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Crítica: Luca não sai da superfície

Por Gus Fiaux

Um dos grandes lançamentos aguardados de 2021 (ao menos para os fãs de animações), Luca acaba de entrar para o catálogo do Disney+, onde pode ser acessado por qualquer assinante sem custo adicional. O filme vem para iniciar uma nova era de filmes da Pixar, com uma animação modernizada e uma simplicidade narrativa na trama que opta por explorar a amizade improvável entre criaturas do mar.

Com um grande elenco de vozes encabeçado por Jacob Tremblay, Jack Dylan Grazer Maya Rudolph, o mais recente lançamento do estúdio que nos trouxe filmes como Divertida Mente, Toy Story Soul é uma jornada dócil pela Riviera italiana, mas pode decepcionar quem espera por uma história e discussões mais profundas. Aqui, você pode ler a nossa crítica do filme!

Ficha técnica

Título: Luca

 

Direção: Enrico Casarosa

 

Roteiro: Jesse Andrews e Mike Jones

 

Ano: 2021

 

Data de lançamento: 18 de junho (Disney+)

 

Duração: 95 minutos

 

Sinopse: Na Riviera Italiana, uma amizade forte e inesperada florescente entre monstros aquáticos e seres humanos

Luca nunca sai da superfície

Após um período bem nebuloso em sua história de produções, marcado por sequências desnecessárias, a Pixar está de volta com seu trabalho único desde o ano passado, quando lançou Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica e o belíssimo Soul. E agora, o estúdio também acaba de soltar seu primeiro filme original do ano, Luca, uma tocante e divertida aventura sobre dois amigos vivendo maravilhas no litoral da Itália.

Já de início, essa parece ser a receita perfeita para mais um feel-good movie, cheio de cenas reconfortantes e com o humor dócil que já é característica desses filmes. E se é isso que você está procurando, Luca definitivamente é um prato cheio – só não vá se aventurar para além da superfície, porque o longa não está interessado nisso, ainda mais no que diz respeito aos próprios temas que levanta.

A animação ganhou uma reformulada e pode assustar os fãs mais tradicionais da Pixar a princípio. O traço segue de perto o “Estilo CalArts“, popularizado por desenhos como Steven Universe e O Incrível Mundo de Gumball, mas é inserindo em um contexto mais realista por conta do cenário. Num geral, a percepção criada é bem interessante, por manter as emoções exageradas da animação mas com um toque muito verídico em sua ambientação.

Algumas decisões estéticas também são dignas de nota. Desde o começo, nosso querido protagonista Luca Paguro quer deixar sua vida chata no mar para trás e seguir uma nova jornada ao lado de Alberto Scorfano. Por isso, em vez dos cenários marítimos cheios de vida e energia, o que temos é um oceano cinza, sem graça e desleixado, o que é bem diferente do visual apresentado em Procurando Nemo Moana, por exemplo.

Até mesmo o design dos personagens é muito delicado no que diz respeito à forma como são enxergados pelo mundo – Luca sendo o protagonista divertido, Alberto no papel do rebelde sem causa e a amistosa Giulia ganhando foco a cada nova aparição, sempre enérgica e não-conformista. Ao mesmo tempo, a animação também consegue fazer com que odiemos a pessoa certa: Ercole Visconti, um almofadinhas mimado que está sempre se achando o superior.

Em questão de narrativa, Luca sofre aqui e acolá com alguns problemas de ritmo, mas geralmente não decepciona. O que mais chama a atenção (e aquece o coração) é o clima de aventura de verão, passando um aconchego gostoso ao mostrar como a vida de Luca e Alberto muda drasticamente no momento que precisam sair da água. Os dois nutrem uma ótima dinâmica que só é potencializada pela interpretação de Jacob Tremblay Jack Dylan Grazer.

O problema é que a produção confunde firula visual com desenvolvimento de personagem. Ao longo da trama, são várias as vezes em que Luca para a história para delirar com algum conceito novo, como o sol, as estrelas ou até uma moto. Isso lembra bastante as cenas de Ratatouille onde os ratinhos começam a ter percepções extrassensoriais cada vez que fazem uma combinação de comidas.

E não para por aí: o filme faz questão de usar todo um repertório de “referências” e jogá-las de forma descarada, sem criar algo de fato novo. Como se a história em si já não fosse muito parecida com A Pequena Sereia, ainda temos um toque de A Bela e a Fera aqui, outro toque de O Corcunda de Notre-Dame acolá e assim por diante. E é triste pensar que até mesmo esses filmes da década de 90 são mais certeiros ao trabalhar um tema central: o preconceito.

Porque sim, um dos elementos que rege Luca do começo ao fim é o preconceito e o julgamento da sociedade. Desde as primeiras cenas, vemos Luca sendo julgado por seus pais e por outras criaturas aquáticas e depois, pelas pessoas na superfície. Só que em vez de debater os motivos desse preconceito e como combatê-lo, o longa opta pelo caminho fácil – fazer piadas em todos os momentos “desconfortáveis” e terminar com um final açucarado até demais.

Isso por si só já enfraquece a linha narrativa e o poder que essa história teria, mas piora quando consideramos todo o lado queercoded da história (representação alegórica para personagens queer). Em diversos momentos, é como se o próprio filme quisesse trazer esse assunto à tona mas nunca pudesse – e o motivo disso já sabemos desde que o logo da Disney aparece na tela.

No fim das contas, Luca não chega a ser ofensivo como as várias continuações que a Disney/Pixar andou lançando na última década. Mas digamos que, em uma escala de Carros 2 Toy Story 3, o filme está ali de mãos dadas com Valente O Bom Dinossauro. É bonito por seus visuais e arranca uma lágrima ou outra, mas está longe de ser uma das obras-primas do estúdio, justamente pela covardia em se aprofundar no que está abaixo da superfície.

Nota: 3/5

Luca está disponível no Disney+.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux