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[CRÍTICA] Cats é bizarro e, acima de tudo, entediante

Por Evandro Lira

Estreou nos cinemas brasileiros o filme Cats, produção que adapta um dos musicais mais famosos da Broadway. Reunindo um elenco de estrelas, que incluem grandes nomes da música pop, o filme é dirigido por Tom Hooper, e chega em meio uma enxurrada de críticas negativas. Nós fomos conferir o filme e te contamos se ele, é de fato, essa tragédia toda.

Leia:

Ficha Técnica

Título: Cats

Direção: Tom Hooper

Roteiro: Lee Hall e Tom Hooper

Ano: 2019

Data de lançamento: 25 de novembro (Brasil)

Duração: 1h49m

Você provavelmente deve ter ouvido falar de Cats, novo filme do diretor oscarizado Tom Hooper. Seja porque você viu o trailer e ficou meio assustado com o visual dos gatos humanoides, seja porque alguém te falou para não assistir ao trailer a fim de te prevenir, ou simplesmente porque a obra tem sido amplamente noticiada como um dos maiores fracassos do ano. No entanto, acredite, quase ninguém está falando sobre a principal razão pela qual você não vai querer ver Cats.

Eu não costumo ser adepto da ideia de chutar cachorro morto, mas aqui não vai ter jeito. Para além de mencionar o que todo mundo já deve estar cansado de saber – a qualidade controversa dos seus efeitos visuais -, decidi falar mais precisamente sobre o conteúdo do filme – ou da quase falta dele.

Cats é baseado numa famosa peça musical escrita por Andrew Lloyd Webb. Ele conta a história de um grupo de gatos chamado Jellicle e a noite em que eles fazem a escolha de qual gato vai ascender socialmente e terá uma nova vida num paraíso. Dito isso, é natural que ao ler a sinopse, esperemos que a trama vá além, e te surpreenda mais cedo ou mais tarde, trazendo algo a mais do que apenas aquelas curtas palavras que você leu despretensiosamente. Aqui, porém, não é o que acontece.

A história de Cats é exatamente isso e nada mais. Porém consegue ser narrada de forma ainda mais frustrante: com números musicais irritantes e intermináveis, que quase nunca se permitem te dizer alguma coisa. A cada minuto de suas quase duas horas vai ficando mais clara a roubada na qual você se meteu, e quando você consegue fazer com que tudo aquilo faça algum sentido na sua cabeça – demora pelo menos uma boa meia hora -, fica evidente a maneira como todo o filme vai se desenrolar, e honestamente, você não dá a mínima. Só deseja que ele acabe.

É difícil até fazer alguma progressão nesse texto a partir do enredo de Cats, já que lhe falta um. O filme parece querer adaptar o musical da maneira que ele é apresentado nos palcos, ignorando totalmente a linguagem cinematográfica.

É praticamente impossível se conectar com a história, com a jornada de algum personagem ou com o destino daquelas criaturas. O universo fantasioso apresentado também não te ajuda a entender como e onde diabos vivem aqueles gatos. Nem mesmo o tamanho deles diante dos cenários parecem proporcionais, o que prejudica bastante a imersão no filme.

A maioria dos rostos conhecidos cobertos de pelos estão entregando performances totalmente embaraçosas, como é o caso de Rebel Wilson, Jason Derulo e Idris Elba. Esse último, por exemplo, interpreta um gato malvado e com poderes (?), que em tese é o vilão do filme, mas cuja ameaça e motivação são completamente esquecíveis. Jennifer Hudson apresenta um dos melhores vocais de Cats, mas foi transformada numa personagem piedosa cuja única função é sofrer e chorar sempre que aparece em tela.

Dá para dizer que a protagonista Francesca Hayward, que é na verdade, bailarina, é eficiente ao representar a gata recém-chegada do clã Jellicle. Doce, delicada e de voz suave, a personagem interpreta a melhor canção do filme, Beautiful Ghosts, a única música composta apenas para o longa-metragem.

Taylor Swift, que é quem escreveu a música ao lado de Andrew Lloyd Webb, aparece em um único número musical que até se destaca entre os outros, mas que não acrescenta à narrativa e não faria diferença se estivesse ali.

A essa altura fica claro que os efeitos visuais são realmente os menores dos problemas de Cats. De modo geral, tirando uma cena ou outra onde eles estão evidentemente horríveis – como quando aparece baratas e ratos, por exemplo – os efeitos até passam batido. A verdade é que proposta estética do filme em si é bizarra e dificilmente funcionaria em qualquer hipótese. A fotografia é sem graça, e chega até a te dar náuseas de tanto que a câmera se mexe. Enquanto isso a direção de arte é desinteressante e não faz sentido, principalmente devido a falta de proporção entre os objetos, cenários e atores.

Mas acima de tudo, Cats é um filme chato. Tedioso mesmo. Em nenhum momento o espectador é realmente colocado dentro dele. Durante toda sua projeção é provável que você se pegue pensando na sua próxima refeição ou em qualquer outra questão mais relevante para você. Cats é menos uma experiência traumatizante e mais uma experiência imemorável.

Enquanto vocês leem esse texto, é provável que o filme já deva estar dando seus últimos respiros antes de ser completamente varrido das salas de cinema e esquecido por qualquer premiação que não a Framboesa de Ouro.

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sobre o autor Evandro Lira

Editor, bacharel em Cinema e Audiovisual, bruxo nascido trouxa, filho dos filhos do átomo, mestre dos quatro elementos, fã de mais coisas do que deveria, frequentemente falando sozinho no Twitter. Segue: @evandroslira