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[CRÍTICA] Dora e a Cidade Perdida – Hora de explorar!

Por Gus Fiaux

Não há a menor sombra de dúvidas que estamos vivendo em um período peculiar na história do cinema. O público está cada vez mais interessado em produções live-action, especialmente adaptações de filmes e séries animadas. Dessa vez, nem Dora, a Aventureira escapou de Hollywood. 

Acaba de chegar aos cinemas nacionais o longa Dora e a Cidade Perdida, que reimagina a valente menina exploradora em uma aventura em live-action. Claro que se trata de um filme para toda a família… mas será que o longa consegue entreter os adultos tanto quanto as crianças? Confira a nossa crítica do filme!

Ficha Técnica

Título: Dora e a Cidade Perdida (Dora and the Lost City of Gold)

 

Direção: James Bofin

 

Roteiro: Michael Robinson e Nicholas Stoller

 

Ano: 2019

 

Data de lançamento: 14 de novembro (Brasil)

 

Duração: 102 minutos

 

Sinopse: Dora, uma exploradora adolescente, lidera seus amigos em uma aventura para salvar seus pais e resolver o mistério sobre uma cidade perdida feita de ouro.

Dora e a Cidade Perdida – Hora de explorar!

Criada pela Nickelodeon, a série Dora, a Aventureira logo se tornou um sucesso entre crianças pré-escolares (e um pesadelo para seus pais). Com uma estética simples e histórias descompromissadas, a animação sempre teve um teor educativo, enquanto a pequena Dora Márquez atiça a curiosidade e a aprendizagem do seu jovem público. 

Agora, quase vinte anos após a primeira aparição da personagem na TV, chega aos cinemas a primeira versão live-action da jovem aventureira. Dora e a Cidade de Ouro, antes de mais nada, é um filme infantil – mas isso não significa que os mais velhos não podem se divertir e dar boas gargalhadas com essa nova aventura cinematográfica. 

O filme segue de perto Dora, desde quando era criança. Logo cedo, acompanhamos ela em suas aventuras imaginativas ao lado de seu primo, Diego (o protagonista de Go, Diego! Go!). Porém, eles se separam enquanto ainda são crianças, já que Diego vai morar nos Estados Unidos enquanto Dora continua com sua família na selva latino-americana. 

Anos depois, Dora já é uma adolescente e continua suas aventuras, mesmo a contragosto de seus pais. Ela e seu adorável macaquinho Botas partem em busca de Parapata, uma cidade lendária feita inteiramente de ouro, segundo a mitologia inca. Porém, quando ela entra em apuros, seus pais decidem enviá-la para os EUA. 

Agora, Dora precisa lidar com a vida chata e monótona do Ensino Médio, enquanto reencontra seu primo Diego – que parece ter se tornado um adolescente chato e sem criatividade. Não demora muito, ela faz amizades e inimizades na escola, mas acaba sendo sequestrada por mercenários interessados na lenda de Parapata. 

E é assim que começa toda a trama do filme. Se todo o começo mais parece uma introdução prolongada para contextualizar os pequenos que gostam da série animada, o resto do filme parte em uma ideia mais divertida, com a aventura pela floresta tomando o ponto central da trama. De muitas formas, o longa até se parece com o recente Jumanji: Bem-Vindo à Selva. 

Porém, o que mais surpreende nessa nova versão da exploradora é justamente o quanto ela é auto-depreciativa. Embora o filme seja a clássica aventura infantil, o longa tem um apelo com os adultos justamente por zoar o tempo inteiro a série animada, desde as canções animadas de Dora à sua insistência em obrigar seus “amiguinhos” a repetirem palavras com ela. 

Tudo isso é feito de uma forma muito auto-consciente e irônica, o que às vezes transforma o longa numa paródia da própria série animada. Há um momento inclusive em que Dora e Diego acabam respirando esporos alucinógenos de flores exóticas, e começam a enxergar o mundo ao seu redor como um episódio da série de TV – um dos pontos altos do filme, inclusive. 

É justamente esse elemento que torna as piadas do filme divertidas para todas as faixas etárias e prova que essa adaptação em live-action (diferente do que a Disney tem feito com seus remakes) não é apenas uma cópia cuspida e escarrada do que já foi feito anteriormente. É um filme que se arrisca, mesmo que para isso precise zoar seu próprio material-fonte

Ainda assim, nem tudo são flores no mundo de Dora e a Cidade Perdida. Quando o longa está fazendo uma auto-paródia de sua base, ele vai muito bem. Porém, quando são inseridos elementos indispensáveis da série animada, é justamente aqui que temos alguns problemas de credibilidade e até mesmo de suspensão da descrença. Sim, estou falando de Botas e Raposo, duas criaturas feitas inteiramente em CGI. 

Por mais que o visual dos dois respeite bastante o que é visto na animação original, sua presença não orna com o resto do filme, principalmente por eles terem um humor muito mais físico e diferenciado. Enquanto Dora e seu núcleo de humanos faz comédia na base das piadas sagazes e das tiradas sarcásticas, os dois parecem estar incluídos daquela forma apenas para honrar a marca registrada da animação. 

Parte disso se deve à qualidade da computação gráfica, que é bem questionável. O macaquinho e a raposa não possuem textura e estão sempre destacados do resto do longa, quebrando um pouco o senso de “realismo” e apostando muito na caricatura. Ainda assim, vale mencionar que há uma cena excelente entre Dora e Botas perto do clímax do filme. 

O elenco do filme, por sua vez, é pontuado por altos e baixos. Enquanto Isabela Moner se destaca bastante no papel da aventureira, com um ar jovial e ao mesmo tempo irônico, sempre pontuando as maiores qualidades da menina curiosa, outros de seus amigos não são tão bons. Jeff Wahlberg, que interpreta Diego, é muito “travado” e parece estar envergonhado de trabalhar num filme infantil. 

Nicholas Coombe, que interpreta Randy, um dos amigos de Dora no colegial, é outro que não parece muito à vontade. Ele tem boas cenas, mas suas piadas sofrem pela inexperiência do ator e uma falta de timing. O mesmo não pode ser dito sobre Madeleine Madden no papel da inteligente e arrogante Sammy. Ela manda bem na personagem, especialmente nas cenas de troca de farpas com Dora. 

O elenco adulto, por sua vez, aposta na caricatura. Eugenio Derbez interpreta um “professor” que ajuda Dora em sua aventura, e até é engraçado em algumas cenas, mas passa por uma reviravolta óbvia (culpa do roteiro) e se torna caricato além da conta (culpa da interpretação). Já Michael Peña e Eva Longoria, que vivem os pais de Dora, tem cenas divertidas e algumas mais… constrangedoras.

No fim das contas, mesmo com alguns problemas, Dora e a Cidade Perdida é um filme divertido e despretensioso, que tem como maior charme a desconstrução de sua personagem principal e as tiradas irônicas com a animação original. É um filme que vai agradar os pequenos com os momentos de aventura, e os adultos com a comédia mais ácida. 

Além disso, é um filme que resgata o espírito de alguns clássicos como Jumanji, Indiana Jones e Os Goonies, trazendo de volta aquele sentimento de aventura que parece meio escasso no cinema atual. Apesar do CGI fajuto e de alguns personagens deslocados, isso é contornado justamente por esse sentimento familiar. 

Para quem cresceu vendo o desenho da Nickelodeon, é a chance de ver algo mais descompromissado e divertido. E para os pais que não aguentam mais a pequena menina cantando e ensinando palavras novas, é a chance de ver algo que vai te fazer rir com ela. É hora de explorar!

Na galeria abaixo, veja imagens do filme:

Dora e a Cidade Perdida está em cartaz nos cinemas.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux