Silent Hill: Tudo que você sempre quis saber mas nunca perguntou

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Silent Hill: Tudo que você sempre quis saber mas nunca perguntou

Por Lucas Rafael

Mesmo com mais de 20 anos de história, oito jogos principais e uma enorme variedade de derivados, livros e até mesmo filmes em live-action, o universo de Silent Hill continua bastante enigmático.

Ao longo da franquia, a forma que a cidade se manifesta é elusiva, o que só aumenta o mistério e a tensão das almas que acabam presas por lá. Há quem acredite que Silent Hill é um purgatório, enquanto outros pensam que é uma espécie de realidade paralela.

Também há a presença de um culto no submundo da cidade, com uma mitologia extensa que é só pincelada nos jogos. Ou mesmo a constante aparição do Pyramid Head, o executor de Silent Hill 2 (2004) que se tornou quase tão grande quanto a própria saga de games da Konami.

Abaixo, explicamos tudo que você precisa saber sobre a mitologia de Silent Hill, indo além da trama dos jogos e explorando as questões pertinentes sobre a cidade e seus antagonistas!

O que é o culto de Silent Hill?

Além da crença de que a cidade de Silent Hill manifesta a psique dos personagens na forma de monstros, algumas das bizarrices e deformidades que operam no município são deidades cultuadas pela Ordem, um culto religioso que é o principal antagonista da série de jogos. Também conhecidos como “A Ordem“, “Organização” ou só “o culto” mesmo, esse grupo se trata de uma sociedade secreta que habita, é claro, a cidadezinha de Silent Hill no Maine. Mas a Ordem não está apenas restrita à Silent Hill, conforme explorado por outros games da franquia, o culto também se espalha através de outras cidades da região (Shepherd’s Glen, de Silent Hill: Homecoming, sendo um exemplo).

Beleza, mas no que essa tal Ordem acredita? Quais os seus valores, o que eles cultuam? Bem, como todo bom cultista fanático, a Ordem crê ser a única religião verdadeira do mundo, encarando as demais como mentiras e ilusões. Vale destacar, a franquia nunca bate o martelo nessa crença – pode ser que tal religião seja apenas um delírio dos cultistas que é tornado realidade pelo gigantesco poder que permeia o município (mais sobre isso para frente).

A Ordem possui diversos ramos, todos inspirados em uma mitologia respaldada por escrituras sagradas: o pacote completo do fanatismo.

Os membros do culto acreditam cegamente nos ensinamentos tradicionais embasados pelas escrituras, contando com preces próprias e tudo mais. Se esse conteúdo sacro foi escrito com fundamentos reais ou são simplesmente um instrumento de lavagem cerebral, a franquia não explicou, deixando o mistério no ar.

Um exemplo de como o culto manipula seus membros é a seita de Valtiel (lembra que falamos que a ordem possui diversos ramos? Esse é um deles). No caso da seita de Valtiel, crianças são forçadas a louvar a deus (sim, A deus, logo explicamos) do sol a cada domingo, causando uma doutrinação contínua que preda na ingenuidade dos mais jovens – que não ousam se rebelar contra os mais velhos. É assim que a religião da Ordem sobrevive a cada geração: um ciclo de manipulação através da ignorância. 

O culto de Silent Hill usa uma auréola do sol como selo (um símbolo recorrente nos games), sendo versado diversas artes esotéricas, do ocultismo até rituais arcanos, sacrifícios de sangue e magia negra.

Vale destacar que nem todo membro da Ordem é maligno. Através dos jogos, você encontra personagens simplesmente ingênuos, limitados pela percepção imposta pelo culto que integram.

Sendo o antagonista destaque e a razão por trás de muita loucura em Silent Hill, a história da Ordem é antiga e repleta de detalhes curiosos. Que tal mergulhar nas tradições e história de um dos cultos mais sinistros da cultura pop?

No que acredita a Ordem de Silent Hill?

O culto de Silent Hill se vale de forças que existem na região muito antes dos eventos do primeiro game da franquia. Existe esse termo denominado “sincretismo religioso” que significa, segundo o Google, “a mistura de uma ou mais crenças religiosas em uma única doutrina“. É importante termos esse conceito em mente quando falamos sobre a religião praticada pela Ordem em Silent Hill. Isso porque, bem, tem até colonialismo nessa história. Aliás, vale pontuar como a religião do game empresta elementos do cristianismo, folclore japonês, rituais astecas, crenças ameríndias e mais, batendo tudo num liquidificador.

Antes dos colonizadores da cidade chegarem, Silent Hill era conhecida como “Place of the Silenced Spirits” (Lugar dos espíritos silenciados, em tradução livre). Nesse local, os nativos cultuavam uma deidade chamada “Raven”, incluindo é claro cerimônias de sacrifício para ela. A força misteriosa que impera em Silent Hill já existia desde então, e os nativos a usavam para se comunicar com os mortos e mediar uma relação com a natureza.

Foi quando alguns descendentes dos colonos perceberam que havia algo na cidade que eles passaram a se aproveitar desta força, formando um culto que foi se infiltrando em posições de influência no município com o decorrer do tempo.

Para entendermos melhor a coisa toda, o ideal é se valer de uma referência bibliográfica: em Silent Hill 3, há um livro que, traduzido, se chama “Os deuses antigos de Silent Hill: Uma estudo de sua etimologia e evolução“. Sim, é um título longo demais, e até a protagonista Heather Mason concorda com você.

Neste livro, vemos que a religião nativa foi distorcida por valores cristãos, se tornando então a doutrina que conhecemos no game. Há quem teorize que o tal Raven cultuado pelos nativos é a deus sol (mais sobre ela já já) cultuada pela Ordem atualmente, com outro nome, é claro.

A crença da Ordem tem como alicerce um relativismo moral bem forte: Eles não acreditam em bem ou mal, mas apenas em caos e ordem. Diante dos olhos de seus integrantes, o mundo é um lugar horrível, cheio de sofrimento e dor. Logo, os membros da Ordem se vêem como uma espécie de elite que irá trazer à tona um novo mundo imaculado pelo mal. 

Qual a mitologia da Ordem em Silent Hill?

Embora o deus no centro da crenças da Ordem seja a deus do sol (representada em pinturas como uma mulher de cabelos vermelhos), a Ordem é uma seita politeísta que abarca anjos, santos e até mesmo outros deuses, normalmente presentes no Otherworld de Silent Hill (mais sobre ele pra frente também).

Esses deuses, entidades e santos são:

  • Deus: Seria a entidade responsável por criar o paraíso que os cultistas buscam estabelecer. Também conhecida como Mãe Sagrada e Senhora das Serpentes e Juncos. Alguns chamam Deus de Samael, mas é difícil afirmar que esse é o nome da entidade de fato, já que bilhetes encontrados no game afirmam que “Samael” pode ser um nome-insulto criado por inimigos da Ordem.
  • Valtiel: Anjo
  • Metatron: Anjo:
  • Lobsel Vith: Deus Amarelo
  • Xuchiibara: Deus Vermelho
  • Nicholas: santo, um Doutor de Deus
  • Jennifer Carrol: Santa
  • Alessa Gillespie: santa, mãe sagrada de Deus, filha de deus

Bem, segundo a Ordem, a humanidade precede a existência de Deus. Havia humanos na Terra, e todos eles eram imortais, se afundando em guerra, desespero, ódio e tudo quanto é sentimento ruim. Eis que um homem em busca de salvação do mundo ao seu redor oferece uma prece e uma serpente ao sol. Enquanto isso, uma mulher oferece uma prece e um junco para o sol, pedindo por alegria. Os pedidos dessas duas pessoas sopraram vida para deus, fazendo-a nascer.

Naquela época, o mundo não possuía uma concepção certinha de tempo. O primeiro ato de deus foi tornar o tempo algo quantificável, separando o ciclo circadiano entre noite e dia. Depois, ela planejou uma rota de salvação para a humanidade, dando alegria ao mundo. Lembra que as pessoas eram imortais? Deus tirou a imortalidade delas, para que todos pudessem conhecer a liberdade que advém da morte.

Após estabelecer o tempo e tornar os humanos mortais, a deus (ela é feminina, embora ninguém a chame de Goddess [Deusa] no jogo) se dedicou na criação de deidades e anjos (aqueles que já descrevemos acima).

A criação de anjos e deidades por deus foi realizada para que ela tivesse ajuda para adquirir a obediência humana. O presentão final da deus para o mundo seria, então, o Paraíso após o Dia do Juízo Final.

Após terminar de criar o mundo, deus criaria um lugar utópico onde as pessoas seriam eternamente felizes, um mundo sem fome, doenças, velhice nem nada dessas coisas ruins que às vezes acontecem com a gente na vida. O problema é que deus ficou muito fraca após criar o mundo, então ela meio que “morreu”. As pessoas ficaram tristes com isso, mas com seu último suspiro, deus prometeu que voltaria. As escrituras afirmam então que Ela voltou a ser pó. As pessoas rezaram e mantiveram sua fé, esperando pacientemente pelo retorno da deus, com a promessa de um paraíso sem dor.

É isso que a Ordem quer, garantir que Deus retorne para iniciar o Juízo Final e garantir, depois disso, um mundo melhor. 

O sistema de crenças da Ordem é regido por dois princípios básicos: Comprometimento total ao culto, tomando-o como o propósito de suas crenças e vidas e, em segundo lugar, a filiação, que se estende para qualquer um que aceite os Velhos Caminhos. É importante destacar que algumas dessas informações vem de Silent Hill: Homecoming, e há uma parcela de fãs que as desconsidera do cânone erigido pelo Team Silent nos quatro primeiros jogos. 

Seita de Valtiel já deu as caras nos filmes de Silent Hill

Vale destacar também como a Ordem se ramifica entre diversas seitas:

A seita da Mulher Sagrada

Tem como centro a sacerdotisa Dahlia Gillespie, crendo que a ressurreição de Deus se daria após engravidarem uma mulher com poderes místicos.

Membros de destaque: Dahlia Gillespie, Vincent Smith, Claudia Wolf, Leonard Wolf.

Seita da Mãe Sagrada:

Usam um orfanato para criar um conjurador. Chamam a Deus de Mãe Sagrada e acreditam que ela virá por meio de um ritual encabeçado por um conjurador.

Membro de destaque: Walter Sullivan, Toby Archbolt.

Seita de Valtiel:

Encabeçada por Jimmy Stone, conhecido também como Diabo Vermelho (por conta dos capuzes vermelhos que usa nos rituais de execução), a seita de Valtiel é considerada a mais próxima de Deus, praticando assassinato ritualísticos.

Lembra que falamos que a Ordem manipula crianças de um orfanato? Uma delas é Walter Sullivan, que ao ser influenciado pelo anjo Valtiel, assassinou alguns membros do culto para performar um ritual de 21 sacramentos.

Seita de Shepherd’s Glen:

Proeminente em Silent Hill: Homecoming, esta seita é composta por cultistas da Ordem que desejavam uma vida mais pacífica, partindo com os meios tradicionais e mudando de cidade. A condição aqui é que a cada 50 anos uma criança deve ser sacrificada para que a cidade não sofra os efeitos do Otherworld.

E isso nos leva à derradeira pergunta: o que é, afinal, esse Otherworld?

O que é o Otherworld, ou mundo paralelo de Silent Hill?

O Otherworld (outro mundo) é meio que um lado invertido a lá Stranger Things. Aliás, na verdade, o lado invertido de Stranger Things é que se parece com o “Lugar paralelo” de Silent Hill. Também chamado de Mundo Alternativo, Mundo Sombrio, Mundo Pesadelo e Lugar Reverso, o Otherworld é um fenômeno que se manifesta graças aos poderes da cidade de Silent Hill.

Ao entrar nele, a realidade assume um aspecto decadente, preservando os mesmos contornos de antes, só que mais podres, carcomidos por ferrugem, mais sombrios, com manchas de sangue decorando as paredes, símbolos ocultos aqui e ali, carcaças, ganchos e ventiladores. O mundo vira um lixão decadente e melancólico.

Um trecho do livro-guia de Silent Hill descreve esse mundo paralelo da seguinte maneira (via: SH Wiki:

Em Silent Hill, a fronteira entre realidade e não-realidade é indistinguível. Pode ser que a cidade em si tenha se movido para algum lugar que é como outra dimensão, ou pode ser que tudo esteja acontecendo dentro dos sonhos de alguém. Será que o mundo real aguarda além das estradas colapsadas?” 

Nos jogos da franquia, os termos “mundo” e “dimensão” são frequentemente usados para descrever o Otherworld. Embora você encontre tentativas de explicações para o fenômeno que assola a cidade, ele ainda é rodeado por mistérios.

Nas notas do diário do doutor, você encontra algumas descrições bem macabras sobre o Otherworld, indicando que ele seja “Uma doença cancerígena infectando a realidade aos poucos”. A franquia deixa claro, no entanto,  que essa “dimensão” é moldada e afetada pelo psicológico daqueles que a adentram.

O Otherworld não é restrito apenas a Silent Hill, tendo se espalhado para cidades vizinhas como Ashfield e Shepherd’s Glen.

Aos olhos da Ordem, o “outro mundo” é uma espécie de terra sagrada que abriga os seus deuses (lembra que falamos da mitologia lá em cima?).

No decorrer dos games, parece que a deus confere proteção a alguns membros da Ordem no Otherwold, além de apresentar membros que conseguem controlar as alterações dimensionais.

Em termos de gameplay, o Otherworld é uma mecânica essencial para a progressão do game, já que nesta “versão” do mundo você pode ter acesso a locais antes inacessíveis.

O que é o Pyramid Head?

O Pyramid Head (cabeça de pirâmide) é um dos monstros mais icônicos de Silent Hill, estreando em Silent Hill 2 como uma manifestação da culpa do protagonista James Sunderland por ter matado sua esposa em seu leito de morte.

Após James cometer um assassinato em auto-defesa no decorrer de Silent Hill 2, novamente ele é sobrecarregado por culpa e um novo Pyramid Head surge para puni-lo.

Apesar do monstro ser uma manifestação que empresta do psicológico de James para puni-lo por suas ações, o seu visual também simboliza o passado de Silent Hill, sendo similar às roupas que cultistas da seita de Valtiel usavam para assassinar pessoas em rituais.

Masahiro Ito, diretor de Silent Hill 2, tem problemas com o uso do personagem após o segundo título da franquia. Virando quase um mascote da franquia, a Konami tenta inserir o Pyarmid Head sempre que pode por fatores de “reconhecimento de marca”.

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sobre o autor Lucas Rafael

Redator. Entusiasta de coisas demais