é quem.

Muito se fala no desastre que foi Cats no ano passado, em parte por conta de seus efeitos visuais grotescos, mas Dolittle não fica muito atrás, com personagens que basicamente parecem estar em planos de existência diferentes, tão ruim é a computação que reúne atores humanos e criaturas digitais. Nem Robert Downey Jr., com toda sua atuação, consegue parecer convincente conversando com bonecos de PlayStation 1. 

Se você realmente gosta do Doutor Dolittle e está afim de ver um filme do personagem, fique com os filmes do Eddie Murphy. Mesmo extremamente caricatos e datados, eles ainda tinham mais humor, vida e magia que o novo longa da Universal. No fim, o único animal que pode representar muito bem a alma e as qualidades deste novo remake é o mico. 

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Na galeria abaixo, fique com cartazes do filme:

Dolittle está em cartaz nos cinemas.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux