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[CRÍTICA] Watchmen e o Relógio do Juízo Final nos dias atuais!

Por Gus Fiaux

No domingo passado, todos pudemos testemunhar o final de Watchmen, da HBO. Projetada como uma minissérie, a trama se passa em 2019, mais de trinta anos após a conclusão da graphic novel original. A história então segue Angela Abar, uma policial conhecida como Irmã Noite. 

Ao longo da trama, o passado e o presente se encontram conforme uma grande ameaça paira no horizonte, tomando a forma da Sétima Kavalaria, uma organização supremacista “inspirada” pelos diários de Rorschach. A série não saiu da boca do povo nos últimos dias, e agora você pode conferir nossa crítica da primeira temporada!

Créditos: HBO

Watchmen e o Relógio do Juízo Final nos dias atuais!

Poucas obras dos quadrinhos possuem uma importância e uma influência tão grandes quanto Watchmen. graphic novel original de Alan Moore Dave Gibbons é uma das histórias mais impressionantes de todos os tempos, que usa os próprios super-heróis para desconstruir suas histórias, em uma atmosfera muito mais perigosa e realista do que estamos habituados a ler na Marvel e na DC.

Considerada inadaptável por muitas, essa obra fez sua primeira incursão fora dos quadrinhos em 2009, no filme dirigido por Zack Snyder. Apesar de ser amado pelos fãs, pela transcrição fiel de alguns elementos visuais, a obra é criticada por muitos por deturpar e esvaziar o significado de algumas das críticas propostas por Gibbons e Moore. No fim das contas, é um público difícil de se agradar.

O próprio Moore se distanciou de qualquer adaptação, reinterpretação e sequência de sua obra – motivo pelo qual ele sequer é creditado em quadrinhos como Antes de Watchmen e a recente Relógio do Juízo Final. Ainda assim, esse é um osso que a DC e a Warner não querem largar tão cedo – e agora, nós temos uma série da HBO que serve como uma espécie de “continuação direta” da obra original.

Porém, o que distancia todas essas adaptações e continuações é justamente a proposta narrativa. Se os quadrinhos recente e o filme propõem uma visão mais “heroica” da obra nada-heroica de Moore, a série da HBO, produzida por Damon Lindelof, busca trazer o mesmo espírito da graphic novel, adaptada para um universo contemporâneo.

A história começa em 2019, no mesmo universo em que Ozymandias forjou um ataque alienígena para impedir uma nova guerra mundial. No entanto, em vez de uma trama gigantesca, a nova versão de Watchmen prima pelo intimista, dando foco na vida de Angela Abar, uma detetive da polícia de Tulsa, em Oklahoma, que como todos os seus colegas de trabalho, usa uma identidade de vigilante.

Vestida como a Irmã Noite, ela é o centro de uma conspiração envolvendo a ascensão da Sétima Kavalaria, supremacistas raciais que querem exterminar “tornar a América ótima de novo”. Tudo isso só piora quando o chefe da delegacia onde Angela trabalha, Judd Crawford, é assassinado por um homem que alega ser avô da policial. Parece muito, mas essa é apenas a sinopse do primeiro episódio.

Desde o início, Damon Lindelof e sua equipe de roteiristas acertaram em cheio ao propor uma trama “menor” e mais intimista. Verdade seja dita, seria uma burrice tentar se equiparar à escala monumental da obra original – no entanto, isso não significa que a série não tome riscos na hora de elevar sua história a algo maior que o convencional.

Para muitos, a abordagem política e racial pode parecer fora de lugar dentro do contexto da mitologia da série, mas em uma época onde tensões sociais são o início de confrontos ideológicos e políticos, Watchmen faz o que sabe fazer de melhor, usando super-heróis e super-vigilantes para comentar questões pertinentes à sua época. Se o medo nos anos 80 era uma guerra nuclear, o medo em 2019 (e em boa parte da história ocidental) para pessoas negras é justamente o racismo.

Porém, isso não significa que a nova série ignore as consequências ou os personagens já estabelecidos por Moore e Gibbons. Ao longo da trama, contamos com o retorno de Laurie Blake (ex-Espectral II), de Adrian Veidt (Ozymandias) e do Dr. Manhattan, uma das grandes “surpresas” deixadas para o final da temporada. Até o Rorschach tem uma presença, mesmo estando morto há trinta anos.

Porém, o que torna a história coesa e direta ao ponto é justamente como sabe balancear os aspectos “originais” com sua “nova geração” sem abrir mão de um para valorizar outro. No fim das contas, todas as engrenagens desse relógio giram em torno de Angela, que é a nova protagonista, mas os demais personagens possuem seus próprios arcos individuais e motivações.

A escolha de elenco foi certeira na produção da HBO. Regina King – que, diga-se de passagem, ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo papel em Se a Rua Beale Falasse – se entrega completamente ao papel da Irmã Noite, trazendo uma naturalidade brutal para o papel, mostrando o lado menos “glamouroso” da vida de uma heroína.

O elenco coadjuvante também não decepciona. Jean Smart brilha com diversas cenas ácidas no papel de Laurie Blake, enquanto Yahya Abdul-Mateen II explora as diversas facetas do Dr. Manhattan, seja em sua versão mais “humana” ou até mesmo na divindade que vivencia o tempo de modo simultâneo, vendo elementos de seu passado, presente e futuro ao mesmo tempo.

Contudo, a narrativa também abre espaço para a inclusão de outros personagens que ganham força conforme a história caminha para sua imprevisível conclusão. Os maiores destaques aqui são a astuta Lady Trieu (Hong Chau), uma mulher muito inteligente – e igualmente narcisista – e o Espelho (Tim Blake Nelson), um policial que se destaca por seu envolvimento na trama de Angela.

A história navega por águas misteriosas, entregando mais perguntas que respostas até seus dois últimos episódios – o que é um testamento ao legado da graphic novel, que também construía seus mistérios de uma forma bem mais… enigmática. E no meio dos nove episódios da temporada, temos momentos de brilhantismo, como o excelente sexto episódio que desmistifica toda a história do Justiça Encapuzada.

Infelizmente, o final apresenta alguns defeitos que poderiam facilmente ter sido evitados, seja pela correria narrativa do último episódio ou o desvio súbito de foco que tira a Sétima Kavalaria do posto de “principal ameaça” para dar lugar a outra figura que, até então, não estava sendo construída para isso. São desvios pequenos, mas que poderiam ser corrigidos por pequenas mudanças de roteiro.

Tecnicamente, no entanto, a série é quase perfeita. A fotografia é refinada e não lembra em nada as outras produções de super-heróis que temos na televisão atualmente. A trilha sonora é um espetáculo à parte, acompanhando a história de uma maneira muito rebuscada. A direção de arte também não poupa detalhes, criando um universo realista e, ao mesmo tempo, fantástico.

Aliás, até mesmo algumas decisões de figurino remetem ao trabalho excelente que Dave Gibbons fez na obra original. Em vez de visuais heroicos e imponentes, a série não teme em abraçar o ridículo, satirizando os super-heróis com um olhar crítico – mesmo no traje da própria Irmã Noite, que traz vários elementos caricatos.

Infelizmente, muitos fãs sentiram uma queda na qualidade dos dois últimos episódios, e ela de fato existe – seja na caracterização do Dr. Manhattan, ainda que esta seja justificada pelo roteiro, ou até mesmo pelo uso dos efeitos visuais, que acabam soando falsos e deslocados em um universo tão tangível.

Ainda assim, Watchmen é uma série como poucas na televisão. Uma das maiores surpresas (positivas) de 2019, a produção da HBO acerta todas as notas na hora de compor uma história sobre super-heróis vivendo em um mundo contemporâneo e super-político. É uma jornada incansável e cheia de reviravoltas, das quais a maioria é excelente.

Usando personagens clássicos e novos para contar uma história muito pertinente à sociedade atual, a superprodução comandada por Damon Lindelof é, provavelmente, o melhor lançamento da DC Comics no ano, provando como o universo de Watchmen é rico e ainda pode ser muito explorado, seja através de personagens clássicos ou de novos rostos.

Ainda não sabemos se a minissérie será transformada em série com o advento de uma segunda temporada, mas é recompensador por si só ver uma história com começo, meio e fim, que está disposta a arriscar e trazer os heróis para um novo gênero. Seja em honra à Alan Moore e Dave Gibbons, seja em honra ao clima mundial atual, a série fez o que a graphic novel fez de melhor, contando os dias para o Dia do Juízo Final. 

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Na galeria abaixo, fique com imagens da série:

Watchmen está disponível na HBO GO.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux