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Crítica: Red – Crescer é uma Fera vibra com energia e personalidade

Por Gus Fiaux

Na próxima sexta-feira (11), chega ao Disney+ a animação Red: Crescer é uma Fera, o mais novo filme da Pixar, que conta a história de uma garotinha muito empolgada, dividida entre a tradição e o legado de seus pais e a busca por uma identidade própria ao lado de suas melhores amigas. Quando ela passa por um grande estresse, sua vida vira de cabeça para baixo ao descobrir seu lado mais selvagem.

Dirigida por Domee Shi, a animação se compromete em explorar ideias relacionadas à ancestralidade e o papel da família no nosso desenvolvimento pessoal. Porém, também é um belo exemplo de como dá para ser divertido e fazer um filme para crianças que transpira personalidade e identidade. Nós já pudemos conferir ao filme e aqui você pode ler a nossa crítica!

Ficha Técnica

Título: Red – Crescer é uma Fera (Turning Red)

 

Direção: Domee Shi

 

Roteiro: Domee Shi, Sarah Streicher e Julia Cho

 

Data de lançamento: 11 de março de 2022 (Disney+)

 

País de origem: Estados Unidos

 

Duração: 1h 40min

 

Sinopse: Uma jovem vive um ano caótico ao descobrir que pode se transformar em um grande panda vermelho.

Red: Crescer é uma Fera chega ao Disney+ no dia 11 de março!

Red: Crescer é uma Fera explora as dores do crescimento e a busca por identidade!

Os minutos iniciais de Red: Crescer é uma Fera são o mais próximo que a Pixar já esteve de abraçar o mais puro caos em suas animações. Esqueça a abertura melancólica de Up: Altas Aventuras ou o prelúdio contemplativo visto em Wall-E, o filme de Domee Shi já começa chutando o pau da barraca e apresentando Meiling (ou Mei), a garota estridente e barulhenta que está entrando na adolescência, enquanto vive no longínquo ano de 2002, em Toronto no Canadá.

Só isso já é o suficiente para nos dizer que o filme não é diferente dos demais apenas por seu traço, mais estilizado na “vanguarda” do CalArts – até porque Luca já tinha feito isso no ano passado. Não, o que chama a atenção está mais na forma de contar a história, incorporando os anseios e esperanças de uma menina pré-adolescente viciada em uma boyband, que se dá super bem na escola (apesar de ter seus inimigos) e que, por outro lado, precisa manter a postura calma e comedida em casa.

E por conta disso, não vou mentir, os dez primeiros minutos de Red: Crescer é uma Fera me pareceram quase insuportáveis. Todos os personagens gritam, a montagem do filme é insana e veloz e quase não há pausas para dar um singelo respiro ao público. Mas assim que entra em sua narrativa principal, o filme mostra a que veio e faz algo que é escasso nos últimos anos, principalmente no cinema mainstream comandado pela Disney: é um filme sobre encontrar sua própria personalidade, que faz isso esbanjando de personalidade própria. 

Claro que a grande mente por trás disso tudo é Domee Shi, diretora chinesa radicada no Canadá que não só assume as rédeas da produção como também foi responsável por dar vida ao roteiro. Imprimindo traços autobiográficos (por mais que ela não se transforme em um grande panda vermelho na vida real), Shi consegue criar uma protagonista que está longe de ser a “princesinha” da era clássica da Disney, e que também não mergulha no arquétipo de “mulher forte e independente” que o estúdio tem adotado nos últimos anos.

Não, em vez disso, Mei é uma figura de contradições. Ela tem suas amigas e está imersa na cultura americana, ao mesmo tempo em que possui um respeito nítido por seus pais, que vez ou outra é eclipsado pela vontade de se rebelar e encontrar sua própria voz fora dos desígnios de sua família. Depois de anos, a Pixar deixa de dar vida a brinquedos, robôs catadores de lixo e até ratos cozinheiros para apresentar uma protagonista muito próxima da realidade, com a qual várias crianças vão se identificar de imediato.

Só tem um problema: ao passar por um grande episódio de estresse provocado por sua própria mãe, a rígida e fria Ming Lee, Mei descobre que é capaz de se transformar em um panda vermelho gigantesco. É quase como a versão fofa e abraçável do Hulk, embora ainda mantenha sua personalidade e suas características mais humanas, mesmo em sua forma animal. E não tarda para descobrirmos que isso é uma herança geracional das mulheres de sua família, graças a uma antepassada que precisou fazer essa transformação por um motivo bem específico.

E lembra que eu falei, lá no começo, sobre como Red: Crescer é uma Fera soou insuportável em seus primeiros minutos? Pois bem, tudo isso se dissipa na cena em que as amigas de Meiling descobrem seu segredo e, em vez de rejeitarem a garota, a abraçam e prometem ajudá-la. Mesmo com os filmes da Pixar sendo conhecidos por seu grau de comprometimento emocional, fazia tempo que uma obra do estúdio não tocava no coração de um jeito tão bonito e simples, apostando no poder bruto da amizade e dos laços que fazemos na vida.

A partir daí, o caos se torna arte quando Meiling descobre o melhor dos dois mundos. Em casa, ela se mostra ainda mais dedicada e focada, enquanto espera por um ritual que pode “aprisionar” o panda e trazê-la de volta ao normal. Já na escola, ela aproveita seu lado felpudo para se tornar a criança mais popular, rodeada por amigos e aliados, ao mesmo tempo em que junta dinheiro para ir com as amigas para o show do 4-Town, a boyband pop nitidamente inspirada nos Backstreet Boys ou no ‘N SYNC.

Mas é aí que Red começa a demonstrar os perigos da “vida dupla”, especialmente quando vários aspectos da história de Meiling voltam para assombrá-la – seja sua família que ainda vive na China, o garoto que sempre a zoou na escola ou até mesmo a nova pressão exercida por sua mãe. E desse choque de realidades, só pode chocar uma identidade própria, que não deve ser limitada por ninguém. Assim, o filme de Domee Shi consegue ser surpreendentemente maduro e evoluído nas discussões que propões, mesmo com as músicas chiclete e o ar infantil.

Discutindo temas como puberdade, as primeiras paixonites, rebeldia juvenil e (em uma excelente piada) até mesmo a menstruação, Crescer é uma Fera resume todas as dores do crescimento em um baita animal gigante, que não difere de Mei em personalidade, apenas em forma. É a história de uma garota aprendendo a amadurecer e achando travas e barreiras nas relações que a cercam, tudo enquanto o caos externo começa a sobrepujar o caos da mente da personagem. E isso culmina num clímax que é simplesmente alucinado.

Claro que há um ou outro ponto que poderia ser melhor desenvolvido e que parece apenas “jogado” na narrativa de qualquer jeito – como quando Mei faz rabiscos em seu caderno e eles interagem com ela. Mas mesmo que isso não sirva ao propósito de um enredo fechadinho nos moldes hollywoodianos, ainda é uma metáfora (involuntária ou não) sobre todas as ideias que vem e vão em um piscar de olhos enquanto adentramos essa “quase vida adulta”, os sonhos passageiros e os planos não concretizados.

A estética, aliás, é algo que merece aplausos por comunicar esse sentimento. Por mesclar traços e feições que não são tão realistas nos personagens – e inverter o processo nos cenários, que parecem fotos em movimento de tão perfeitos -, o filme se arrisca ao inserir seus personagens em um festival de luzes, cores, sons e barulhos que são igualmente fantásticos e pé-no-chão. É a clássica magia da Pixar, transformando ideias absurdas em conceitos mais concretos, só que aplicada em algo muito mais verossímil e próximo ao público.

No final, é um resultado admirável, seja pela fofura presente em cada sequência (esteja Mei-Panda em cena ou não); pelo desenvolvimento de uma protagonista que não está nos extremos de performance de gênero, seja ultra feminina ou masculinizada – mas que ainda possui uma força vibrante; pela retratação fiel de como é a mente surtada de um pré-adolescente em seus anos de formação; ou até mesmo pela beleza e pelo contraste apresentado em uma história que fala sobre abraçar a tradição e o legado, mesmo adotando uma personalidade própria.

É emocionante, é divertido e é muito bonito. E é a prova de que a Pixar está encontrando novas vozes que fogem do óbvio na hora de contar histórias. Mais do que isso, é o exemplo concreto de como a diversidade não é importante apenas por traços característicos de etnia, sexualidade ou gênero, mas também pela perspectiva que as minorias têm na hora de contar suas próprias narrativas e trajetórias. E mesmo que você comece o filme achando tudo muito estridente e histérico, vai se entregar para Meiling, sua família e suas amigas até o final.

Red: Crescer é uma Fera é um brilho de originalidade dentro do estúdio que sempre se vendeu como original, mas que nos últimos dez anos esteve preso a vícios comerciais, com sequências a rodo e projetos sem um “tchan” de especial. Mais uma vez, é impressionante ver um filme sobre personalidade transpirando tanta personalidade por cada poro, em uma era onde o cinema está cada vez mais higienizado e padronizado. E se eu consegui “tirar o velho ranzinza de mim” e dar o braço a torcer para essa história, você também consegue.

Nota: 4/5

Red: Crescer é uma Fera chega ao Disney+ no dia 11 de março.

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Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Demon to some... angel to others (ele/dele) || @gus_fiaux