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[INDIE+ #1] Sem querer, Twelve Minutes acerta na frustração de estar em um loop temporal

Por Arthur Eloi

No mundo dos projetos feitos por desenvolvedores solo ou por pequenos estúdios, a Annapurna Interactive conquistou uma reputação de ser praticamente a A24 dos games. Assim como distribuidora responsável por filmes como A Bruxa (2015), Hereditário (2018), Joias Brutas (2019) e muitos outros, a publisher montou um impressionante portfólio de experiências divertidas, artísticas, emocionais e diferenciadas do restante da indústria.

Essa comparação ganhou ainda mais força com Twelve Minutes, um game narrativo do desenvolvedor português Luis Antonio que reuniu os talentos de voz de Willem Dafoe (O Farol), James McAvoy (X-Men, Fragmentado) e Daisy Ridley (Star Wars). O resultado, porém, não fica a altura do impressionante elenco.

Twelve Minutes acompanha o pior dia na vida de um homem (com voz de James McAvoy). Ele chega em casa, se senta para comer um doce com sua esposa (Daisy Ridley) e descobre que, em breve, será pai. Em 10 minutos, porém, tudo muda quando recebe a visita de um policial (Willem Dafoe), que acusa sua esposa de assassinar o próprio pai. Depois de render o casal, o policial então sufoca o homem – mas ao invés de morrer, o protagonista se vê de volta à porta de casa. Está preso em um loop temporal, e cabe ao jogador entender o que é preciso para pular fora dessa situação.

De início, a mecânica é bastante intrigante. Com estilo de point-and-click em perspectiva isométrica, é possível explorar alternativas pelo cenário ou em diálogos a cada novo loop, cutucando os limites dessa situação tão sobrenatural. Mas o encanto dura pouco. Após reiniciar algumas vezes, o jogador passa a bater de cara com inúmeras “barreiras invisíveis”, verdadeiros becos narrativos sem saída.

O visual de encher os olhos ameniza um jogo bastante frustrante em suas mecânicas

Há muitas soluções que poderiam trazer consequências muito interessantes a serem desenvolvidas, mas que são podadas pela raiz antes que possam florescer, o que revelam as limitações técnicas de construir uma trama do tipo. Qualquer um que já foi mestre de uma mesa de RPG sabe o inferno logístico que a narrativa pode se tornar pela liberdade de escolha dos jogadores, mas quando o player percebe as amarras e os corredores, isso é um forte sinal de design ruim. Há frequentes situações em que é possível imaginar respostas palpáveis e realistas, mas que se tornam experimentos frustrantes de tentar acertar como o jogo quer exatamente que tudo seja resolvido.

Claro, a temática de loop temporal casa perfeitamente com a ideia de tentativa-e-erro, mas as soluções se tornam tão específicas em dado momento que a experiência fica frustrante. Não é à toa que filmes sobre o assunto, de Feitiço do Tempo (1993) à A Morte Te Dá Parabéns (2017), costumam retratar esse momento de experimentação em divertidas montagens rápidas. Sentir isso na prática já não é tão legal assim.

Viver isso na pele não é tão divertido quanto a cena acima de A Morte Te Dá Parabéns 2, acredite

Não ajuda também o teor de muitas das decisões necessárias para avançar na narrativa. O desenvolvimento dos personagens (que sequer têm nomes) é morno no geral, mas há certo sadismo quando se trata da Esposa. Ainda que seja a figura central de toda a trama, ela é a que menos cresce, servindo apenas como plano de fundo para o protagonista – que também não vai muito longe. É um pouco surpreendente que toda a existência da Esposa nesse conto seja para algum fim violento.

É preocupante que a Esposa parece existir em Twelve Minutes apenas para ser violentada de alguma forma

Ela é torturada pelo Policial em algumas rotas com fortes socos na cara quando já está imobilizada no chão, ou então é assassinada para forjar um suicídio. Em outras, o jogador pode optar por esfaqueá-la. Mas é ainda mais preocupante que um dos caminhos principais para prosseguir envolve lhe dar um “Boa Noite Cinderela” – como a própria chama o ato, caso pegue o jogador no pulo. Drogada, esfaqueada, ou violentada: a Esposa só existe em Twelve Minutes como vítima.

Por si só, o conceito de transformar violência contra a mulher em mecânica é altamente repudiável, e o mistério que supostamente justifica isso tudo não ajuda em nada. Na verdade, a grande reviravolta do game beira o ridículo de tão fraca. Juntos, esses dois elementos deixam um gosto amargo em toda a experiência. Há muita coisa que compensa, como as ótimas atuações do elenco (afinal, todos são extremamente talentosos), ou a tocante trilha sonora de Neil Bones. A direção de arte também é espetacular, fazendo com que os poucos cenários e personagens mundanos encham os olhos.

NOTA: 6.5/10

Twelve Minutes é limitado demais em sua inventividade mecânica e narrativa para atender o seu enorme potencial. Na era em que as mídias se misturam cada vez mais, parece que o desenvolvedor Luis Antonio se deixou levar pela estética prestigiada do cinema, trabalhando na ideia de construir um thriller refinado com astros de peso.

 

Isso fica visível até no fato de que apenas o roteirista é creditado como criador, tentando emplacar nos games uma abordagem de obra autoral que deixa de lado o esforço dos programadores, designers e artistas envolvidos. Nessa visão de alcançar o cinema, ou pelo menos uma intensa peça de teatro, um game design mais aprofundado ficou de escanteio – e apenas demonstrou sua importância através da ausência. Sem essa base sólida e reforçada, tudo ruiu, e cabe a cada jogador encontrar algo de valor para salvar dos escombros.

Twelve Minutes está disponível para PC e nos consoles Xbox One e Xbox Series X | S, além de integrar o catálogo do Xbox Game Pass de todas as plataformas. Deixe nos comentários o que você achou do game, e aproveite para conferir abaixo outros indies que valem a sua atenção, recomendados pela redação da Legião dos Heróis!

LEGIÃO RECOMENDA

Se você está procurando um game mais leve para passar o tempo, talvez Twelve Minutes não seja a melhor opção. Mas não tem problema — os jogos indies são tão diferentes entre si que com certeza você vai achar alguma coisa que vai te agradar. Para te ajudar nesta tarefa, a nossa equipe preparou uma seleção com os jogos independentes mais promissores do momento que você deveria conhecer! Chega mais e segue o baile:

DODGEBALL ACADEMIA

POR Gabriel Mattos

Jogo brasileiro arrebenta!

Você tem saudade da sua época de escola? Torcia para ser dia de queimada na Educação Física? Então o jogo nacional, Dodgeball Academia, foi feito para você. Este é o seu típico RPG, com foco em história e progresso de níveis, mas ao invés de escolher comandos em um menu para decidir as batalhas, você enfrenta seus inimigos em emocionantes partidas de queimada.

Desvie, rebata e use poderes especiais para ganhar. É como viver sua própria aventura em um anime insano anime de esportes, estilo Super Onze. O visual é desenhado cuidadosamente à mão pelo mesmo estúdio do jogo Ninjin, que deu origem ao desenho do Cartoon Network. E o roteiro… É simplesmente hilário! Tem muitas particularidades bem brasileiras que você nunca esperaria ver em um game desse calibre.

Ficou curioso? Dodgeball Academia está disponível para PC, PlayStation 4, Nintendo Switch, para a família Xbox e está incluído no Game Pass.

BOYFRIEND DUNGEON

POR Gabriel Mattos

Só cuidado com os romances tóxicos!

A esquisitice dos dating simulators acaba chamando a atenção de muita gente. Jogo sobre namorar pombos? Por que não?! Uma história de amor entre Selena Gomez e o Faustão? Parece plausível. O problema é que a falta de coisas para se fazer no jogo além de conversar acaba afastando muitos jogadores. Eis que surge Boyfriend Dungeon: um dating sim para onde você flerta com pessoas que se transformam em espadas e exploram masmorras para se conhecer melhor.

É o equilíbrio perfeito! O jogo apresenta uma seleção super inclusiva de candidatos para você tentar namorar. Tem até opção para quem não está procurando romances. Depois de conversar um pouco, vocês vão lutar contra hordas de inimigos que representam os maiores medos do protagonista. Portando sua espada e poderes especiais, você é desafiado a sobreviver quanto tempo conseguir como em um rogue-like. Conforme você avança nas fases, libera mais encontros para tentar conquistar seu alguém especial.

Boyfriend Dungeon está disponível para Nintendo Switch, além da família Xbox e PC como parte do Game Pass.

CARTOMANTE

POR Gabriel Mattos

Leia o futuro como bem entender

E vamos falar de um jogo nacional que já foi indicado a Melhor Jogo da BIG Festival? Com vocês, Cartomante! A pedida perfeita para quem procura boas histórias. Na pele da vidente Senhora Cacá, você recebe os mais variados tipos de clientes que lhe confidenciam seus problemas, sejam eles questões de relacionamento ou até dúvidas sobre onde enterrar um cadáver sem ser pego. Coisa bem rotineira, sabe?

Como cartomante, seu objetivo não é julgar, mas sim ajudar seus clientes como puder. Você tira uma carta de tarot com três interpretações possíveis e escolhe a que pode resolver melhor o problema da vez. Os resultados podem até fazer sentido, ou ser a coisa mais absurda. O importante não é conseguir pontos ou qualquer outra coisa arbitrária: quem sai ganhando é sempre você, que se diverte com as mais absurdas histórias.

Cartomante está disponível para PC na loja do Steam.

CULTIC

POR Arthur Eloi

Crudux Cruo!

Por ter sido lançado no mesmo ano em que Quake elevou o nível dos shooters, Blood (1997) não é um FPS muito conhecido além dos amantes do gênero – mas é um de altíssimo nível de desafio, jogabilidade afinada e, claro, muita nojeira. Agora, ele recebe uma espécie de sucessor espiritual com Cultic, projeto da Jasozz Games que promete um game de tiro visceral.

Mostrado durante a Realms Deep 2021, evento dedicado à cena indie de jogos de tiro, Cultic ganhou uma demo que deixa o jogador lutar contra cultistas com um combate simplesmente delicioso. Há poucos games que entregam headshots e tiros de pistola tão satisfatórios quanto este. O estilo visual, que emula texturas retrô em um motor gráfico moderno, pode não colar com todo mundo, mas é um prato cheio para os fãs que querem se aventurar pelas sensibilidades noventistas de como um FPS deve ser.

Ainda não há data de lançamento para Cultic, mas a sua demonstração gratuita já está disponível no Steam.

BLOODWASH

POR Arthur Eloi

Não confie nas pessoas que vivem nas paredes

O terror é o gênero queridinho dos indies, com uma verdadeira avalanche de experiências horripilantes de todo tipo. Dentre elas, o nome Puppet Combo é um que se destaca. Após arrancar gritos com Murder House e uma série de projetos menores, o desenvolver abriu a publisher Torture Star Video, e os resultados são muito satisfatórios. A produção mais recente do selo é Bloodwash, assinado por um único desenvolvedor que se chama de Black Eyed Priest (ou então Jordan King, para os mais íntimos).

Bloodwash é praticamente um filme barato de maníaco, daqueles que você encontra passando na TV de madrugada, e acompanha uma mulher que precisa urgentemente lavar sua roupa suja no meio da noite, para se preparar para uma entrevista de emprego no dia seguinte. Sua vida se vê em risco quando ela passa a ser perseguido por um serial killer maníaco que está caçando mulheres grávidas. É um jogo curto, com gráficos 3D ao estilo do PS1 e cheio de filtros de VHS e monitores de tubo, mas que entrega sustos impactantes e atmosfera de primeira. Pode julgar pelo visual questionável ou pelas atuações bizarras: Bloodwash vai te deixar de cabelos em pé.

O game está disponível no Steam e no Itch.io.

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sobre o autor Arthur Eloi

Repórter entusiasta de filmes ruins, jogos de tiro e de horror em todas as suas formas. Dá notas duvidosas para obras questionáveis • @ArthurEloi117