Capa da Publicação

[CRÍTICA] Jojo Rabbit e a Cruzada da Inocência

Por Gus Fiaux

Na última quinta-feira, chegou aos cinemas brasileiros Jojo Rabbit, o último longa indicado ao Oscar de Melhor Filme que ainda não havia sido lançado por aqui. Dirigido por Taika Waititi, o filme conta a história de um garoto da juventude nazista que precisa lidar com um dilema muito complexo.

O filme mistura humor e drama para fazer um poderoso comentário social sobre preconceito e alienação, e mesmo parodiando uma realidade de 1940, é um filme assustadoramente atual. Nós já conferimos ao longa, e aqui você pode ler a nossa crítica do filme!

Créditos: Fox

Ficha Técnica

Título: Jojo Rabbit

 

Direção: Taika Waititi

 

Roteiro: Taika Waititi

 

Ano: 2019

 

Data de lançamento: 06 de fevereiro de 2020 (Brasil)

 

Duração: 108 minutos

 

Sinopse: Um jovem menino do exército de Hitler descobre que sua mãe está escondendo uma menina judia em casa.

Jojo Rabbit e a Cruzada da Inocência

Por mais estranho que isso possa soar, Taika Waititi é um cineasta muito versátil. E isso são apenas ossos do ofício quando você começa sua carreira como um diretor de projetos independentes e de baixo orçamento. Seu tipo de humor é bem específico, mas ao longo dos anos, o cineasta neozelandês refinou seu estilo fazendo um pouco de tudo.

Desde um falso-documentário sobre a vida de vampiros que dividem uma casa, ao grande blockbuster super-heroico do Deus do Trovão, Waititi já se provou várias vezes. E agora, ele consegue repetir o feito em Jojo Rabbit, um coming-of-age sobre um garoto nazista que precisa reavaliar seu mundo e suas crenças ao descobrir que sua mãe está auxiliando uma garota judia.

O longa só está chegando aos cinemas brasileiros agora, mas já está com uma carreira consolidada lá fora. Além de ter ganhado o prêmio do júri popular do prestigiado Festival de Toronto, o filme tem arrecadado os louros na temporada das premiações, e está indicado a nada menos que seis categorias no Oscar, incluindo Melhor Filme. 

Já para início de conversa, é importante frisar: Jojo Rabbit definitivamente não é o melhor trabalho da carreira de Waititi. O filme certamente não impressiona tanto quanto obras anteriores do diretor, como O Que Fazemos nas Sombras A Incrível Aventura de Rick Baker. Mas isso significa que o longa é ruim? Definitivamente não.

A história, como citado anteriormente, segue o jovem Johannes – ou Jojo (vivido por Roman Griffin Davis), para os íntimos -, um garoto que faz parte da Juventude Nazista e que possui a grande convicção de que, um dia, será um grande soldado para o Fürher. Mas enquanto esse dia não chega, ele fantasia com seu amigo imaginário, o próprio Adolf Hitler (Taika Waititi).

Apesar da mãe bondosa e excêntrica (Scarlett Johansson, também indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante), Jojo é um menino alienado que acredita em todas as mentiras espalhadas contra judeus, russos, americanos e qualquer outro povo que ameace a supremacia da “raça ariana”. E é aí que ele conhece a tímida Elsa (Thomasin McKenzie), escondida em sua casa.

A premissa é simples, mas serve muito bem para elucidar o conflito narrativo que é estabelecido em toda a narrativa do longa. Jojo precisa decidir se vai entregar a menina para a Gestapo ou se vai deixá-la viver, enquanto tem vários encontros às escondidas com Elsa, para tentar entender a imagem que lhe venderam do povo judeu.

Sendo um filme de Waititi, é óbvio que a comédia seria um fator principal. E o longa não decepciona nesse quesito. Muitos momentos são repletos de ironia e um humor ácido que só Taika sabe fazer, mesmo tocando em um assunto polêmico e amedrontador quanto o nazifascismo. Isso garante uma leveza à história, principalmente pela atuação do jovem Roman, que é sensacional.

E, ainda assim, o diretor sabe pesar a mão nos momentos mais dramáticos ou chocantes, nos lembrando de como a guerra é um jogo no qual ninguém sai vitorioso. O elenco é afiadíssimo para essas cenas mais emocionais, especialmente Thomasin McKenzie, que desponta com uma firmeza poderosa, e Scarlett Johansson, que domina os momentos mais tocantes do longa.

O elenco ainda conta com Alfie Allen, Sam Rockwell Rebel Wilson, todos em papéis menores – e ainda assim, o trio consegue convencer mesmo nas cenas mais exageradas, já que seus personagens representam estereótipos e arquétipos muito conhecidos. Infelizmente, a única “peça solta” do elenco acaba sendo o próprio Taika Waititi. 

Apesar de ser o grande alívio cômico do longa – afinal, o que há de mais satírico que um homem neozelandês e não-caucasiano interpretando o supremo líder da “raça ariana”? -, Waititi acaba sobrando na narrativa, ainda que represente o conflito interno de Jojo e sua “quebra” com os ideais nazistas. Mas se você pensar bem, ele poderia ser removido do filme sem causar grandes transtornos.

Ainda assim, mesmo que seja dispensável no elenco, Waititi se prova mais uma vez como um baita roteirista e um baita diretor. Seu texto – que por sua vez, é uma adaptação do livro Caging Skies, de Christine Leunens – é muito centrado e não perde tempo com enrolações, explorando sobretudo a evolução de Jojo em meio a uma sociedade alienada e histérica.

Para isso, ele obviamente se beneficia de muitos exageros e hipérboles, criando uma loucura coletiva que corresponde bem aos personagens do longa. E o fato de dirigir seu próprio roteiro o deixa ainda mais conectado com a obra, de forma que muitos dos momentos soem completamente naturais, mesmo que sejam bem excêntricos em natureza.

Por outro lado, seu brilhantismo técnico merece ser elogiado. O filme conta com uma cinematografia belíssima, ressaltando o cômico e o trágico em proporções equilibradas. A direção de arte acerta no teor “anacrônico” do filme, com destaque para os figurinos. montagem também é muito boa, criando uma sucessão de sequências bem envolvente.

Mas nem tudo são flores. O filme dá uma leve acelerada no clímax, de forma que nem conseguimos processar que estamos assistindo ao terceiro ato da narrativa. O trabalho de som também deixa a desejar em alguns momentos, em especial quando a música sobressai aos diálogos, dando muita ênfase em algo que já está sendo visto na tela.

Ainda assim, Jojo Rabbit está longe de ser um filme ruim ou até mesmo “apenas bom”. O longa de Waititi impressiona não apenas pelo apelo de seus personagens e pela precisão de seu elenco, como também pela notável crítica à intolerância e ao preconceito, além de ser um alerta fundamental sobre a alienação criada pelo discurso de “eles contra nós”.

O resultado é que, mesmo sendo uma paródia sobre a Segunda Guerra Mundial, o filme acaba se provando assustadoramente atual, ainda mais ao mostrar como mentes frágeis e inocentes podem ser influenciadas por discursos perigosos. E, no cerne disso tudo, ainda há um coming-of-age que lembra alguns dos maiores sucessos de Wes Anderson.

Num ano repleto de filmes como 1917, Adoráveis Mulheres, O Irlandês e Parasita, o destemido Jojo Rabbit parece uma aposta fora da caixinha – especialmente para uma premiação como o Oscar. Mas ainda assim, é um filme doce, divertido, triste e que reflete assuntos densos com uma leveza impressionante. Mais um acerto para a carreira de Taika.

 

Veja mais críticas dos filmes indicados ao Oscar de 2020:

[CRÍTICA] 1917 é muito mais do que um simples filme de guerra

[CRÍTICA] Adoráveis Mulheres, um drama familiar e delicado

[CRÍTICA] O Irlandês – Scorsese reflete sobre envelhecimento e culpa em filme um tanto longo demais

Na galeria abaixo, fique com cartazes do filme:

Jojo Rabbit está em cartaz nos cinemas.

Imagem de perfil
sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux