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Cavaleiro da Lua 1×04: A Tumba

Por Gus Fiaux

Dia de mais uma sessão de tortura psicológica chamada Cavaleiro da Lua. A série exibiu, nesta quarta (20), seu quarto episódio, que por sua vez explora mais das consequências do aprisionamento de Khonshu e como o nosso mais novo herói precisará lidar com isso enquanto tenta impedir Arthur Harrow.

Se você leu as reviews anteriores (aqui e aqui), sabe que não estamos muito empolgados com a nova empreitada do Universo Cinematográfico da Marvel. Apesar da premissa interessante e a vasta mitologia que o herói carrega, há um desencontro forte de tons conforme a série pende cada vez mais para o humor físico e deixa de lado temas sérios.

Isso não muda no quarto episódio – na verdade, só se intensifica, conforme chegamos a uma “adaptação” de um dos arcos mais elogiados do Cavaleiro da Lua nos quadrinhos, que aqui é feito apenas para arrancar mais sorrisos, sem nenhum desejo de explorar as cicatrizes mentais e emocionais de Marc Spector e suas personalidades.

Ainda que Layla não tenha um direcionamento claro, a personagem ao menos se destaca na ação.

Como dito, o episódio começa pouco após o aprisionamento de Khonshu pelo conclave de deuses egípcios. O que mais nos atrai aqui é perceber que ele não foi o primeiro deus aprisionado e que outros também já sofreram destino similar, conforme mostra a cena de abertura onde o avatar de um deus coloca a estátua de Khonshu em um altar.

Logo em seguida, cortamos para Layla El-Faouly Marc Spector, deixados ao deus dará após toda a pirotecnia empregada por Khonshu para reverter as constelações do céu. E agora, fica claro que Steven Grant tomou de vez o corpo de Marc, graças ao acordo que fizeram anteriormente.

Esses momentos iniciais não são muito bem dirigidos, mas até compensa ver May Calamawy tendo mais destaque na ação. Embora sua personagem não tenha um propósito ou uma personalidade muito clara, a atriz é boa e dá para ver como ela está se esforçando para transformar Layla em algo mais do que apenas um interesse amoroso.

Alguém viu esse romance chegando?

O problema é que a própria série não quer ir além disso – algo que fica muito claro quando, do absoluto nada, cria-se um romance entre Steven Grant e a ex-esposa de sua personalidade alternativa. Embora exista química com Marc, Layla não tem nada a ver com Steven e o beijo dos dois parece mais desconfortável que qualquer coisa.

Mas talvez, esse seja um problema geral de Cavaleiro da Lua: na pressa por introduzir um novo personagem e sua vasta mitologia em seis episódios, a série não constrói bem os temas que quer trabalhar. Tudo é tão corrido que até o romance, que poderia ser interessante, é raso e mal construído.

Pelo menos, essa primeira metade do capítulo ainda tem um quê de interessante por emular filmes de aventura sobre escavações arqueológicas. Há um quê de Indiana JonesA Múmia e até mesmo Tomb Raider visto aqui, e a múmia “horripilante” apresentada, apesar de nunca cumprir um papel de terror, ainda tem um visual interessante.

O que está dentro do sarcófago? (*finge surpresa*)

Mas tudo muda da água para o barro com a chegada da segunda metade. Arthur Harrow consegue encontrar a tumba de Ammit e, ao chegar lá, conta que Marc esteve envolvido na morte do pai de Layla, e logo em seguida dá um tiro no peito do nosso protagonista. E isso o leva diretamente para… um hospital psiquiátrico?

É isso mesmo. Os trailers já tinham deixado claro que, em algum momento da série, veríamos algo inspirado pelo oitavo volume da HQ do herói, escrita por Jeff Lemire e com artes de Greg Smallwood. E se nos quadrinhos, há um certo peso nisso tudo porque realmente nos faz duvidar da sanidade e da história de Marc, aqui não é bem assim.

Desde o princípio, já sabemos que Marc está sendo vítima de Harrow e de sua própria mentalidade corrompida. Não há surpresa nenhuma quando ele percebe uma rota de fuga, e tudo o que vem a seguir é uma sucessão de eventos desconexos que não possuem simbologia alguma por trás, até que ele encontra Steven Grant.

Sim, pior que um Oscar Isaac fazendo careta e sendo palhaço, somente dois Oscar Isaac fazendo caretas e sendo palhaços. E sem querer ser “ai, mas no gibi…” mas já sendo, o que me incomoda sobre essa cena final não é nem o humor, a comédia ou a presença aleatória de Taweret, deusa egípcia da fertilidade, com uma voz fininha e calma.

É seriedade que você quer? Então está procurando no lugar errado!

O que incomoda é como a série continua, episódio a episódio, esvaziando o significado das histórias e da mitologia do herói. O volume 8 de Moon Knight é uma exploração de como Khonshu manipula a mente de Marc Spector para que ele sempre faça sua vontade, quase um gaslight em proporções divinas.

Por isso, ele encontra vários dos personagens que conheceu ao longo do caminho como pacientes e médicos em um claustrofóbico e autoritário asilo psiquiátrico. Porém, eventualmente ele consegue recobrar sua sanidade, colocar Khonshu em seu devido lugar e mostrar qual é seu papel como Cavaleiro da Lua.

Aqui, há reflexos disso e pequenas deixas para essa conclusão, mas a série nunca se esforça para ir lá, para mostrar como a mente de Marc é fragmentada e isso é sua maior fraqueza, ao mesmo tempo que é sua maior força. No fim, nos resta esperar para que Jake Lockley saia logo do sarcófago para salvar – ou condenar a série de vez.

E enquanto isso não acontece, vai uma recomendação: assistam Legion, que consegue ser um Cavaleiro da Lua bem melhor que Cavaleiro da Lua.

Cavaleiro da Lua é exibida semanalmente no Disney+ às quartas-feiras.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux