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[Crítica] The Mandalorian: A Força é poderosa na segunda temporada

Por Raphael Martins

Atenção: Alerta de Spoilers!

Quando chegou ao Disney+ em novembro do ano passado em paralelo com Star Wars: A Ascensão Skywalker, The Mandalorian não apenas surfou no hype do nono episódio da saga espacial, como o superou. O filme, duramente criticado por fãs e imprensa especializada na mesma medida, não recebeu o mesmo amor que as aventuras do mercenário Mandaloriano e seu protegido, o fofíssimo “baby Yoda”, que virou uma febre na internet na época.

Um ano inteiro depois, o gosto ruim que A Ascensão Skywalker deixou na boca dos fãs finalmente foi lavado com a segunda temporada de The Mandalorian, que aumentou sua escala, seus riscos e sua própria mitologia e terminou seu primeiro grande arco de maneira triunfal, na base do fanservice bem feito e do respeito à continuidade estabelecida nos últimos anos de aventuras no cinema e na TV.

Ficha técnica

Título: The Mandalorian

Direção: Jon Favreau, Peyton Reed, Bryce Dallas Howard, Carl Weathers, Dave Filoni, Robert Rodriguez, Rick Famuyiwa

Roteiro: Jon Favreau, Dave Filoni e Rick Famuyiwa

Ano: 2020

Data de lançamento: 30 de outubro

Duração: 8 episódios

Plataforma: Disney+

Sinopse: Din Djarrin prossegue em sua missão de entregar a criança a seu povo, enfrentando o Império em seu caminho e descobrindo mais sobre seu próprio passado e uma parte da galáxia que ele até então desconhecia.

Din Djarrin e Grogu continuam sua jornada na segunda temporada de The Mandalorian

Sem enrolação

O que mais surpreende na segunda temporada de The Mandalorian é a forma como o diretor e produtor Jon Favreau e sua equipe fizeram cada um dos oito episódios serem extremamente importantes para a continuidade da trama, impulsionando Din Djarin (Pedro Pascal) cada vez mais perto de concluir sua jornada sem a necessidade de se valer de fillers para encher linguiça ou segurar a expectativa dos fãs de forma vazia.

Mesmo quando parecia que a fuga desesperada ou o tiroteio frenético de uma aventura não ia levar a lugar nenhum no grande esquema das coisas, lá estava aquela informação ou acontecimento cruciais no final de cada capítulo, adicionando mais uma peça ao quebra cabeça e apontando para onde o personagem deveria ir. O tempo em cada episódio foi muito bem utilizado, afinal, eram apenas oito, e a duração deles variava de um para outro, não seguindo um padrão exato. Caso isso não tivesse acontecido, as coisas poderiam ter degringolado com facilidade, o que, felizmente, não aconteceu.

Dada a já provada efetividade deste modelo, com poucos episódios e muitos acertos, é de se imaginar que as demais séries de Star Wars sendo desenvolvidas pelo Disney+ devam seguir este mesmo modelo. E não são poucas: cerca de 10 novas atrações estão sendo desenvolvidas, entre elas Obi-Wan Kenobi, Rangers of the New Republic, Ahsoka e The Book of Boba Fett, sendo estas três últimas se passando no mesmo período de tempo que as aventuras de Din Djarin.

Din Djarin (Pedro Pascal) e a criança no planeta gelado do segundo episódio: uma temporada sem fillers nem enrolação

Um mundo maior

Star Wars já possuía um universo vasto mesmo na época em que existia apenas a trilogia clássica, graças a todo o trabalho feito no Universo Expandido para povoar aquele universo. Esse aspecto da saga continuou firme e forte após a compra da franquia pela Disney em 2012, que investiu pesado em um novo cânone, cuja curadoria ficaria a cargo de uma organização criada especificamente para isso, o Lucasfilm Story Group. E nesta segunda temporada de The Mandalorian, eles trabalharam duro e foram muito bem-sucedidos no que diz respeito ao cuidado e respeito pelo que vem sendo estabelecido.

Diferente de franquias como Velozes e Furiosos ou os filmes da Marvel, que não levam em consideração suas séries animadas em sua continuidade cinematográfica, Star Wars abraça tudo o que é feito dentro do mundo da franquia, sejam quadrinhos ou games, livros ou animações. E no novo ano de The Mandalorian, vimos vários personagens queridos dos fãs em outras mídias finalmente ganharem versões em carne e osso.

Entre eles, podemos citar Cobb Vanth (Timothy Oliphant), introduzido originalmente no livro Marcas da Guerra, agora mostrado como um respeitável xerife de uma cidadela em Tatooine. Há também Bo-Katan Kryze, apresentada aos fãs nas animações Star Wars: The Clone Wars e Star Wars: Rebels, ainda tentando libertar o planeta Mandalore e novamente vivida por Katee Sackhoff, que anteriormente era apenas a voz da personagem. E claro, não poderíamos deixar de citar Ahsoka Tano (Rosario Dawson), ex-padawan de Anakin Skywalker e uma das personagens mais populares e amadas de todas, e o lendário mercenário Boba Fett, que aparece vivíssimo e interpretado mais uma vez por Temuera Morrison.

Outros elementos vindos do antigo universo expandido, como os dragões Krayt, os Dark Troopers do game Star Wars: Dark Forces e o planeta Tython, também são adicionados ao novo cânone durante os acontecimentos da segunda temporada da série. E o mais importante de tudo: nenhuma dessas aparições de personagens é gratuita, nada é feito somente pelo fanservice puro e simples. Há um significado maior por trás de cada participação, que dá força não apenas a eles como personagens, mas a Star Wars como um universo coeso, vivo e em constante transformação.

Ahsoka Tano em The Mandalorian: a atriz Rosario Dawson deu vida a uma das personagens mais populares da saga

Aumentando a escala e expandindo o universo

Quando começou, The Mandalorian era uma história contida em si mesma, com pouco ou nenhum grande envolvimento com os filmes, séries e acontecimentos importantes de uma galáxia muito, muito distante. O jogo virou durante a segunda temporada, onde a escala da trama aumentou de verdade e colocou seus personagens no centro de eventos  que iriam moldar a estrutura daquele universo nas décadas seguintes, além de informar o paradeiro atual de personagens muito queridos dos fãs.

Durante os episódios, descobrimos, por exemplo, por exemplo, que o Grão-almirante Thrawn não só está vivo, como está trabalhando ativamente nas sombras para voltar ao poder. O retorno dele também pode significar que o herói jedi Ezra Bridger, de Star Wars: Rebels, também está vivo em algum lugar, o que abre precedente para uma continuação da animação e para a busca de Ahsoka Tano em sua própria série, cujo desenvolvimento está acontecendo agora mesmo nos interiores dos escritórios da Lucasfilm.

Também existe uma importante ligação com os filmes, em especial com os episódios VII, VIII e IX: o sangue de Grogu (ou “baby Yoda” para os íntimos) pode ter sido usado para criar Snoke, líder supremo da Primeira Ordem, e o corpo do clone de Darth Sidious visto em A Ascensão Skywalker. A sensação que fica é a de que Jon Favreau e Dave Filoni, mentes criativas por trás da série, viram potencial na história do Mandaloriano para amarrá-la de forma mais profunda ao cerne de Star Wars, o que, pelo menos até agora, tem dado tão certo que nem mesmo os dois poderiam prever tanta aprovação.

Dave Filoni e Jon Favreau, as mentes criativas por trás do sucesso de The Mandalorian

Aguenta, coração

Outro grande acerto de The Mandalorian em sua segunda temporada foi em sua ousadia na hora de mexer com as expectativas e o coração dos fãs, sem poupar as emoções de ninguém e nem deixar a peteca cair na hora de fazer suas grandes revelações, compondo seus momentos mais emocionantes com calma, esmero e sensibilidade.

O elenco dá um show de interpretação nessas cenas. O Moff Gideon de Giancarlo Esposito continua com sua aura intimidadora e carisma inerente, mas agora mostra uma nova faceta: o medo. A expressão do personagem, que vai da confiança exacerbada ao mais absoluto terror, são frutos de um trabalho primoroso por parte do ator.

Também não podemos deixar de celebrar todo o talento de Pedro Pascal e sua dedicação ao papel de Din Djarin. Atuando com o rosto escondido em 99% do tempo, o ator precisa suar a camisa para transmitir suas emoções e intenções apenas na base da linguagem corporal, mas é quanto tira o capacete pesado que ele brilha. A cena da despedida entre seu personagem e Grogu, por exemplo, é um dos pontos mais altos de toda a temporada, e as lágrimas que queimam em seu rosto ao ver a criaturinha indo embora nos braços de um certo cavaleiro jedi fizeram o público sentir uma torrente de emoções que, certamente, ainda tem a força de uma tempestade furiosa dentro do coração de muita gente.

Pedro Pascal dá um show de atuação e sensibilidade nos momentos finais de The Mandalorian: o ator brilha com ou sem seu capacete

O resgate de Star Wars

Em um momento em que os fãs de Star Wars ainda guardavam um certo rancor do fracasso de A Ascensão Skywalker, alguns até perdendo a fé na saga e passando a gostar dela bem menos que antes, a segunda temporada de The Mandalorian chegou dando um novo fôlego a aquele universo e mostrando que a galáxia ainda tem muita coisa boa a oferecer, caso a equipe criativa saiba exatamente o que está fazendo e tenha o mais absoluto amor e respeito à franquia como um todo, que é tão importante para tanta gente.

“De um certo ponto de vista”, como diria o mestre jedi Obi-Wan Kenobi, o último episódio da temporada, intitulado “O resgate”, não era apenas sobre salvar o pequeno Grogu. Ao sair daquele elevador com seu sabre de luz em punho, Luke Skywalker não estava só indo ao resgate da criatura, mas ao dos próprios fãs de Star Wars, desencantados com os rumos que a franquia estava tomando ao fechar sua história principal de maneira tão insípida, genérica e sem personalidade. O resgate de Grogu é o resgate de Star Wars.

E o futuro é promissor: além das já citadas dez séries, há dois novos filmes em desenvolvimento, um a ser comandado por Taika Waititi (Thor: Ragnarok, JoJo Rabbit) e outro que será dirigido por Patty Jenkins (Mulher-Maravilha). O projeto dela todo mundo já conhece: trata-se de Rogue Squadron, o esquadrão de pilotos de elite mais habilidosos de toda a Aliança Rebelde, cujas aventuras já foram contadas em vários livros e numa trilogia de games muito bem-sucedida para os consoles da Nintendo.

Star Wars é bom de novo. A Força está em equilíbrio. Tudo está bem.

NOTA: 5/5

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sobre o autor Raphael Martins

Redator, apresentador e roteirista. Gosto de longas caminhadas na praia, Star Wars, tokusatsu, anime e filé com batata frita. Deixo as pessoas constrangidas. Você pode trocar uma ideia comigo no Twitter: @aqueleraphael