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Review: Shin Megami Tensei III Nocturne HD Remaster é nostalgia pura e preguiçosa

Por Márcio Jangarélli

Ainda que o gênero JRPG seja popular no ocidente com títulos como Final Fantasy e Dragon Quest, uma outra franquia, mais obscura e adulta, é tão longínqua, incrível e influente quanto as citadas em território japonês. Estou falando de Shin Megami Tensei.

Com o quinto título da saga chegando no segundo semestre de 2021 exclusivamente para Nintendo Switch, a Atlus também remasterizou o game mais famoso da série para os consoles atuais. Shin Megami Tensei III Nocturne HD foi lançado no fim de maio e nós testamos as versões de PlayStation e Switch para escrever esta análise.

Invoque seu demônio interior e venha com a gente nessa longa, dramática e pitoresca jornada!

O que é Shin Megami Tensei?

Arte oficial de Shin Megami Tensei III Nocturne HD Remaster

Shin Megami Tensei é uma franquia de jogos da Atlus/Sega inspirada no romance japonês “Digital Devil Story: Megami Tensei”, de Aya Nishitani, lançada desde os anos 80. Por conta do teor adulto e, principalmente, “religioso” do projeto, poucos desses games receberam localização para o ocidente, assim a saga ficou famosa aqui com seu spin-off mais acessível, Persona.

Cada título numerado da série Shin Megami Tensei possui uma história independente, podendo ou não ter gerado derivados. No entanto, os games trazem temas recorrentes em seu enredo, como a aventura de estudantes colegiais, religião, ocultismo, ficção científica, apocalipse, filosofia, política, violência – entre outros – além de contar com sistemas característicos, como batalha por turnos, invocar ou recrutar demônios/personas para o seu grupo ou a negociação com esses seres.

Visual do Dante no game.

Shin Megami Tensei III Nocturne foi o primeiro jogo da franquia a chegar no ocidente – sendo o contato original de muitos jogadores com a saga. Lançado em 2003, no Japão, e em 2004, nos Estados Unidos, é um game de PlayStation 2. Nele você controla um adolescente que é transformado em meio-demônio quando a sociedade é devastada por um apocalipse vindo de forças ocultas. Nas terras devastadas, seu personagem tenta entender o que aconteceu para reverter a situação ou criar um novo mundo. 

O game conta com duas participações especiais: Raidou Kuzunoha, protagonista de outro spin-off de Shin Megami Tensei chamado “Devil Summoner”, e o Dante, da franquia Devil May Cry. Eles cumprem o mesmo papel na história em versões diferentes do jogo e podem ser recrutados para sua equipe.

A versão remasterizada de Shin Megami Tensei III, nomeada Nocturne HD Remaster, foi lançada no Japão em 2020, mas só chegou ao ocidente em 24 de Maio de 2021. O game está disponível para PlayStation 4, PlayStation 5 e Nintendo Switch.

O que achamos de SMT III: Nocturne HD Remaster?

No PS5 – Márcio Jangarélli

Sabe, JRPG é um fraco meu. Depois de jogos como Super Mario e Donkey Kong, foi nesse gênero que eu descobri minha paixão por videogames. Mas, assim como deve ter acontecido com muita gente, Shin Megami Tensei só entrou no meu radar recentemente por conta de Persona – o que faz sentido, visto que era um jogo nicho do nicho. Assim, estava bem curioso e animado para conhecer o pai ocidental da saga, Nocturne, com o lançamento do remaster.

Sinceramente, se eu tivesse jogado esse título lá em 2006, quando comprei meu PlayStation 2, não teria chegado na metade dele. E não é por ser exatamente difícil, mas porque Shin Megami Tensei III tem tantas regras e sistemas diferentes, tantas reviravoltas, truques e quebra-cabeças, que a quantidade massiva de informação acaba te desgastando demais. O game espera que você aprenda e saiba tudo antes de avançar na história. Não é natural, possui um grinding abusivo e definitivamente esse jogo não quer ou espera ser seu amigo

Porém, vários desses pontos são consequências da época, então não dá para julgar tanto com os nossos costumes atuais de jogos. Isso se eu estivesse jogando a versão original e não um remaster. Vou chegar lá.

Os monstros de Persona nasceram em Shin Megami Tensei!

É importante dizer que, com esses tópicos de lado e muito cansado, eu gostei muito de Shin Megami Tensei III Nocturne. Ele é revolucionário em vários aspectos, seja jogabilidade, roteiro ou arte, possui uma assinatura icônica e inesquecível e é um JRPG no nível máximo. Divertidíssimo se você gosta desse tipo de coisa e de sofrer um pouco.

A questão aqui é que os elogios e descrição acima cabem para a versão original, de 2004, e não para o remasterizado, de 2021. Isso porque o “HD Remaster” é extremamente preguiçoso e não faz absolutamente nenhuma alteração para tornar a experiência de Shin Megami Tensei III mais atual, acessível e prazerosa.

O subtítulo não mente: é apenas uma melhoria visual para o jogo rodar em TVs e monitores modernos sem pixelar a imagem. E olha que nem isso é 100%, quando alguns dos CGs foram retrabalhados somente com “bordas” ao lado da imagem quadrada original, para ela não ser estendida e distorcida nas resoluções atuais.

Raidou é o personagem especial da versão base do HD Remaster. Dante aparece somente na DLC Maniax, ocupando o mesmo papel.

Por conta do peso do título – é o Shin Megami Tensei que chegou primeiro por aqui – é frustrante ver um remaster tão básico. Ainda mais considerando o preço altíssimo do game, o sucesso ocidental da franquia Persona e as remasterizações belíssimas de outros títulos. Se, como eu, você jogou NieR Replicant (que é uma remasterização, remake e nova versão ao mesmo tempo) e partiu para Nocturne em seguida, o impacto é dolorido.

Vale dizer que, no PlayStation 5, Shin Megami Tensei III Nocturne HD Remaster rodou brilhante. Sem erros e inicialização, carregamento e jogabilidade super rápidos, o que impediu o game de ser ainda mais difícil de encarar. Nesse sentido, sem reclamações.

Não me entendam mal: é um grande jogo; desgastante, mas verdadeiramente incrível. Com os gráficos do remaster, a jogabilidade e trilha sonora, me deu uma nostalgia bruta de jogar um JRPG no PlayStation 2 tarde da noite, na casa dos meus pais, até minha mãe vir brigar comigo e me mandar dormir porque tinha aula no outro dia. Tempos simples, né? Mas não é só isso o que você espera e deveria receber quando considera o tamanho de Shin Megami Tensei III, o preço e as capacidades da indústria hoje.

No Switch – Gabriel Mattos

Para os padrões do portátil, a performance também não deixa nada a desejar no Nintendo Switch. Pelo contrário, o jogo parece encontrar na natureza híbrida do console respostas para alguns de seus problemas datados de design.

Nocturne é marcado fortemente pelo momento em que a indústria dos jogos se encontrava nos anos 2000, lutando para ser respeitada como uma forma séria de entretenimento. Em uma tentativa desesperada de se provar, o game exagera sempre que pode, buscando uma falsa maturidade — a dificuldade é desbalanceada, a temática é intensamente sombria e a duração, arrastada.

Hoje, há um consenso de que essa mentalidade é incompatível com a rotina de qualquer pessoa adulta, mas pouco foi feito no remaster para atualizar a experiência para um novo público. Houve a adição da possibilidade de suspender seu jogo a qualquer momento, que, aliada a portabilidade do Switch, permite sessões mais curtas. Um avanço para quem pretende encarar a duração árdua do título sem comprometer sua agenda.

A dificuldade desbalanceada foi alvo de uma atualização gratuita, acrescentando um modo misericordioso para quem não gosta de sofrer. O problema é que essa chance de rever a dificuldade do título também foi encarada com desleixo, resultando em uma versão absolutamente tediosa do game, onde toda possibilidade de desafio foi eliminada.

Remaster no Switch deixa desejar no quesito iluminação

O que acaba carregando o jogador ao longo dessa experiência, apesar dos sistemas desestimulantes, é a atmosfera apaixonante de Shin Megami Tensei. O universo apresentado aqui instiga a curiosidade de qualquer um, mesclando elementos de diversas mitologias ao redor do mundo com conceitos filosóficos intrigantes. Tudo com uma roupagem charmosa de anime que envelheceu muito bem.

A cereja do bolo é perceber que o DNA principal da franquia Persona está bem presente em seu antepassado. O dinamismo do combate em turnos e a variedade de demônios a se colecionar seguem sendo empolgantes, mas é inegável como o tempo foi crucial para que Persona amadurecesse suas ideias. Algo que faz muita falta nessa versão remasterizada.

Num geral, Shin Megami Tensei III Nocturne Remastered é a forma mais crua de uma franquia cheia de potencial. Para os fãs de JRPG mais hardcore, pode se mostrar uma nostálgica viagem pelo tempo. Mas, para quem espera excelência ao pagar o preço cheio de um jogo recém-lançado, pode ser melhor esperar até o lançamento de Shin Megami Tensei V, que chega em 12 de novembro de 2021.

Nota

3/5 estrelas.

Analisamos duas versões do remaster de Shin Megami Tensei III Nocturne. No fim, tanto eu, Márcio, no PS5, quanto Gabriel, que cobriu no Switch, concordamos que como um jogo original, o game faz jus ao quão icônico é e ao seu impacto na cultura pop. Porém, como remasterização, é preguiçoso e poderia ir muito, muito além do que foi.

Pensando nisso, uma nota média para Shin Megami Tensei III Nocturne HD Remaster: 3 estrelas.

Se você é super fã de JRPGs ou da franquia, com certeza vai gostar da nostalgia que a experiência traz e do game em si, mas não vá com muitas expectativas sobre o visual ou novidades e espere uma promoção.

Já conhece Shin Megami Tensei? Não esqueça de comentar!

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sobre o autor Márcio Jangarélli

Assessor, redator e jornalista. Madonna de Jakku.