Review: NieR Replicant ver.1.22… é um JRPG radiante, mas questionável

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Review: NieR Replicant ver.1.22… é um JRPG radiante, mas questionável

Por Márcio Jangarélli

Onze anos depois, a versão alternativa do primeiro game da saga NieR chegou ao ocidente. NieR Replicant ver.1.22474487139, uma atualização do título de 2010, vendido apenas no mercado japonês, foi lançado no último dia 23. O jogo traz uma remasterização visual e de jogabilidade para as gerações atuais de consoles, novas missões, promessas de DLCs especiais e um final inédito para a história.

Encarei a jornada do protagonista nesse mundo peculiar de dark fantasy para contar para vocês, em quantos ciclos forem necessários, se o upgrade de NieR Replicant conseguiu vencer sua sombra do passado. Vem comigo?

O que é NieR Replicant ver.1.22474487139?

NieR Replicant ver.1.22474487139 é uma “atualização” do primeiro game da saga NieR para os consoles da geração atual. O original foi lançado em Abril de 2010 em duas versões: Replicant, voltada para o mercado japonês, e Gestalt, lançada no ocidente.

Ainda que a história em si e os objetivos do game permaneçam basicamente os mesmos, Replicant e Gestalt traziam diferenças notáveis. Enquanto no primeiro você joga com o chamado “Irmão Nier”, uma versão mais jovem do protagonista, irmão da Yonah, personagem central da trama, em Gestalt ele se torna o “Papa Nier”, pai da garota. 

Junto da mudança, vários elementos do jogo foram alterados para agradar seus públicos alvo, com a versão ocidental focando mais na ação, com uma trilha sonora mais explosiva, desenvolvimento mais dinâmico e foco na relação entre pai e filha.

Replicant, no entanto, é um JRPG mais tradicional, com uma passada lenta e uma “aura” mais épica e teatral. A versão original do game nunca chegou aos mercados ocidentais oficialmente, assim a “atualização” é a estreia do título por aqui.

De acordo com o diretor do game e responsável pela saga, Yoko Taro, NieR Replicant ver.1.22474487139 não é um remake ou remaster, mas uma versão atualizada do título com retrabalhos e extras inclusos – por isso o título numérico peculiar. Ele queria evitar comparações com grandes remakes recentes, como Final Fantasy VII, mas também intencionava não passar a imagem de ser apenas uma remasterização.

NieR Replicant ver.1.22474487139 foi lançado em 23 de Abril e está disponível para PlayStation 4 (e PS5, via retrocompatibilidade), Xbox One e PC.

O que achamos de NieR Replicant ver.1.22474487139?

O quarteto protagonista de NieR Replicant.

Tenho um fraco para JRPGs. Esse sempre foi o meu gênero favorito, mesmo com algumas loucuras que essas aventuras entregam – e que fazem esses games possuírem um público muito específico. E mesmo assim, NieR Replicant foi um prato um pouco difícil de digerir, mas nem por isso ruim.

A remasterização do título em si é perfeita. Do subtítulo peculiar, lotado de números e impossível de ser lembrado por inteiro, ao retrabalho visual, sonoro e de jogabilidade, você nunca duvida que esse é um projeto da geração atual de consoles. É uma aventura visualmente estonteante, com a trilha sonora mais grandiosa e bela que você vai encontrar e um gameplay viciante, experimental e divertido. Nesses quesitos, a ver.122… de Replicant é impecável.

Digo mais: ainda hoje, 11 anos depois do lançamento do original, esse é um game único na indústria, que está assinado de uma ponta a outra pelas maluquices do criador da franquia, Yoko Taro. Mesmo duas gerações de consoles e uma infinidade de jogos depois, esse é um título que vai te surpreender das maneiras mais inteligentes. É autoral, bem feito e tudo isso é inegável.

Não é qualquer game que mistura um JRPG em um plano de fundo dark fantasy com áreas side scrolling, plataforma, hack n’ slash, regiões de gráfico isométrico e até sequências de narração interativa. É uma verdadeira colcha de retalhos em formato de jogo, mas que funciona perfeitamente.

Salas, corredores e alguns lugares especiais são em 2D no game.

No entanto, o que torna NieR uma experiência um pouco difícil é sua história. Esse pode ser o ponto mais elogiado do game, quando é aqui que ele toma seus caminhos mais corajosos e não convencionais, mas é também aquilo que vai afastar jogadores ou fazer com que  a grandeza da produção não seja compreendida.

A história de Replicant parece rápida, mas ela está brincando com você o tempo todo. São pequenas coisas que vão moldando sua estranheza, enquanto, a primeiro momento, a narrativa parece muito comum. Não se engane pela jornada do herói para salvar a própria irmã e nem pelos spoilers que NieR Automata pode sugerir. Existem camadas e mais camadas de intenção aqui e algumas percepções e incômodos que você adquire de início são propositais. A questão é que nem todo mundo vai avançar para entender isso.

As engrenagens reais dessa narrativa só começam girar muito adiante na aventura. Isso não significa que o game é ruim até isso acontecer, mas que ele esconde seus atrativos principais de propósito, fazendo tudo parecer comum demais, até genérico.

Não digo que isso é um problema, mas um alerta. NieR Replicant ver.122… rejeita parte do que poderia ser seu público para se manter autoral. O próprio Yoko Taro e equipe já sugeriram em entrevistas que entendem esse efeito, mas se mantêm fiéis ao seu tipo de criação. É um caso como o de Hideo Kojima e Metal Gear ou Death Stranding, por exemplo. O importante é saber o que você está jogando, que existem intenções nesse título que vão além da diversão ou contar uma história.

É impossível não notar a assinatura do diretor em todas as partes do game.

Porém, mesmo sendo primoroso em quase tudo ao que se propõem, a atualização de Replicant não é perfeita – e por um motivo cansativo demais e facilmente corrigível: a Kainé, uma das protagonistas do game. 

Kainé é uma pessoa intersexo. De acordo com a definição da Sociedade Intersexo da América do Norte, “intersexo é um termo geral utilizado para uma variedade de condições em que uma pessoa nasce com uma anatomia reprodutiva ou sexual que não parece corresponder às definições típicas de mulheres ou homens”. Isso é parte fundamental da história da personagem, é importante para entender como ela age e pensa. E mesmo sendo 2021, o trabalho em cima disso é vergonhoso.

Em Replicant, Kainé se identifica como mulher, mas também é uma pessoa intersexo. A história dela é construída por traumas vindos da violência que sofreu em sua vila natal por conta disso. No presente, você vê ela sendo atacada por conta da intersexualidade. Ela não entra nas vilas com o protagonista e sempre acampa para evitar essas situações. É algo que tortura a personagem por todo o jogo.

Se essa fosse a abordagem completa, na verdade Replicant teria acertado. Mesmo que seja doloroso, expor essas questões em um game conceituado, voltado para o público japonês, é corajoso, quando o país e parte do público que consome esses projetos são extremamente conservadores. Esse não foi o caso

Kainé também é “possuída” por uma Shade, que lhe garante seus poderes.

Além da Kainé andar seminua pelos campos e desertos de Replicant, mais do que qualquer outra personagem de JRPG e anime que eu já tenha visto – e isso não fazer sentido NENHUM dentro do jogo – existe também um troféu para quem fica tentando aproximar a câmera da região genital da moça. A conquista “Daredevil” é desbloqueada porque “você arriscou sua vida e espiou 10 vezes para descobrir o segredo de alguém”.

Essa é uma decisão vergonhosa. Ridicularizar uma das protagonistas do game com uma piada preconceituosa, sexista e que mina qualquer peso que o jogo tenha construído sobre a violência que ela sofreu; Qual a necessidade disso?

Pelo visto, onze anos não foram o suficiente para pensarem em mudar a hipersexualização da Kainé ou a “brincadeira” suja.

Qual a nota de NieR Replicant ver.1.22474487139?

Nota: 3,5/5 estrelas

É sempre necessário tomar uma posição. NieR Replicant ver.1,22… é excelente, divertido, inteligente e revolucionário. Mas isso não se aplica para a extensão completa da obra, que erra ao tentar fazer uma piada ruim que coloca em xeque parte da própria história e “revolução” do game.

Portanto, a nota da Legião contará principalmente a parte técnica do jogo, que é digna de elogios, quando o projeto como um todo acaba sendo frustrante

Serão 3,5/5 estrelas para NieR Replicant ver.1.22… Que erros do passado não retornem no futuro.

Você já conhece a saga NieR? Não esqueça de comentar!

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sobre o autor Márcio Jangarélli

Assessor, redator e jornalista. Madonna de Jakku.