Capa da Publicação

Review: Star Wars Republic Commando é uma relíquia elegante para tempos menos civilizados

Por Gabriel Mattos

O ano era 2005 — uma época em que a TV Globinho ainda estava no ar e Rebelde dominava as rádios. Mas nada disso importava para os fãs de Star Wars. Tudo que eles queriam saber era o desfecho da empolgante Guerra dos Clones. A Vingança dos Sith não iria estrear até a metade do ano. Tempo demais para um fã em euforia. Para controlar a empolgação, o único jeito era jogar Star Wars: Republic Commando.

O título cativou um lugar especial na memória dos fãs e, cerca de 15 anos após seu lançamento original, permanece sendo reverenciado como uma das melhores adaptações de Star Wars para videogames. Mas agora que o jogo chegou aos consoles atuais, em uma versão remasterizada para os padrões gráficos modernos, será que continua tão bom quanto lembramos?

Star Wars: Republic Commando

Ficha Técnica:

 

Desenvolvedora: Aspyr

Publisher: LucasFilm

Plataformas: Microsoft Windows, PlayStation 4, Nintendo Switch e Xbox One.

Gênero: FPS, aventura

Lançamento: 6 de abril de 2021

Visite planetas icônicos da franquia, como Kashyyyk

O lado da luz

Se você é apegado à franquia — seja devido aos filmes ou principalmente às animações — tem grandes chances de se apaixonar pelo jogo.

Republic Commando segue um esquadrão de Clones de elite da República enviado para missões secretas que Clones normais falharam em concluir. Assim, o jogador terá a oportunidade de visitar planetas famosos da saga, enquanto enfrenta uma horda de dróides de combate que lutam pelos Separatistas — os grandes vilões da trilogia prequel.

A jogabilidade segue à risca os padrões da época para tiro em primeira pessoa, uma viagem nostálgica para quem joga há algumas gerações. A progressão linear lembra um pouco Mass Effect, mas sem as regalias que surgiram ao longo da última década. Nada de proteção automática em cobertura ou escudo para as dificuldades mais elevadas.

Escolha as ordens de seus aliados

Tudo funciona do jeito menos prático possível. Não chega a ser um problema, só leva um tempo a se acostumar.

O grande diferencial de Republic Commando está no brilhante sistema de esquadrão. Como  líder do Esquadrão Delta, você precisa ordenar seus aliados a desempenhar funções bem específicas em campo. Fixer consegue hackear computadores, Scorch é especialista em explosivos e Sev é um sniper habilidoso. Lembram bastante os Mal Feitos, clones defeituosos que protagonizam da nova série Star Wars: The Bad Batch.

Cada Clone tem uma personalidade distinta

Aprender a liderar seu esquadrão adiciona um elemento de estratégia que salva o jogo da mesmice. Cada novo obstáculo se torna um desafio tático de decidir qual Clone poderia resolver aquele problema de maneira mais eficiente. Mais para a metade do jogo, inclusive, é possível usar seus aliados para preparar o campo de batalha antes de um ataque, adicionando elementos de tower defence.

Nas fases mais avançadas, sempre surge algum elemento diferente para quebrar a rotina. O início do resgate de uma nave abandonada traz elementos de jogo de terror e, quando tudo parece perdido, um Walker escondido transforma a experiência em um jogo de guerra. Pena que essas surpresas sejam muito escassas e pouco duradouras.

É legal controlar um Walker, mas dura bem pouco

De um modo geral, Republic Commando é uma experiência bem agradável, satisfatória. Nada que você não encontre em qualquer outro jogo de tiro da época, mas o cuidado em respeitar a mitologia de Star Wars cria uma imersão que encanta qualquer fã da saga.

O lado sombrio

Agora, caso Star Wars não seja bem a sua praia, talvez seja melhor procurar outra coisa para jogar.

Sem a magia dos elementos de Star Wars, os problemas do jogo são claros como água. Alguns são consequência da passagem do tempo, mas outros refletem falhas fundamentais no modo em que a aventura foi construída.

Para uma franquia conhecida por planetas exuberantes, Republic Commando entrega um mundo incrivelmente genérico. Diferente dos jogos mais recentes da franquia, como Star Wars Jedi: Fallen Order, suas fases são absurdamente pobres, limitadas e repetitivas. Os planetas não passam de uma sequência de corredores estreitos com texturas pouco inspiradas conectados por combates pouco memoráveis.

As fases do jogo são sequências de corredores repetitivos

Se os combates ao menos empolgassem, compensaria o mundo genérico. Mas sinto dizer que a restrita seleção de inimigos é igualmente pouco inspirada. Seus padrões de ataque também não passam do básico. Dróides normais só atiram, piratas espaciais atacam apenas com facas e assim vai. As batalhas não incentivam estratégias mais ousadas. É só seguir atirando sem muita preocupação que a vitória vem.

A dificuldade desbalanceada do jogo só surge pois os produtores decidiram mandar uma quantidade exagerada de inimigos em sua direção. Não chega a ser desafiador, é apenas exaustivo.

O sistema de esquadrão também não funciona tão bem quanto deveria. Apesar de seguirem as ordens mais diretas muito bem, a inteligência artificial mostra suas limitações na hora do combate. Seus aliados são basicamente um peso morto em combate. Eles raramente agem de forma efetiva e constantemente precisam ser renascidos.

Com variedade mínima, você enfrenta o mesmo inimigo centenas de vezes

O problema é quando isso se combina com o sistema inconstante de salvamento automático do jogo. Ele tem o costume de guardar o seu progresso quando sua equipe, ineficiente, está em estado crítico. Assim, quando você volta para o jogo após uma morte frustrante, está enfraquecido, sem chance alguma de sobreviver.

Essencialmente um ciclo inescapável de morte, acentuando a frustração do jogador. A única solução é reiniciar a fase. É melhor se acostumar a salvar manualmente.

Com tudo isso, não demora muito até o ato de jogar Republic Commando cair no automático. Ele até pode ser um jogo divertido, mas apenas sob as circunstâncias certas. Recomendo que jogue em sessões curtas, só um pouquinho por vez para não enjoar.

Esse é aquele tipo de jogo que você pega para relaxar após um longo dia de trabalho ou passar o tempo antes de algum compromisso. Se você procura uma diversão um pouco mais duradoura, melhor passar bem longe.

Star Wars: Republic Commando é uma relíquia, um produto de um período da indústria dos jogos que não volta mais. Tempos menos elegantes, onde o salvamento automático era uma maldição e a mira não funcionava como devia.

Mas ainda assim, conseguiu capturar a essência dessa galáxia tão distante. Se os estúdios contemporâneos aprenderem com os erros do passado, os próximos jogos da LucasFilm podem se tornar verdadeiras obras de arte.

Fique com:

Imagem de perfil
sobre o autor Gabriel Mattos

Redator que joga mais Switch do que deveria e já leu todo o novo cânone de Star Wars, até os livros ruins. • @gabeverse