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Crítica: A Voz Suprema do Blues mostra um suspiro desesperado de uma negritude sufocada

Por Gabriel Mattos

Em junho de 2020, um assassinato cruel levou uma impressionante multidão as ruas. Todos gritando uma mesma súplica: chega de silenciar vozes negras. O lamento ecoou pelo mundo, refletindo em almas que se sentem sufocadas há décadas.

Mas houve um saldo positivo. Finalmente estamos conversando sobre esse assunto desconfortável que é o racismo. E é exatamente assim que eu descreveria A Voz Suprema do Blues, filme da Netflix indicado a cinco categorias do Oscar — uma necessária conversa, desconfortável, mas fascinante sobre o racismo.

Chadwick Boseman é Levee Green. Viola Davis é Ma Rainey

Título: A Voz Suprema do Blues (Ma Rainey’s Black Bottom)

 

Direção: George C. Wolfe

 

Roteiro: Ruben Santiago-Hudson

 

Produção: Denzel Washington, Todd Black e Dany Wolf

 

Data de lançamento: 25 de novembro de 2020 (Netflix)

 

Duração: 94 minutos

 

Sinopse: Enquanto esperam em uma sala de gravação, um grupo de músicos debate os limites da existência negra em um Estados Unidos segregado e hostil.

Liberdade em prosa

Um passado doloroso

Antes de mais nada, preciso pontuar rapidamente o momento histórico em que o filme se insere. O contexto necessário para interpretar essa obra é apresentado em uma breve montagem inicial que escancara o esmero da direção de arte em transpor o impacto da história negra de maneira simples e intuitiva.

A história começa há quase um século, em 1927 — apenas 64 anos após a abolição da escravidão americana. Os estados do norte, mais progressistas, eram vistos como uma esperança de vida melhor para a população negra. As oportunidades de emprego geradas pela Primeira Guerra Mundial foram o estopim que faltava para uma grande migração.

É em meio a esse cenário de segregação, mas esperança, que começa a história. O longa segue um dia de gravação de Ma Rainey (Viola Davis), uma brilhante diva do blues, e sua banda. Claro que isso significa momentos musicais de qualidade inquestionável, mas a verdadeira beleza está nos momentos de espera. Quando a música para, o silêncio é preenchido com desabafos e sempre há algo interessante a se ouvir.

Harmonia em dissonância

Na sala de ensaio, histórias de vida se tornam lições valiosas

Não há muita ação acontecendo, apenas pessoas trocando relatos sentidos de suas histórias, o que demonstra a força de um roteiro muito inspirado e a excelência das atuações. Todo o elenco entrega uma emoção palpável em cada fala, aflorando diferentes aspectos da vivência negra, mas é impossível não destacar a genialidade de Chadwick Boseman e Viola Davis.

Ambos personagens não se suportam, então temos poucas interações entre os dois. No final, essa era a melhor decisão a ser tomada mesmo, porque quando eles estão em cena, ambos roubam completamente a atenção.

Davis e Boseman interpretam antigos estereótipos da personalidade negra, exaustivamente reproduzidos na história do cinema. Ela é uma mulher explosiva, pronta para atacar qualquer um. Ele é um verdadeiro malandro, pronto para sacanear quem quer que seja. Mas conforme o filme avança, fica cada vez mais nítido o motivo dessas personalidades. A performance traz uma profundidade que transforma os estereótipos, antes caricatos, em algo surreal.

Acaba sendo mais uma alfinetada em nosso olhar racista, ávido a encontrar defeitos sem nunca se preocupar com as motivações.

Uma orquestra de vivências

Tradição e progresso se chocam no encontro do blues com jazz

Os demais personagens acabam expandindo os horizontes do que era a vivência negra daquela época, quebrando a ideia enraizada de que todos eram iguais. Toledo (Glynn Turman) mostra os questionamentos filosóficos que raramente eram ouvidos, Cutler (Colman Domingo) representa as contradições da negritude e religião e o jovem Sylvester (Dusan Brown), a eterna síndrome do impostor.

Não há muitas mudanças de cenário, ou intromissões de forças externas, mas a conversa entre esses homens é tão envolvente que nem percebi o tempo passando. Há sempre uma tensão, uma urgência e um inerente conflito de um grupo que aprendeu a nunca esperar algo bom da vida.

O tema mais interessante, como não podia deixar de ser, está nos personagens de Davis e Boseman. A dupla funciona como dois lados da mesma moeda que questiona em que lugar os negros foram inseridos no capitalismo da década de 1920. E essa pergunta perdura. E agora, na década de 2020, o quanto as coisas mudaram?

Atuação de Viola Davis entrega sutileza nos momentos mais explosivos

Vozes negras vêm sendo silenciadas por séculos, é como a nossa sociedade foi erguida. Mas, mesmo contra todas as chances, elas sempre encontram um jeito de sobreviver. Às vezes soa como um grito de alívio, outras como um sussurro abafado, mas às vezes, é como o brilhantismo de A Voz Suprema do Blues.

Nota: 5 de 5

5/5 – Atuação esplêndida e roteiro afiado hipnotizam a audiência

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sobre o autor Gabriel Mattos

Repórter correspondente de Wakanda, caçando Pokémon por onde eu vou! Sempre nas lives da Legião! • @gabeverse