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Damon Lindelof, criador da série Watchmen, fala sobre a abordagem política

Por Gus Fiaux

Watchmen chegou ao fim após nove episódios, com uma temporada cheia de polêmicas e controvérsias, enquanto explorava elementos cruciais da política norte-americana atual. Para muitos, a série abordou questões raciais com brilhantismo –  agora nós sabemos como esse processo se originou.

Em uma entrevista ao GameSpoto criador da série, Damon Lindelof falou sobre como foi trabalhar essas questões raciais e políticas em 2019, e como isso acabou rendendo boicotes por parte de uma parcela da comunidade nerd que não acha que esses assuntos devem ser tratados em uma adaptação de quadrinhos:

“Para que ‘Watchmen’ se mantivesse culturalmente relevante em 2019, precisava haver uma espécie de reflexão na época em que nós vivemos. Essa conversa fascinante irrompeu da série enquanto exibíamos os três ou quatro primeiros episódios, e era uma ideia meio que: ‘Essa série é muito política’. Paralelo a isso, também havia: ‘Como essa série pode se chamar ‘Watchmen’?'”

Ele também falou que, para a história, precisou deixar de lado sua própria visão política, já que a essência de Watchmen é puramente anarquista, criticando a “direita” e a “esquerda” de uma maneira imparcial:

“Mas as minhas próprias políticas pessoais – e eu não escondo o fato de que sou um liberal, e tenho uma mente progressista. Mas ao mesmo tempo, eu acho que a essência de ‘Watchmen’ é anarquista, e precisa zoar com os extremos. Então, você precisa também zoar o extremo liberalismo e o extremo progressivismo.”

Lindelof então explicou como a representação é importante na história – seja através de personagens negros como Angela Abar ou através de supremacistas, como é o caso da Sétima Kavalaria. A partir daí, ele pôde conceber a trama que queria contar:

“Eu acho que representações são uma ótima ideia – seja representações da escravidão ou das reparações históricas para algo como o massacre de Tulsa – isso é uma ideia boa. Eu também entendo que, sempre que as reparações entraram em ação, vimos revoltas virulentas por parte de um largo setor da nossa sociedade. E eu tomo lados? Bem, mais uma vez, eu acho que nós temos um grande problema de supremacia branca nos Estados Unidos. Eu não estou dizendo: ‘Há pessoas boas nos dois lados’. Tendo dito isso, eu estou apenas apresentando o que eu acho que aconteceria se essas reparações fossem aprovadas.”

Por fim, Lindelof também falou sobre como a ideia precisou ser apoiada por outros roteiristas, que pudessem “puxar o freio” dele sempre que fizesse algo errado na representação dos personagens ou dessa questão social:

“O que estamos fazendo – a ideia fundamental que é realmente falada por [Laurie] Blake no quarto episódio – é que há uma causa entre trauma, particularmente trauma infantil, e o uso de máscaras. Agora, vamos pegar essa ideia e fazer esse trauma sobre o que aconteceu com as pessoas de cor na América, porque isso não é falado o suficiente na história americana. Mas, apesar disso ser assim, eu não podia resistir, eu tinha que fazer algo do tipo. Eu estava atraído por isso, e graças a deus muitas pessoas ao meu redor também estavam ali para me prevenir de fazer erros catastróficos. Elas me informaram com sua sabedoria.”

A primeira temporada de Watchmen chegou ao fim e certamente deixou um grande impacto, reacendendo discussões sobre racismo institucionalizado e mostrando um lado mais “sombrio” dos Estados Unidos. Ao longo dos episódios, vimos muito da ideia de um país dividido, uma “guerra civil” interna que existe até os dias de hoje, ainda que não nas mesmas proporções da série.

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Na galeria abaixo, fique com imagens da série:

Watchmen está disponível na HBO GO.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux