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[CRÍTICA] Adoráveis Mulheres, um drama familiar e delicado

- – Diretora de Lady Bird retorna com um drama poderoso sobre o poder das mulheres!

Por Gus Fiaux → 2020 começou e, no Brasil, finalmente estamos tendo a oportunidade de conferir alguns lançamentos de 2019 que devem figuras nas maiores premiações de cinema. Esse é o caso de Adoráveis Mulheres, o segundo filme “solo” de Greta Gerwig, que há alguns anos impressionou o público com o excepcional Lady Bird: A Hora de Voar. 

Baseado no clássico romance semi-autobiográfico de Louisa May Alcott, o filme traz grandes nomes como Saoirse Ronan, Emma Watson, Laura Dern e Meryl Streep, provando o poder de Greta enquanto uma das maiores cineastas da nova geração. E aqui, você poderá conferir o que achamos do filme!

Créditos: Sony Pictures

Ficha Técnica

Título: Adoráveis Mulheres (Little Women)

 

Direção: Greta Gerwig

 

Roteiro: Greta Gerwig

 

Ano: 2019

 

Data de lançamento: 09 de janeiro de 2020 (Brasil)

 

Duração: 135 minutos

 

Sinopse: Jo March reflete sobre o passado e o presente de sua vida, contando a encantadora história das Irmãs March – quatro incríveis mulheres determinadas a viverem suas vidas nos seus próprios termos.

Adoráveis Mulheres, um drama familiar e delicado

O começo do ano é um ótimo momento para os cinéfilos brasileiros ficarem por dentro de todos os filmes que devem ganhar espaço na temporada de premiações. É aqui que os estúdios investem nos lançamentos que devem figuras no Globo de Ouro, no BAFTA e, principalmente, no Oscar. 2020 não começou diferente e já temos a estreia de Adoráveis Mulheres. 

O longa é dirigido e escrito por Greta Gerwig, a cineasta responsável pelo incrível Lady Bird: A Hora de Voar. Dessa vez, ela se reúne novamente com Saoirse Ronan Timothée Chalamet para a adaptação do clássico da literatura norte-americana escrito por Louisa May Alcott – mais conhecido aqui no Brasil como Mulherzinhas.

O filme é um dos dramas mais elogiados do ano passado, apesar de estar sendo esnobado nas principais premiações de cinema – e ainda assim, é um dos filmes que mais merece reconhecimento do público. O drama conta a história de quatro irmãs – Jo (Saoirse Ronan), Amy (Florence Pugh), Meg (Emma Watson) e Beth (Eliza Scanlen).

Vemos a vida das Irmãs March através do ponto de vista de Jo, que tenta ser uma famosa escritora em Nova York – e tem que lutar com a desigualdade de gênero do Século XIX. E é nesse ponto que o filme tem um de seus maiores acertos, ao explorar a trama do livro de uma forma quase metalinguística – uma vez que a obra é uma espécie de autobiografia da autora – aqui, apresentada como Jo.

Porém, o que torna Adoráveis Mulheres um filme excelente vai além de sua estrutura. A começar, o elenco é formidável. Saoirse Ronan continua se provando uma das melhores atrizes da atualidade, com um timing cômico perfeito e um alcance dramático inacreditável. Ao lado dela, Florence Pugh se destaca com uma personagem que tinha tudo para ser uma “vilã novelesca”, mas que possui camadas bem mais complexas.

Eliza Scanlen surpreende por sua delicadeza e doçura. Apesar de ser a mais jovem das irmãs, ela é uma figura de inocência e pureza, e em vários momentos se torna o “elo de ligação” da família. Do quarteto central, quem mais destoa é Emma Watson, que apesar de competente, não tem a mesma força que as outras atrizes – ainda que tenha ótimos momentos em cena.

E não é só o elenco principal que se destaca, uma vez que os personagens secundários também estão entregues em boas mãos. Laura Dern interpreta Marmee, a matriarca da família. Mesmo com pouco tempo de tela, a atriz consegue compor uma personagem sofrida e gentil com a precisão de um bisturi. Casa expressão da atriz diz algo que não está no diálogo, e conseguimos sentir isso.

Meryl Streep por sua vez empresta seu talento em uma participação mais que especial, como a tia das garotas. Ela está exagerada e ajuda a inserir um elemento cômico no filme, por mais que sua presença seja um ponto crucial na tensão e no desentendimento entre Jo e Amy.

O elenco ainda se fecha com Timothée Chalamet, que vive Theodore Laurence, um vizinho charmoso e abastado das Irmãs March. O astro é, talvez, a figura mais oscilante do elenco – em alguns momentos, ele está muito bem, com uma vivacidade que justifica o fato dele ser tão desejado por duas das irmãs. Porém, em certos momentos, o ator “liga o automático” e fica inexpressivo. Às vezes, isso funciona com o personagem, mas nem sempre é o caso.

Mas voltando a falar das quatro protagonistas e suas personagens, é importante notar como cada uma delas fornece uma personalidade única e profunda para as Irmãs March. Jo é a ovelha desgarrada, muito dedicada e teimosa. Amy é impulsiva e sonha com uma vida cheia de luxo. Meg quer se encaixar na alta sociedade e estabelecer uma família. Beth é pura e inocente, mas possui um senso de moral admirável. O único traço que as une é a obstinação e o desejo de terem uma vida melhor.

E por mais que o amor familiar transborde por cada cena do filme, é impossível não notar como os desejos pessoais podem obscurecer o elo sanguíneo. Isso fica mais evidente entre Jo e Amy, que parecem “brigadas” no começo do filme – algo que é melhor explorado e explicado ao longo dos flashbacks que contam a história das irmãs.

Os flashbacks aliás são pontos de destaque muito positivos. A montagem das cenas fornece transições espetaculares e muito emocionantes, que nos explicam porque, no presente, certa irmã age de tal forma, ou por que personagem X não se entende muito bem com personagem Y. Claro que, no segundo ato, há um certo excesso dessas cenas, o que acaba tirando um pouco do peso do que se passa no presente.

Ainda assim, Greta Gerwig nunca perde o controle de seu próprio filme. A diretora possui um cuidado e uma delicadeza quase artesanal na hora de estabelecer os pilares do longa – que, apesar de ter uma história linear e compreensível, se aventura para fora da clássica estrutura de três atos do cinema norte-americano. Em muitos momentos, Adoráveis Mulheres segue um ponto de vista observacional quanto à vida de suas personagens.

E isso é muito bem embrulhado pela estética do filme, que não perde o charme e a exuberância de uma “produção de época“, ainda que com uma roupagem moderna, devido às escolhas de montagem e de narrativa. O resultado é anacrônico e poderoso, enaltecendo todos os aspectos técnicos que constroem o filme como os alicerces de uma casa.

fotografia é bonita e cheia de planos espetaculares, que mudam de formato e de ângulo sempre que a diretora quer ressaltar algo – seja a expressão de uma personagem ou um elemento no cenário. A direção de arte é impecável, fazendo com que cada frame do filme seja um quadro pronto para ser emoldurado. E os figurinos conversam diretamente com a personalidade e o estado de espírito de cada personagem. Os diálogos são belos e elaborados, ainda que em alguns momentos sejam um pouco literários e “teatrais” além do necessário.

E é por conta disso que Adoráveis Mulheres é uma das produções mais bonitas de 2019. É um filme simples, modesto e humilde que esconde uma beleza exuberante e uma complexidade cheia de nuances, seja no tratamento dado às questões de gênero da época – que continuam muito pertinentes na atualidade -, seja pela delicadeza da relação entre essas personagens.

Greta Gerwig conseguiu novamente. Se há dois anos ela nos apresentou uma comédia moderna sobre uma jovem mulher e suas reações familiares, ela agora quadruplica sua potência com um drama de época excepcional sobre quatro mulheres incríveis e obstinadas.

Adoráveis Mulheres é uma das grandes obras deixadas por 2019, e felizmente será muito lembrado pelos próximos anos. É um filme se se sustenta em atuações monumentais e no talento admirável de sua diretora, e que presenteia o público com um drama divertido, emocionante e estrondosamente humano.

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Veja imagens do filme na galeria abaixo:

Adoráveis Mulheres está em cartaz nos cinemas.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Pernambuco. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux