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[CRÍTICA] Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica não surpreende tanto quanto poderia

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Por Gus Fiaux

Já em março, temos a estreia do primeiro filme da Disney/Pixar no ano. Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica subverte todas as expectativas ao trazer um mundo habitado por seres fantásticos – que, por sua vez, já se acostumaram com a tecnologia e deixaram de lado a magia e a vida medieval. Nesse universo, dois irmãos precisam partir em uma jornada mágica.

O filme conta com um grande elenco, já que possui vozes de Tom Holland, Chris Pratt, Julia Louis-Dreyfus, Octavia Spencer e muito mais. No entanto, será que a ambientação fantástica é o suficiente para tornar essa aventura familiar um deleite para o público? Nós já conferimos o longa, e aqui você pode ler a nossa crítica do mais novo projeto da Pixar!

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Créditos: Disney

Ficha Técnica

Título: Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica (Onward)

 

Direção: Dan Scanlon

 

Roteiro: Dan Scanlon, Jason Headley e Keith Bunin

 

Ano: 2020

 

Data de lançamento: 05 de março (Brasil)

 

Duração: 102 minutos

 

Sinopse: Ambientado em um mundo suburbano fantástico, dois irmãos elfos e adolescentes partem em uma jornada para descobrir se ainda há magia mundo afora.

Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica não surpreende tanto quanto poderia

Ao longo de mais de vinte anos, Pixar se tornou uma das maiores referências no mundo quando o assunto é animação. O estúdio ficou bem conhecido por seu estilo tridimensional, mas principalmente por extrair história e imaginação dos lugares mais inimagináveis. Foi o estúdio que nos mostrou que brinquedos podem ter sentimentos, que carros podem falar e que monstros trabalham em um escritório, e assustam crianças para gerar energia no seu mundo.

Agora, o estúdio retorna aos cinemas com seu mais novo projeto, Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica. Na trama, conhecemos Ian Barley Lightfootdois irmãos elfos que são diferentes em absolutamente tudo. Ian é tímido, envergonhado e tem vários problemas de auto-confiança. Já Barley é desleixado, extrovertido e não tem medo de falar o que pensa – mesmo que isso o coloque em apuros.

No aniversário de 16 anos de Ian, ele recebe um presente deixado por seu pai, que morreu de uma doença misteriosa quando Ian ainda era muito pequeno. Um cajado encantado, capaz de conjurar seu pai por um dia inteiro. Ian e Barley se encantam com a ideia, mas o feitiço não é completado, e os dois precisam embarcar em uma aventura para recuperar um cristal que pode ajudar com a magia.

Então temos aqui todos os elementos necessários para um excelente filme da Pixar: uma ambientação peculiar, protagonistas improváveis e, acima de tudo isso, um drama muito tangente e humano. A partir daí, Ian e Barley precisam viajar por seu mundo – um lugar mágico, que é habitado por seres fantásticos e mitológicos – tudo enquanto redescobrem a magia que se perdeu há muito tempo.

E com essa premissa, Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica é um bom filme. Ele não desaponta, mas também, infelizmente, não surpreende tanto quanto poderia – e lembre-se que, nesse sentido, estamos falando do produto de um estúdio que é conhecido por trazer alguns dos maiores clássicos das animações nas duas últimas décadas.

Em vez de se aprofundar nos aspectos de sua premissa, o filme apenas raspa na superfície, e funciona muito melhor como um drama familiar do que como uma aventura de fantasia. Quem espera ver um filme focado na relação de dois irmãos que precisam pôr de lado suas adversidades vai sair mais feliz do que quem espera ver criaturas mágicas e feitiços espetaculares.

No fim, a sensação que fica é a de “quero mais”, mas não de uma forma satisfatória. Se Toy Story conseguiu nos imergir inteiramente em um mundo habitado por brinquedos falantes, e se Procurando Nemo sabe criar um universo complexo no oceano, Dois Irmãos poderia se passar em um universo normal com personagens humanos sem problema, já que a ambientação não vale de muita coisa na narrativa.

Mas isso não quer dizer, de forma alguma, que o filme seja ruim. Ainda é um longa da Pixar, o que significa que, de um aspecto técnico e estético, o longa ainda é melhor do que 90% das animações de grandes estúdios da atualidade. Porém, é justamente o roteiro escrito por Dan Scanlon, Keith Bunin Jason Headley que parece não ter muito interesse em ir além do óbvio, por mais que haja potencial para isso.

O elenco de vozes, por sua vez, faz um excelente trabalho. Tom Holland continua interpretando um protagonista cheio de tiques e que é, por natureza, tímido – ainda que quebre o gelo com algumas piadas. Mas é Chris Pratt que se destaca, dando um exagero muito necessário para transformar Barley em um personagem divertido, esperançoso e deslumbrado com o passado de seu mundo.

O resto do elenco também se esforça bastante, com Julia Louis-Dreyfus vivendo a mãe dos garotos, que já de cara se prova uma mulher durona e muito decidida, mas que ama incondicionalmente seus filhos. Octavia Spencer tem um papel divertido e engraçado, mas sua personagem é pouco utilizada, já que o longa não sabe muito bem aproveitar seus personagens coadjuvantes.

Uma comparação válida aqui é Os Incríveis, que apresentou dois coadjuvantes muito icônicos: Gelado Edna Moda. Os dois roubam a cena e se tornaram amados pelos fãs. No caso de Dois Irmãos, há muito potencial para criar figuras tão icônicas e memoráveis, mas o filme parece se intimidar com isso, e nunca “chega lá” na hora de ir um pouco além do que se espera.

O clímax também é um pouco anticlimático, considerando o histórico do estúdio. O drama acaba enfraquecendo por conta da urgência de uma “batalha final” – que, sinceramente, não é tão interessante assim. Mas pelo menos, é uma jornada com consequências muito definidas e um arco excepcional – ao menos para seus dois personagens principais. Ao menos na relação de Ian Barley, o longa sempre acerta em cheio.

A crítica até aqui pode ter soado muito negativa, mas acredite: Dois Irmãos não é, de forma alguma, um filme ruim. Só é um pouco aquém do que a Pixar nos acostumou a fazer. Ainda assim, o longa fica várias degraus acima de produções realmente fracas do estúdio, como O Bom Dinossauro ou as sequências da franquia Carros. 

Para quem quer ver um drama familiar a la Pixar, com toques sutis de magia, é uma pedida certa. Mas para quem quer se deslumbrar em um mundo novo e rico, é melhor esperar pelo próximo lançamento do estúdio, que chega aos cinemas em julho – Soul. Ainda assim, é um filme que crianças vão gostar e que pode até arrancar alguns sorrisos e lágrimas dos mais velhos.

Jornada Fantástica do título acaba sendo mais um “passeio divertido”, e que poderia ser melhor trabalhada em uma continuação que desse mais destaque para esse universo – e é uma pena que o primeiro filme original da Pixar desde Viva: A Vida é uma Festa não consiga se estabelecer de uma forma icônica e memorável. Mas, ainda assim, não deixa de ser um longa doce, emocional e divertido.

Confira cartazes e imagens do filme abaixo:

Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica está em cartaz nos cinemas.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux