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[CRÍTICA] Entre Facas e Segredos – Casos de família

Por Gus Fiaux

Após ter dirigido o bem-sucedido (e polêmico) Star Wars: A Ascensão Skywalker, o diretor Rian Johnson retorna aos cinemas com o divertido Entre Facas e Segredos, um mistério de assassinato que foi muito bem elogiado lá fora, mas que surpreendentemente está sendo pouco divulgado aqui no Brasil, mesmo com seu elenco estelar.

O longa é focado na investigação de um possível homicídio, enquanto elabora uma trama familiar muito divertida e dramática, além de ter comentários sociais sutis. Mas será que isso é o bastante para que ele seja realmente tudo isso que a crítica gringa está falando? Nós já conferimos o longa, e aqui você pode ler a nossa crítica!

Créditos: Paris Filmes

Ficha Técnica

Título: Entre Facas e Segredos (Knives Out)

 

Direção: Rian Johnson

 

Roteiro: Rian Johnson

 

Ano: 2019

 

Data de lançamento: 12 de dezembro (Brasil)

 

Duração: 130 minutos

 

Sinopse: Um detetive investiga a morte do patriarca de uma família excêntrica e disfuncional

Entre Facas e Segredos – Casos de família!

O cinema de mistério é cheio de subgêneros e traz variedade para todos os gostos. No entanto, uma das categorias mais prolíficas, sem dúvidas, é a dos filmes chamados whodunit – que, em português, significa algo como “quem fez?”. São filmes que se baseiam na investigação de um assassinato misterioso, com vários suspeitos e um culpado muito bem escondido do público.

Popularizado na literatura por Agatha Christie, esse “subgênero” já teve várias incursões no cinema, inclusive em adaptações de obras da autora. No entanto, não faltam filmes originais com essa temática. E o mais recente a chegar aos cinemas é o impressionante Entre Facas e Segredos, escrito e dirigido por Rian Johnson, o mesmo cineasta responsável pelo polêmico Star Wars: Os Últimos Jedi.

O longa já saiu em festivais nos Estados Unidos há alguns meses, mas só está entrando no circuito brasileiro agora, o que nos permitiu ver toda a recepção da crítica ao longa nesse meio-tempo. Com um elenco repleto de estrelas do mais alto escalão, o filme foi bem-recebido e já é considerado um dos melhores do ano. Mas será que sua reputação faz jus à qualidade da obra?

Como todo bom filme de whodunit, a história de Entre Facas e Segredos gira em torno de um assassinato misterioso – nesse caso, de Harlan Thrombey (Christopher Plummer), um escritor de livros de mistério – o que gera uma metalinguagem bem divertida – e patriarca de uma família cheia de segredos e intrigas. Tudo muda quando o detetive Benoit Blanc (Daniel Craig) é convocado para investigar essa morte enigmática.

Logo somos apresentados a cada membro desse núcleo completamente disfuncional. Temos a filha mais velha de Harlan, Linda (Jamie Lee Curtis), que vive em um casamento às ruínas e que se gaba de sua ascensão meritocrática; o filho caçula Walt (Michael Shannon), que comanda às cegas a editora que publica os livros de seu pai; e a nora excêntrica Joni (Toni Collette), que parece viver uma vida luxuosa e cheia de glamour. 

Porém, o coração da trama reside em outra personagem – a enfermeira Marta Cabrera (Ana de Armas), que não foi apenas uma empregada, mas também uma amiga e confidente para Harlan. Ela é a única pessoa que sabe os podres de todos aqui presentes, e se mostra profundamente abalada pela morte do escritor, servindo como o “olho do público” para os eventos que estão prestes a se desenrolar.

O que é fácil de se notar em Entre Facas e Segredos é como o filme consegue subverter todos os clichês e padrões desse subgênero para criar algo muito único e excepcionalmente original. O mistério do assassinato é resolvido logo no começo do filme, o que abre uma nova brecha na história e revela mais segredos que precisamos ir “pescando” enquanto a história se desenvolve.

Essa subversão só poderia ser desenvolvida por alguém habilidoso, e o fato de Rian Johnson comandar tanto o roteiro quanto a direção é algo a ser louvado. O cineasta sabe exatamente quais pontos narrativos devem ser ressaltados para que o público fique atento nos mínimos detalhes, enquanto oferece informações o suficiente apenas para que possamos entender o que está acontecendo, sem nos anteciparmos nas revelações.

Além disso, o diretor também oferece uma experiência bem completa e satisfatória, que consegue empregar mudanças bruscas de ritmo e tom sem perder a identidade de sua obra. O filme tem duas horas e dez minutos, e aproveita-as ao máximo para manter o público ao mesmo tempo entretido e investido no mistério que se desenvolve lentamente.

E isso, em parte, é algo que merece ser creditado ao elenco. Todos no filme estão excepcionais, mas o destaque vai para Daniel Craig, que consegue criar um personagem rico com toques de Hercule Poirot Sherlock Holmes, mas sem nunca parecer uma cópia de figuras já conhecidas. Com seu sotaque e seus trejeitos que beiram o caricato, o investigador Benoit Blanc é um personagem carismático e cheio de camadas.

Ana de Armas é outra que brilha no elenco. Tendo saído diretamente do aclamado Blade Runner 2049, a atriz cubana consegue criar uma protagonista inteligente e perspicaz, mudando constantemente entre os estados dramáticos e cômicos de uma maneira muito orgânica. O mesmo vale para Chris Evans, que entra “atrasado” na trama como o multifacetado Ransom Drysdale. 

Os demais atores também conseguem compor personagens muito únicos, mesmo que não tenham tanto destaque ou tempo de tela – e isso está longe de ser algo ruim, já que eles conseguem criar núcleos distintos de uma maneira muito organizada, dando ao trio principal a oportunidade de movimentar a história sem um caos narrativo que é comum em produções com tantos nomes famosos.

Além disso, o filme sabe ser charmoso e estiloso no que se propõe, muitas vezes dando a impressão de que é uma obra de época, inspirado por clássicos dos anos 70 e 80. Podemos ver várias referências aqui – e algumas são até citadas diretamente, como é o caso de Clue, que parece inspirar bastante o teor cômico e o humor da produção. Por outro lado, há um jogo de gato-e-rato presente em muitas das adaptações de livros da Agatha Christie.

Johnson consegue, com sua equipe técnica, criar um visual único e ostentoso, que se encaixa diretamente na temática “principal” do longa. A direção de arte, comandada por David Crank Jeremy Woodward, sabe criar uma atmosfera aristocrática cheia de pompa e garbo, e os figurinos de Jenny Eagan servem como complementos perfeitos aos personagens, fazendo com que nos situemos rapidamente na dinâmica dessa família.

E ainda assim, o filme foge da ideia de esconder pistas no cenário apenas para puxá-las no terceiro ato e gritar ao público algo como “aposto que você não viu isso aqui!”. Em vez disso, Johnson sabe exatamente o que deve ser mostrado, dando o foco necessário para que fiquemos o filme inteiro pensando em quando tal pista vai entrar na história – até o momento em que ela de fato entra.

E por mais que seja uma diversão escapista do início ao fim, seja pelo humor ou pelo mistério, o filme não deixa de tecer comentários sociais importantes a respeito da situação sociopolítica dos Estados Unidos (e do mundo, de forma geral). Uma sacada muito importante está no modo como os membros da família Thrombey se referem à personagem de Ana de Armas e falam sobre sua nacionalidade, sempre discordantes.

Mesmo sendo uma crítica explícita, o filme deixa que ela permeie de uma maneira sutil, seja na posição de alguns enquadramentos ou em diálogos. Além disso, ela atira para todos os lados, desde o adolescente “mauricinho” e preconceituoso (Jacob, vivido por Jaeden Martell) à jovem mulher “empoderada” e “desconstruída” (Meg, Katherine Langford), mostrando que ninguém de fato olha com bons olhos para quem está na base da cadeia social.

Em um ano em que essa temática foi mais do que explorada nos cinemas – com ótimos exemplos como Bacurau, Parasita ou Ready or Not -, o filme consegue se manter relevante ao mesmo tempo em que não perde seu valor de entretenimento.

Com uma ótima direção, um excelente elenco e um enredo extraordinário, Entre Facas e Segredos acaba se provando um dos melhores filmes do ano, mesmo que pareça estar “passando batido” aqui pelo Brasil. É um filme sagaz e cheio de humor satírico e irônico, que consegue usar seu dispositivo narrativo para entreter e, ao mesmo tempo, passar uma mensagem.

É a prova de que Rian Johnson ainda tem muito a oferecer em sua carreira, especialmente após filmes gloriosos como Looper: Assassinos do Futuro, Vigaristas e A Ponta de um Crime. Além disso, é um mistério que certamente vai te deixar investido e interessado, mesmo subvertendo completamente o subgênero no qual é inserido de uma maneira muito ousada.

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Na galeria abaixo, fique com cartazes do filme:

Entre Facas e Segredos está em cartaz nos cinemas.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux