[Indie+ #4] Inscryption, Sable e os jogos indie indicados ao Game Awards 2021

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[Indie+ #4] Inscryption, Sable e os jogos indie indicados ao Game Awards 2021

Por Arthur Eloi

Mais um final de ano, mais uma edição do Game Awards! A premiação fecha 2021 com chave de ouro, em uma noite repleta de anúncios, momentos divertidos e, claro, celebração dos jogos que brilharam no ano.

A cerimônia não costuma decepcionar quando se trata de entretenimento, tanto pela bizarrice quanto por trailers verdadeiramente empolgantes. Já o lado do prêmio é sempre questionável, visto que apenas a categoria final de Jogo do Ano costuma ser valorizada, além de escolhas duvidosas em toda a lista de troféus. É só observar, por exemplo, as duas categorias de jogos indie.

Os troféus de Melhor Indie e Melhor Estreia em Jogo Indie são polêmicos há alguns anos. Muito disso se dá pela categorização do que faz um jogo independente, visto que muitos dos indicados contam com apoio de grandes publishers, como é o caso de Kena: Bridge of Spirits, que contou com apoio da PlayStation como um dos grandes lançamentos do ano, ou então o fato de que três dos cinco indicados na categoria indie principal foram publicados pela Devolver Digital.

Nomes como Twelve Minutes, que foram bastante divisivos entre o público e crítica (além de ser financiado pelo braço interativo da Annapurna, estúdio de cinema a la A24), também chamam a atenção, ainda mais quando títulos de peso como Unsighted são completamente ignorados pela premiação. Indicações do Game Awards sempre foram duvidosas, mas isso se destaca ainda mais para quem acompanha a cena independente. De qualquer forma, com a cerimônia batendo na porta, isso é assunto para uma outra edição da Indie+.

Dessa vez, para você finalizar o seu bolão antes da premiação, damos um rápido panorama por cima de alguns dos indicados nas duas categorias!

Kena: Bridge of Spirits

Indicado em ambas as categorias indie, além de também estar incluso na lista de Melhor Direção de Arte, Kena: Bridge of Spirits é o destaque do nicho no Game Awards 2021. O game, lançado para PC, PS4 e PS5, acompanha a jornada de uma jovem responsável por transportar as almas dos recém-falecidos para o mundo dos mortos.

Na review do Detonado!, nossa editora Melissa de Viveiros aponta o título como um forte começo para o estúdio Ember Lab, cheio de boas ideias, criaturas fofas e visuais impressionantes, mas que não é bem desenvolvido ou aproveitado. Nas palavras da nossa editora:

A melhor maneira de resumir Kena é “cheio de potencial”. Há muito de promissor no título, que apresenta a base de um jogo que poderia ser fantástico, mas não consegue realizar o que se propõe a fazer com maestria. Embora acerte em contar uma história sucinta e coesa, a narrativa falha ao não deixar que a protagonista tenha sua história contada, tirando propósito e peso de sua jornada. […] A base está ali, mas falta algo para que o jogo realmente emocione.

 

O mesmo acontece com a jogabilidade. Apesar de conseguir ser variada e divertida, tanto em combate quanto ao resolver quebra-cabeças, ela falha com sua curva de dificuldade flutuante e elementos frustrantes sem propósito, como a falta de marcação de certos elementos no mapa.

NOTA: 7,5/10

Leia aqui a review completa de Kena: Bridge of Spirits.

Inscryption
por Lucas Rafael

Inscryption é descrito como “uma carta de amor enigmática e autodestrutiva aos videogames“. É uma descrição sucinta que encapsula muito bem o novo jogo de Daniel Mullins (criador de Pony Island e The Hex).

Inscryption começa com uma atmosfera soturna, mas aconchegante. Você joga cartas diante de um par de olhos suspeitos. Você e seu oponente estão numa cabana rústica, cheia de adornos esquisitos. O jogo que vocês disputam é tão esquisito quanto esses adornos: você sacrifica cartas que representam animais para poder jogar cartas de outros animais mais fortes e arrancar pontos de vida do seu oponente, ilustrados por pesinhos numa balança.

Conforme o jogo avança, você pode optar por arrancar seus dentes – ou até quem sabe seu olho – e pôr na balança adversária durante uma partida difícil. Um jeitinho Jogos Mortais de “trapacear” e fazer a balança pender ao seu favor.

As coisas vão ficando gradativamente mais macabras, especialmente quando fica evidente que o seu personagem não está naquela cabana por livre e espontânea vontade. Logo fica claro que você é um refém. Um de muitos que já passaram por ali. Toda vez que o seu oponente sombrio te derrota, ele tira uma foto sua e te aprisiona numa carta (que você pode até encontrar depois e usar no seu baralho).

Conforme você avança nas partidas (e cada uma delas é cuidadosamente tecida para te ensinar novas jogadas, tipos de cartas e eventos especiais do jogo) você irá enfrentar chefes com visuais distintos que alteram as regras de Inscryption para complicar a sua vida.

Quando as mecânicas clicam e você sente que possui um domínio do jogo, ele dá um 180 e subverte os próprios pilares de exploração e narrativa. Se você já jogou algo de Mullins anteriormente, sabe que o cara gosta de surtar em meta-comentários sagazes e surpresas que deixam o jogador meio estarrecido encarando a tela do PC. Nesse sentido, Inscryption carrega com muito orgulho todo o DNA do trabalho de Mullins até aqui, sendo uma espécie de culminação das ideias do cara. É uma jornada muito da louca na forma de um roguelike de cartas.

Em muitas análises de games (ou até filmes) meio diferentões, existe um trecho onde o jornalista aponta que “falar mais do que isso pode estragar a experiência” ou “é melhor você entrar nessa sem saber muita coisa“. Inscryption é um desses jogos. É melhor você jogá-lo sem saber muita coisa mesmo. Se eu falar demais, a surpresa no mínimo perde parte de sua potência.

Aqui eu volto a puxar o resumo do jogo na Steam: “Inscryption é uma carta de amor enigmática e autodestrutiva aos videogames”. Isso é tudo que você precisa saber: existe muito amor palpável do desenvolvedor transbordando por cada poro do game. É também um jogo que de fato se auto-destrói e puxa o seu tapete em diversos momentos.

A indicação ao Game Awards não é à toa. Jogue Inscryption.

NOTA: 10/10

Twelve Minutes

A obra do desenvolvedor português Luis Antônio concorre na categoria de Melhor Indie, e chama bastante atenção pelos nomes envolvidos no projeto.

Com visão isométrica, o game é estrelado por James McAvoy (X-Men, Fragmentado) e Daisy Ridley (Star Wars) como um casal comum, cuja noite é arruinada quando um policial violento (com voz de Willem Dafoe, de Homem-Aranha e O Farol) invade o apartamento deles e mata a esposa. O protagonista então se vê preso em um loop temporal, constantemente revivendo esses 12 minutos de violência até encontrar uma solução.

O game, que abriu a primeira edição da Indie+, é bastante morno e decepcionante, com escolhas altamente duvidosas no tom, no ritmo e nas mecânicas, além de um estranho gosto por situações de violência contra a mulher. Confira um trecho da nossa review, escrita por Arthur Eloi:

Twelve Minutes é limitado demais em sua inventividade mecânica e narrativa para atender o seu enorme potencial. Na era em que as mídias se misturam cada vez mais, parece que o desenvolvedor Luis Antonio se deixou levar pela estética prestigiada do cinema, trabalhando na ideia de construir um thriller refinado com astros de peso.

 

Isso fica visível até no fato de que apenas o roteirista é creditado como criador, tentando emplacar nos games uma abordagem de obra autoral que deixa de lado o esforço dos programadores, designers e artistas envolvidos. Nessa visão de alcançar o cinema, ou pelo menos uma intensa peça de teatro, um game design mais aprofundado ficou de escanteio – e apenas demonstrou sua importância através da ausência. Sem essa base sólida e reforçada, tudo ruiu, e cabe a cada jogador encontrar algo de valor para salvar dos escombros.

NOTA: 6.5/10

Leia aqui nossa review completa de Twelve Minutes

Death’s Door

O estúdio britânico Acid Nerve tem menos de dez desenvolvedores, mas Death’s Door consegue bater de frente com muito blockbuster por aí. O título, publicado pela Devolver Digital, acompanha um corvo ceifador, responsável por coletar a alma dos mortos. Durante uma missão, ele se vê arrastado para o centro de uma conspiração, que lhe faz questionar as intenções da instituição para qual trabalha.

Inspirado tanto por The Legend of Zelda quanto por Dark Souls, é um game repleto de melancolia em um mundo marcado pela morte, mas que também conquista pelo charme e carisma de seus personagens, pelos seus ambientes maravilhosos, e uma trilha sonora de arrepiar. Nas palavras da review do Detonado!, escrita por Arthur Eloi:

Feito com uma equipe minúscula de apenas oito desenvolvedores, Death’s Door é uma aventura gigantesca. Seja na jogabilidade satisfatória e desafiadora, no design marcante dos mundos e dos personagens, ou então na temática melancólica, muito bem acompanhada pela trilha sonora de David Fenn (que também é produtor e designer), o game já merece espaço entre os melhores de 2021 por entregar uma experiência completa.

 

A Acid Nerve demonstra ser capaz de cumprir suas enormes ambições, e se torna um dos estúdios que vale a pena ficar de olho. Ora tocante, ora divertido, e sempre satisfatório, Death’s Door é algo verdadeiramente memorável.

NOTA: 9/10

Leia aqui nossa review completa de Death’s Door

Sable
por Arthur Eloi

Parte do apelo de jogos indie é a liberdade para poder explorar temáticas, mecânicas e sensibilidades além dos excessos dos blockbusters. Com estúdios pequenos ou até equipes de algumas pessoas, as limitações de tempo e orçamento forçam os desenvolvedores independentes a pensar fora da caixa, mesmo quando estão usando jogos Triple A como inspiração.

Sable é um excelente exemplo disso. O trabalho que inaugura o estúdio Shedworks, feito pelos ingleses Daniel Fineberg e Gregorios Kythreotis, chama a atenção desde que foi anunciado em 2018, e não esconde partir de um fascínio com o mundo de Legend of Zelda: Breath of the Wild. A dupla, porém, dilui a aventura da Nintendo em uma experiência mais meditativa e melancólica.

Ambientado em um mundo em que povos do deserto, templos antigos e máquinas futuristas coexistem sob o mesmo sol escaldante, a trama segue a jovem chamada Sable, que enfim atinge a idade para passar por um importante rito de transição para a vida adulta. O processo, porém, precisa ser enfrentado sozinha, portanto ela passa a cruzar o deserto em busca de conhecer o mundo, os outros e a si própria.

Logo de cara, o game impressiona por seu visual de cair o queixo. Com estilo que parece ter saltado direto de um quadrinho do francês Moebius, o mundo de Sable é marcado por traços fortes, paisagens exóticas e cores vivas. Caminhar por um deserto, um templo hi-tech ou uma vila de nômades é igualmente prazeroso, e a vontade é simplesmente escalar montanhas para admirar a paisagem.

Para fechar essa atmosfera relaxada com chave de ouro, vem a trilha sonora assinada pelo Japanese Breakfast, grupo de indie rock queridinho dos cults. Seus sintetizadores leves e vocais macios dão um gostinho de sci-fi para a experiência, que enfatiza a inocência e a curiosidade da protagonista. Logo na abertura, pouco após o tutorial quando Sable parte sozinha rumo ao mundo, a música tema “Glider” começa a tocar enquanto o jogador vê o vasto e colorido deserto pela primeira vez, em um momento muito difícil de não se emocionar.

É um jogo feito sob medida para exploradores. Ainda que utilize técnicas e o charme de Breath of the Wild, Sable deixa o combate de fora, e pede apenas que o jogador escale, caminhe e converse com os outros. De certa forma, soa como uma mistura muito agradável entre o game da Nintendo e Journey, onde sua relação com esse mundo não é heróica (no sentido videogamístico da palavra) e nem violenta.

Sable é só mais uma nômade tentando se encontrar pelas dunas e montanhas, com única companheira uma moto futurista que o próprio jogador constrói durante os momentos iniciais. Através de reflexões, a ansiedade da protagonista é muito similar à de todo jovem, que é confrontado pelo desafio de achar sua identidade, sua família estendida, seus meios de sobrevivência e suas preferências em meio a um mundo igualmente intrigante e assustador. O jogo mais parece uma versão jovem (e interativa) de Nomadland, cujo objetivo é, assim como no filme de Chloe Zhao, descobrir o significado do Eu, da vivência e da comunidade pela estrada afora.

Os textos do game, seja na descrição dos gestos e dos pensamentos da personagem, ou então nos vários diálogos com NPCs, são alguns dos melhores já escritos, com sensibilidade e sabedoria que normalmente não são encontrados em jogos. Nesse aspecto, se torna uma verdadeira lástima que o game não tenha tradução, o que pode servir como barreira para muita gente – especialmente os gamers mais novos que mais se beneficiariam de partir nessa jornada ao lado de Sable.

Sable até destoa entre os demais indicados na categoria de Melhor Indie do Game Awards, por entregar uma experiência que se inspira em outros jogos, mas que não quer se conformar com os tropos e as dinâmicas de um videogame. Seu propósito não é ser vencido ou dominado, mas sim apreciado e entendido. Nesse final de 2021, um ano marcado pelo caos e incerteza, e também em uma sequência de lançamentos blockbuster bombásticos e frenéticos, o game é o tão necessário porto-seguro que oferece descanso, autoconhecimento e mundos memoráveis.

NOTA: 9/10

The Artful Escape

por Gabriel Mattos

Seguindo o mesmo princípio de Sable, The Artful Escape é outro jogo independente que renega o lado megalomaníaco dos games de grande orçamento para colocar o foco na mensagem que ele deseja explorar. Assim como Encanto, o título traz um poderoso uso da música como alegoria para expectativas sociais, que é reforçado por todos os diálogos filosóficos que surgem com uma necessária, mas inconveniente cutucada no questionamento do que nos leva a aceitar as prisões que os outros criam para nós. Profundo, não?

A abordagem intimista funciona tão bem graças a um gritante contraste com o seu visual exuberante e esotérico. Enquanto a narrativa nos leva a explorar as profundezas da nossa essência, a direção de arte nos guia pelas áreas mais absurdas do infinito e além, trazendo paisagens belíssimas de oásis espaciais e outras locações que existem fora do conceito de realidade.

Há um uso sutil da música como mecânica para interagir com o cenário, mas não é nada que revolucione a indústria. Apesar de flertar com o gênero de plataforma e de jogos musicais, o título nunca se compromete a entregar uma jogabilidade muito elaborada em nenhum desses ramos. Afinal, o grande foco da experiência não está em quebrar recordes de memória musical ou executar manobras ousadas em plataformas mínimas, mas sim nas reflexões que surgem da dinâmica entre narrativa e interação, algo que o jogo consegue desenvolver com maestria, de forma muito poderosa.

Combinando tudo isso com uma excelente atuação dos dubladores, The Artful Escape tem o potencial de se tornar uma experiência verdadeiramente revolucionária para seus jogadores, capaz de mergulhar em diversos dilemas que podem afligir um jovem adulto — sejam dúvidas quanto a questões de gênero, que carreira seguir ou que papel assumir diante da sociedade. Sem fugir muito de sua proposta, o título é um dos jogos indies mais competentes do ano, que mereceu completamente suas três indicações no The Game Awards 2021.

NOTA: 8.5/10

A cerimônia de premiação do Game Awards 2021 acontece hoje, dia 9 de dezembro, às 22h. Fique ligado na Legião dos Heróis para cobertura completa do evento, os anúncios e os vencedores de todas as categorias!

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sobre o autor Arthur Eloi

Repórter entusiasta de filmes ruins, jogos de tiro e de horror em todas as suas formas. Dá notas duvidosas para obras questionáveis • @ArthurEloi117