Tokyo Revengers: Entenda a grande polêmica envolvendo o anime

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Tokyo Revengers: Entenda a grande polêmica envolvendo o anime

Por Márcio Jangarélli

Entra ano, sai ano, e sempre há uma nova grande potência no mundo dos animes para balançar as coisas, certo? Em 2021 – pelo menos até o momento – a animação da vez é Tokyo Revengers, adaptação do mangá de Ken Wakui sobre delinquentes japoneses e viagem no tempo.

Tokyo Revengers estreou em abril de 2021, possui uma animação bacana, um plot curioso, personagens carismáticos, já conta com mais de 20 episódios e arrebatou as audiências. Mas… toda a obra está envolvida com uma polêmica espinhosa sobre o uso do manji, símbolo também conhecido como “suástica budista”.

Nesse meio tempo em que ganhou popularidade ocidental, muito se falou sobre o caso. Tokyo Revengers foi acusado de fazer alusão ao nazismo e o anime foi censurado para exibição fora do Japão, tirando o manji de cena.

Para tentar elucidar esse vespeiro todo, preparei esse texto para explicar melhor o caso de Tokyo Revengers, falar um pouco sobre o manji e seu uso no Japão e Ásia e comentar o caso de censura. 

São questões extremamente delicadas, então venham comigo, mas venham com calma para não perder nada.

O que significa o símbolo de Tokyo Revengers?

O uso do manji no anime e no mangá não é nada sutil

Antes de tudo, é importante saber sobre o que se trata o anime. Em Tokyo Revengers, acompanhamos Takemichi Hanagaki, um rapaz de 26 anos que leva uma vida “fracassada” e, por algum motivo, acaba voltando doze anos no tempo quando sofre um acidente. De volta às suas épocas de rebelde adolescente, Takemichi se junta à Tokyo Manji Gang para tentar evitar um futuro desastroso.

A Tokyo Manji Gang – apelidada de Toman – é o núcleo de Tokyo Revengers. É uma gangue formada por aqueles delinquentes de anime que a gente ama, todos adolescentes com cara de adulto, motorizados e com fome de briga e glória. Mas eles são desordeiros “bonzinhos”, que possuem limites, regras e estão em busca de um estilo de vida livre. Isso reflete nos membros do grupo, seu estilo e no nome.

O manji é o símbolo da gangue e faz parte do seu nome. O problema é que manji é o japonês para a suástica, signo marcado na memória mundial, especialmente ocidental, por ser usado como ícone do partido nazista alemão. Ele tem algumas diferenças em design da “versão” nazista, possui um significado completamente distinto e milenar, mas o símbolo, em si, é o mesmo.

O manji vai literalmente no meio do nome da gangue e está em toda parte

Para a Tokyo Manji Gang, o símbolo carrega o significado original, que fala sobre boa sorte e prosperidade – algo que o grupo emprega, de certa forma, em seu dia a dia, com reuniões feitas em um templo budista e levando uma vida de gangue mais “leve” e livre. Mas, para qualquer desavisado, basta um olhar para imaginar que essa é uma história sobre um grupo de jovens neonazi.

Enquanto no Japão e Ásia o manji, ou suástica, significa algo positivo, divino e ainda hoje é visto e usado dessa maneira, no ocidente o signo foi roubado e deturpado para representar um grupo e ideologia hediondos. É até irônico pensar que pessoas que prezavam tanto por uma “raça pura” se apossaram de um símbolo estrangeiro para ressignificá-lo. Irônico e triste.

O que significa o símbolo manji?

O manji está até mesmo na estrutura dos templos budistas

É aqui que a coisa fica complexa. Tokyo Revengers deixa muito claro o significado do manji para o grupo e para a cultura local. Ninguém toca no assunto nazismo, mesmo com a gangue balançando sua bandeira gigante, estampada com a suástica, em pleno centro de Shibuya. Eles se encontram num templo, possuem ideais ligados ao budismo e a história fala sobre retribuição, karma e ciclos

Historicamente, a suástica, o manji, é um símbolo milenar, muito anterior ao nazismo sequer ter suas raízes podres plantadas. Não só isso, mas é um signo que existiu em religiões e crenças orientais e ocidentais. Atualmente, é algo proeminente apenas no Budismo e no Hinduísmo, principalmente por conta do impacto da Segunda Guerra na cultura ocidental.

Como um signo divino, usado por religiões e diferentes crenças, o manji possui um valor positivo. A palavra “suástica” vem do sânscrito स्वस्तिक, que pode ser traduzido como “talismã”. É um símbolo de boa sorte, bom agouro — o oposto do que representa no ocidente pós-guerra.

O manji virou febre e meme entre adolescentes japoneses nos últimos anos (via Kotaku)

Um fato engraçado é que recentemente, no Japão, o manji também virou uma espécie de meme/gíria entre os adolescentes. Eles começaram a usar o símbolo em vídeos de maquiagem e moda, em passos de dança e para falar sobre coisas empolgantes, de alto nível – entre outros significados que a diferença cultural e de idade me impedem de entender.

No Japão, você pode encontrar o manji estampado em paredes, portas e instrumentos dos templos, em roupas, amuletos e todo tipo de coisa. Por conta da influência ocidental, o uso, hoje, é mais restrito aos locais ligados à religião.

Além disso, o manji era usado, até pouco tempo atrás, em mapas japoneses para sinalizar templos – inclusive no Google Maps. Isso foi mudado nos últimos anos, especialmente por conta das Olimpíadas de Tóquio, para evitar essa mesma confusão com o símbolo nazista.

Mapa de Kyoto com manjis indicando templos (via Tofugu)

Tudo isso serve como evidência de que, ainda que cause estranheza ver esse símbolo de maneira tão descarada em Tokyo Revengers, o significado dele ali é outro. Olhar para isso apenas com o nosso senso ocidental de mundo e classificar a obra como odiosa ou nazista não é só errado, como beira o xenofóbico.

Na cultura dos criadores da obra que estamos consumindo, o manji, a suástica, possui outras cores. Para eles, é um símbolo que não machuca ninguém e deseja prosperidade.

A censura de Tokyo Revengers

Que tal um flare para tapar o manji no traje dos líderes da Toman?

Você foi poupado de ver a suástica se assistiu o anime pela Crunchyroll. Para transmissões fora do Japão, Tokyo Revengers foi editado para tentar eliminar o manji ao máximo da animação. 

Não foi o melhor dos trabalhos, você acaba topando com cenas estranhas, bandeiras vazias, zooms e luzes inesperadas, mas não é algo que atrapalha. A gangue continua se chamando Tokyo Manji Gang, só não vemos o símbolo.

Essa não é a primeira vez que a suástica é eliminada de um anime ou mangá. O manji já foi usado em vários títulos, carregando o sentido budista do signo, mas foi editado para o mercado ocidental e causou polêmicas muito parecidas.

A bandeira original do Barba Branca possui um manji – inclusive na tatuagem do Ace

Alguns exemplos famosos são o do selo amaldiçoado na testa do Neji, em Naruto, ou a bandeira do Barba Branca tatuada nas costas do Ace, em One Piece. Nesses casos, como era algo impossível de ser apagado sem impacto, os símbolos foram substituídos: um X no selo do Neji e a cruz de ossos na tatuagem do Ace.

No entanto, em Tokyo Revengers, o manji está em toda parte. Literalmente. Esses são jovens delinquentes que gostam muito de aparecer e essa é a marca da gangue. Então ela está nas roupas, na bandeira, nas motos, pichada na parede, no logo do anime, nas capas dos volumes do mangá… enfim, em toda parte.

Pessoalmente, ainda que defenda a liberdade da obra e do símbolo para o público asiático, eu não consegui ler o mangá por isso. A suástica é um signo cujo valor negativo e hediondo aprendemos desde cedo. É quase impossível que esse excesso do mangá de Tokyo Revengers não cause estranheza e repulsa no público ocidental. É praticamente natural.

O selo na testa do Neji também carregava um manji

Assim, acredito na liberdade da obra e do símbolo para o público asiático, mas defendo a edição ocidental no anime. Ela não prejudica a animação, só poupa parte do público de uma experiência desagradável.

Vivemos em tempos perigosos e violentos, de levante de grupos neonazistas, e essa brecha não pode existir. Deve demorar muito ainda para que a suástica possa passar por um processo de “desintoxicação” no ocidente, se é que isso algum dia vai acontecer.

Portanto, se você está em busca de um anime com protagonistas levemente delinquentes, com mistério, drama, humor e lutas legais, Tokyo Revengers é uma boa pedida. Nada de nazismo, somente espiritualidade mal compreendida. O mangá, no entanto, é mais difícil de digerir.

O que você acha desse caso? Já conhece Tokyo Revengers? Não esqueça de comentar!

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Textos de apoio: Kotaku¹, Kotaku², Tofugu

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sobre o autor Márcio Jangarélli

Assessor, redator e jornalista. Madonna de Jakku.