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[CRÍTICA] O Irlandês – Scorsese reflete sobre envelhecimento e culpa em filme um tanto longo demais!

Por Evandro Lira

Martin Scorsese foi assunto recorrente por aqui nos últimos meses. Comentários polêmicos do cineasta sobre os filmes da Marvel Studios foram exaustivamente debatidos em todos os lugares. Porém, agora, o assunto é outro.

Quer dizer, ainda é sobre cinema, mas o foco é o novo lançamento do diretor, O Irlandês. Estrelado por Robert de Niro, Al Pacino e Joe Pesci, o filme chegará à Netflix em 27 de novembro, e aqui você confere nossa crítica.

Ficha Técnica

 

Título: O Irlandês

Direção: Martin Scorsese

Roteiro: Steven Zaillian

Ano: 2019

Data de lançamento: 27 de novembro (Brasil)

Duração: 3h 30m

Martin Scorsese é um cineasta de longa data, responsável por verdadeiras obras-primas do cinema, como Taxi Driver, Touro Indomável e O Lobo de Wall Street. E como prova de que o passar dos anos só amadureceu seu trabalho, O Irlandês chega como um filme “de máfia” que levanta reflexões acerca de temas como lealdade, responsabilidade e culpa.

Na trama, Scorsese se debruça sobre a história real de um motorista de caminhão, interpretado por De Niro, que faz negócios com a máfia e acaba encontrando um lugar “privilegiado” ao lado do chefe Russel Bufalino, vivido por Pesci.

Mas diferente de filmes como Os Bons Companheiros e O Lobo de Wall Street, aqui, não assistimos a história da perspectiva de que o crime não compensa porque o sistema um dia se coloca no seu caminho. Ao invés disso, o diretor  escolhe trabalhar sobre a ótica da passagem do tempo e do arrependimento.

Scorsese estava determinado a contar a história de Frank Sheeran, conhecido como “O Irlandês”, nas telonas desde 2007, quando lançou Os Infiltrados, filme estrelado por Leonardo DiCaprio, Matt Damon e Jack Nicholson. Mas o cineasta não queria que outros atores interpretassem as versões mais jovens de seus protagonistas, ele precisa de uma ferramenta que os rejuvenescessem. Para isso, porém, ele teria que esperar.

E ele esperou. Foi preciso arrecadar um montante de 159 milhões de dólares para produzir o filme do jeito que queria, com três grandes rostos do cinema de máfia: Robert de Niro, que estrelou uma grande variedade de filmes de Scorsese, incluindo Os Bons Companheiros e Cassino, sendo estes também estrelados por Joe Pesci; e Al Pacino, lenda de Hollywood, e o grande protagonista da clássica trilogia O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola.

É claro que grande parte desse orçamento digno de um blockbuster de ação foi devido aos efeitos digitais nos rostos dos atores. De Niro e Joe Pesci tem, ambos, 76 anos, e precisaram se passar por muito menos que isso. E ainda que nem sempre os efeitos convençam, dá para dizer que o trabalho da equipe da Industrial Light & Magic é bastante eficiente.

Durante as três horas e meia de filme, acompanhamos as voltas que a vida de Frank Sheeran dá, sempre ouvindo a sua narrativa de tantos anos depois. Assistimos a ele cometendo todos os tipos de crimes, enfrentando a dificuldade de se comunicar com a filha, e se relacionando com Jimmy Hoffa (Al Pacino), um líder sindical ambicioso e corrupto, que acaba se tornando um grande amigo de Frank ao longo dos anos.

O roteiro escrito por Steven Zaillian é complexo ao ponto de deixar um tanto de questões importantes da trama apenas nas entrelinhas, se poupando de momentos de exposição. Porém, isso está longe de impedir que o filme seja verborrágico. Os personagens aqui têm bastante a dizer diante de pequenos e grandes confrontos, ou apenas quando jogam conversa fora.

A exceção talvez seja a filha de Frank, Peggy. Que entra muda e sai calada do filme. O que não quer significa, é claro, que ela não tenha nada a dizer. Na verdade, seu silêncio significa muito diante das atrocidades que sempre viu o pai cometendo. Na infância, a personagem é interpretada por Lucy Gallina, e na idade adulta é vivida por Anna Paquin, a Vampira de X-Men.

Apesar de Scorsese ter juntado um bom número de colaboradores habituais para o projeto, cada um dos grandes nomes do elenco se sobressai de maneira diferente. Robert de Niro, um dos maiores atores vivos, interpreta um cara que tá bem longe de ser alguém carismático e cheio de coração, mas que transmite todo seu conflito interno de uma maneira clara e emocional. Joe Pesci, por sua vez, parece realmente outra pessoa. O ator que normalmente tinha um tom acima com seus personagens, em O Irlandês assume o papel de um homem sério, poderoso e, surpreendentemente, de fala mansa. Al Pacino é o que parece se divertir mais com seu papel e é o grande responsável por oferecer mais leveza à longa duração do filme.

O Irlandês acaba por lidar de forma brilhante com a dor irreparável do envelhecimento à medida que nosso protagonista sente que não viveu da maneira que ele gostaria. O final do filme – pode-se dizer a última meia hora – se dedica à catarse de Frank, sendo um dos momentos mais emocionantes e significativos da obra.

O problema está quando o filme é longo o suficiente para não deixar o espectador apreciar da forma que deveria seus últimos minutos. São três horas e meia de filme, duração que poderia ter sido reduzida com algum sacrifício. Cenas do início ou do meio do filme poderiam definitivamente ter ficado na sala de edição em prol de uma sessão menos exaustiva e melhor aproveitada.

Mas por estrear na Netflix, é seguro dizer que vai ser menos difícil de assistir, já que além de estar a um passo do seu sofá, o filme contará com a incrível tecnologia da pausa para ir ao banheiro. De qualquer maneira, O Irlandês não deixa de ser gratificante. O filme é um deslumbre de cinema, com a marca de Martin Scorsese, e conta com atuações monstruosas – que certamente farão bonito no Oscar.

 

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sobre o autor Evandro Lira

Editor, bacharel em Cinema e Audiovisual, bruxo nascido trouxa, filho dos filhos do átomo, mestre dos quatro elementos, fã de mais coisas do que deveria, frequentemente falando sozinho no Twitter. Segue: @evandroslira