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Cavaleiro da Lua 1×05: O Manicômio

Por Gus Fiaux

Em seu quinto episódio, Cavaleiro da Lua escava mais a fundo o passado de Marc SpectorSteven Grant, ao mesmo tempo em que os dois precisam fazer uma corrida contra o tempo e lavar suas almas dos pecados passados… enquanto escapam da danação eterna em Duat, o submundo dos mitos egípcios.

Se você acompanhou as reviews da série até aqui, deve saber do meu descontentamento com a série e sua adaptação do Avatar de Khonshu no Universo Cinematográfico da Marvel. Até agora, todos os capítulos me soavam irregulares ou ruins, sem muito propósito na introdução desse personagem. Mas pela primeira vez, eu gostei de um episódio.

O quinto capítulo começa pouco tempo depois da “reviravolta” do episódio anterior, quando Marc e Steven acham a deusa Tuéris no hospital psiquiátrico do qual querem fugir. Aqui, a divindade revela que tudo isso não é mais que uma ilusão, já que Marc/Steven morreu e agora está no submundo, prestes a ser julgado por sua vida.

Marc e Steven estrelam uma corrida contra o tempo pela própria salvação!

Eis que ela realiza um ritual tirado de vários mitos e lendas do Antigo Egito: Ela pega os corações de Marc e Steven e coloca sobre uma balança, pesando-os contra a Pena da Verdade. Porém, o resultado não é nada animador: o peso dos corações não se equilibra com a pena, e isso significa que eles podem acabar presos nas areias de Duat.

Então, o episódio aproveita para contar mais das origens de Marc Spector, conforme Steven viaja pelas memórias de seu alter ego. É aqui que descobrimos mais sobre o irmão de Marc, Randall Spector, e como ele foi responsável por sua morte. Após todos os problemas familiares que isso gerou, foi assim que “nasceu” Steven Grant.

Nesse quesito, o capítulo faz um esforço sincero de tratar com seriedade da história desse personagem, sem espaço para piadinhas e desvios. Diferente dos capítulos anteriores (onde qualquer momento de genuína emoção era logo substituído por uma quebra cômica), “O Manicômio” sabe humanizar o personagem sem torná-lo um pateta.

Steven Grant escava as memórias do passado de Marc Spector.

Aliás, é justamente esse vai-e-vem das memórias de Marc e como Steven se vê ligado a elas que torna o capítulo tão bom – mas tão destoante dos que vieram antes. A impressão que passa é que ele é um pedaço de uma série melhor que foi simplesmente “atirado” no meio de Cavaleiro da Lua.

E tudo isso podia ter sido evitado caso os episódios anteriores focassem nos mistérios atrelados a Marc e Steven. Há uma cena, logo no começo da série, em que Steven liga para a própria mãe – e nesse capítulo, descobrimos que ela já havia morrido, e que Marc se recusou a ir até seu shivá (rito funerário judaico).

Esse é o tipo de conexão que poderia ser mais evidenciado ao longo da série. Por que só fomos descobrir que Marc – e por consequência, Steven – tinha um irmão só agora? Por que não vimos mais dessas interações de Steven com sua mãe? Tudo isso não apenas daria mais peso ao herói, mas também construiria uma reviravolta mais impactante.

Cavaleiro da Lua renascido aos pés de Khonshu!

E é até curioso, porque as demais coisas que são construídas ao longo da temporada – como a morte do pai de Layla El-Faouly ou até mesmo a ressurreição de Marc Spector aos pés de Khonshu – são surpreendentemente ligeiras no episódio. É quase como se isso precisasse ser feito logo para que pudéssemos voltar ao que realmente importa.

Porém, o cerne do personagem – a morte de seu irmão, o distanciamento de sua mãe e a manipulação de Khonshu – cumprem bem o papel desse algo que realmente importa. É a primeira vez, em toda a série, que nós vemos por que Marc é desse jeito, por que Steven existe e, principalmente, por que ele se tornou o Cavaleiro da Lua.

Diga-se de passagem, a direção de Mohamed Diab está muito afinada aqui. Em vez das câmeras na mão tremidas, o diretor decide explorar o contraste das cenas frias e apáticas do manicômio com as cores vibrantes do Duat em sua verdadeira essência, e como isso traz um elo tênue entre a mente enfraquecida de Marc e o divino em sua vida.

Adeus, Steven Grant. Que Anúbis o tenha (e o detenha).

O final ainda nos entrega um belo de um cliffhanger, conforme Steven Grant é atirado nas areias do Duat e, por conta disso, acaba sendo congelado. A cena não só tem um peso emocional grande, como também funciona como a “redenção” final de Marc, que agora pode passar para o Campo dos Juncos, uma espécie de “paraíso”.

Mais que isso, é a chance que a série tem de deixar de lado o teor cômico no último episódio. Em vez disso, o sexto capítulo pode continuar com esse teor mais sério e mais psicológico, ao mesmo tempo em que pode apresentar Jake Lockley como uma personalidade ainda mais “sombria” do anti-herói.

Claro, isso não anula o quão fracos os quatro primeiros episódios foram, mas se o capítulo serve de alguma coisa é para mostrar como Cavaleiro da Lua, assim como a alma de Marc Spector, ainda tem chance de salvação. Mas para isso, é preciso largar de vez os vícios do Universo Cinematográfico da Marvel – e sacrificar Steven Grant de uma vez por todas.

Cavaleiro da Lua é lançado semanalmente no Disney+, às quartas-feiras!

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux