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Watchmen: 1×08 – O tempo é simultâneo!

- – Dr. Manhattan fez sua estreia na série… mas não agradou muito!

Por Gus Fiaux → A cada novo episódio, Watchmen tem provado como está profundamente interligada à graphic novel original de Alan Moore Dave Gibbons. E no mais recente capítulo da série – que continua a história deixada pelo plot twist surpreendente deixado ao fim do episódio anterior -, nós finalmente reencontramos um personagem que já estava nos prometido desde os primeiros trailers da série.

Em “A God Walks Into Abar” – aliás, um trocadilho muito bem pensado -, vemos como foi a vida do Dr. Manhattan depois que ele deixou a Terra para viver em Marte. Descobrimos que ele também deixou o planeta vermelho, estabelecendo um novo lar em uma das luas de Júpiter, onde criou vida inteligente. Também conhecemos um pouco de sua infância e como ele voltou para a Terra.

Claro que toda a trama gira em torno de Angela Abar. Basicamente, Manhattan retornou porque sabia que iria se apaixonar por ela – o que explica o motivo pelo qual ele não foi atrás de Laurie Blake -, e juntos construiriam uma família. No entanto, em determinado momento, ele abre mão de seus poderes para se transformar em um humano normal, que toma a forma de Cal Abar, o marido de Angela que conhecíamos até o momento.

Além disso, também nos é explicado tudo o que aconteceu ao Ozymandias – já que ele foi o responsável por ajudar o Manhattan a “reencontrar sua humanidade”. Percebemos que ele está orbitando Júpiter, preso no novo lar construído pelo super-humano azul e tentado a fugir de seu cativeiro, por saber que não pertence mais àquele local.

Curiosamente, mesmo sendo o episódio que traz de volta um dos personagens mais icônicos de Moore e Gibbons, talvez “A God Walks Into Abar” seja o capítulo mais decepcionante e “fraco” da série – por um milhão de motivos, e quase todos relacionados justamente ao Dr. Manhattan.

Desde que a revelação foi feita, na semana passada, defendi com unhas e dentes a ideia de que Manhattan – ou Jon Osterman, se preferir – só queria uma vida humana, após ter passado anos testemunhando seus próprios poderes e criações divinas. De muitas formas, o episódio trabalha isso bem, mostrando como ele construiu uma relação com Angela e como ele abdicou de seus poderes para ter toda a “experiência humana”.

O problema aqui é que a justificativa que amarra essa trama é um pouco furada. Sabemos que Manhattan vive o tempo de uma maneira diferente – ele basicamente consegue viver quase todos os momentos de sua vida de uma maneira simultânea. Contudo, a ideia de que ele viria para a Terra e se apaixonaria por Angela apenas porque “sabia que isso iria acontecer” parece um pouco forçada demais, especialmente para um personagem de seu porte filosófico.

Além disso, o episódio bate tanto nessa tecla do “tempo simultâneo” que acaba não soando orgânico à narrativa. Na HQ, Manhattan realmente fala sobre vivenciar o tempo em outra perspectiva, e realmente cita eventos que não aconteceram ainda ou que são muito enterrados no passado. No entanto, aqui o personagem fala disso em quase todas as suas falas, o que chega a beirar o caricato.

Mas talvez, a pior decisão na construção do personagem seja sua caracterização. Se o filme de Zack Snyder, mesmo com alguns defeitos e mudanças, provou que conseguia criar um ser divino e cheio de potencial, que não era nada semelhante ao homem que ele era antes de ser transformado, a série parece não ligar muito para o visual ou a interpretação. O resultado que vemos é apenas Cal pintado de azul, em vez de uma criatura que vai além da concepção humana.

Para piorar, os efeitos visuais parecem bem decadentes nesse episódio – o que é de surpreender, já que a série sempre trabalhou seu CGI com cautela e apenas quando necessário. Aqui, quando precisávamos ver efeitos à altura, parece que o trabalho foi simplificado, e o resultado é tão artificial que nos faz lembrar imediatamente que isso é um produto fictício, nos tirando de vez de dentro da obra.

A atuação de Yahya Abdul-Mateen II também é outro ponto que precisa ser comentado. O astro já havia nos apresentado Cal de uma maneira carismática e convincente, mas ao se transformar no Dr. Manhattan, ele perde toda seu carisma. A voz do ator também não combina com o personagem, que está longe de ser tão imponente ou surreal quanto é nas HQs.

Isso decepcionou bastante os fãs – e não é à toa que estamos vendo vários memes e piadas na internet, comparando o Manhattan da série ao Lula Molusco bombadão ou aos caras azuis do Blue Man Group, que faziam as propagandas da TIM há uns anos. Mas era de se esperar que a série – que apresentou um trabalho técnico impecável até agora – tivesse mais cuidado na hora de representar o personagem mais icônico da graphic novel. 

Por outro lado, esse foi o episódio que realmente nos fez entender o lado de Adrian Veidt, e como ele é uma peça crucial para essa história. Na verdade, temos até paralelos bem interessantes sobre como Manhattan é um deus que quis abdicar de sua humanidade enquanto Ozymandias aceitou o fardo achando que iria ser uma benção, para logo em seguida ver que se tratava, na verdade, de uma maldição.

Isso cria uma perspectiva melhor para os eventos dos episódios anteriores, especialmente quando todas as sequências envolvendo o Ozymandias já estavam cansando devido à sua repetitividade. Agora, sabemos que Adrian pode estar livre e que ele pode ser uma peça-chave para o futuro que será apresentado no próximo episódio.

No entanto, ainda assim o episódio conseguiu ser um grande balde de água fria nos fãs. Tudo bem que a história segue Angela Abar e é com ela que devemos nos preocupar, mas a participação do Doutor Manhattan era algo que merecia mais impacto, e acabou sendo resumida em um episódio mal-finalizado e com reviravoltas decepcionantes.

A maior prova disso é a cena final do capítulo (antes dos créditos), quando o Manhattan supostamente “morre” para os integrantes da Sétima Kavalaria. A cena é mal-conduzida e ainda descaracteriza o personagem – já que ele poderia muito bem ter evitado a explosão do canhão de táquions, e feito isso com uma devida tranquilidade. É uma pena que nós tenhamos esperado tanto por isso.

No fim das contas, “A God Walks Into Abar” é um episódio agridoce. Por mais que eu ainda defenda que a busca de Manhattan pela humanidade faça sim sentido, é inegável que a série não soube trabalhar isso muito bem e o fez de uma maneira preguiçosa. No fim das contas, o deus foi humanizado – mas o que poderia ter sido uma ótima trama a ser explorada em uma explosão narrativa acabou se dissipando em um sussurro esquecível. Vamos ver se o último episódio da temporada consegue dar a volta nisso.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux